Entrevista com:
- Vitor Paiva -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Comecei com 17 anos editando um jornalzinho no departamento de Bibliotecas Públicas
em 1977 e escrevendo crônicas para o Metrô- News. Nesta época
era um dos integrantes do grupo Poetasia que no final dos anos 70 organizou
happenings, antologias, recitais , chuvas de poesias e estandes de autores marginais
nas Bienais Internacionais do Livro. Publiquei com o grupo duas antologias poéticas
e um livro individual "Invenção da Surpresa" lançado
em 1982. Desde 1978 estou no que chamam de grande imprensa tendo trabalhado
na editora Abril,. Revista Manchete, Jornal do Brasil,. Jornal da Tarde , O
Estado de S. Paulo , Vogue , Trip, além de inúmeras emissoras
de rádio e tv. Fui sócio fundador do Caderno 2 do Estadão
em 1986 e do programa Metrópolis da Tv Cultura onde atuei como redator
e apresentador de 1988 a 1990. Também trabalhei nas Tvs Manchete, Bandeirantes
e CNT/Gazeta. Em todas as minhas passagens por rádio, imprensa e tv ocupei
os cargos mais variados . De pauteiro a chefe de reportagem, copidesque, repórter,
editor, e chefe de redação. Dirigia documentários para
a Tv Senac em 1997 quando apresentei o projeto do programa Literatura que foi
aprovado e entrou no ar em março de 1998. Também colaborei com
inúmeras outras publicações como colunista ou articulista.
Da revista Marie Claire a Capricho, aos extintos Leia-Livros . Repórter
Três e Música. Também publiquei como autor e co- autor inúmeros
livros para o público infanto-juvenil . O mais bem sucedido deles é
"O Brasil é feito por Nós ?" que está na 18 edição
pela editora Atual. O mais recente é "Valentão", publicado
pela editora Moderna em outubro de 1999. Durante cinco anos assinei uma crônica
no jornal "O Estado de S.Paulo" e atualmente sou articulista do Jornal
da Tarde.
Como surgiu o CEP 20.000?
O CEP surgiu há doze anos, oriundo de um evento de poesia somente, chamado
Terças Poéticas, organizado pelo Guilherme Zarvos, do qual grandes
figuras da poesia participaram, como Ferreira Gullar e João Caral de
Melo Neto. Em uma dessas Terças, o Chacal foi convidado para participar
e eles, juntos, decidiram fazer algo mais moderno e experimental... e que juntasse
a poesia com outras formas de arte. Dai veio o CEP, que junta a poesia com a
música, a dança, o teatro, a performance, o vídeo, etc...
Quem já passou pelo CEP?
Pelo CEP já passaram mais de 5.000 artistas nesse tempo todo. Mas para
citar alguns: Pedro Luís, Seu Jorge, Bianca Ramoneda, B Negão
(Planet Hemp), Cazé Pecini (MTV), Baia&RockBoys, Alex Hamburguer,
Wally Salomão, Michel Mellamed, Moreno Veloso, Jorge Mautner, Viviane
Mosé, Thalma de Freitas, Camila Pitanga entre outra multidão de
menos famosos mais não menos talentosos.
Qual o perfil do novo artista brasileiro?
Acho que o perfil do novo artista brasileiro é não ter um perfil.
Pelo CEP passam desde bandas de Punk até samba, algumas misturando tudo
outras fazendo algo bem tradicional. Alguns poetas loucos (algumas vezes, literalmente,
como era o caso do Joe, poeta que ficou famosos no rio e era interno do Pinel,
e se apresentava freqüentemente no CEP). Alguns poetas quase parnasianos.
Talvez falte até um pouco de unidade, de um movimento (que sempre ajuda
a solidificar uma idéia artística). Mas, em contrapartida, deixa
tudo em liberdade total. Pode se fazer o que quiser no CEP. Inclusive ser ruim.
Nem tudo que vem ao CEP é bom. Muita coisa não é boa. Mas
essa é a graça, e o público vem também por isso.
Como sobrevive o projeto?
Nos temos o patrocínio da RioArte, que nos permite cobrir todos os gastos
necessários, e não há quase nenhum princípio lucrativo
no CEP. No fim do mês, nos ficamos com menos de um salário mínimo
para fazer o evento. Mas feliz da vida pelo sucesso desses doze anos.
Como a internet ajuda o CEP 20.000?
Em divulgação (que nós fazemos uma grande distribuição
de e-mails mensais), em acesso mais fácil para descobrir poetas e músicos
Brasil a fora, e a Internet é um novo e incrível meio de comunicação,
e comunicação é tudo no CEP 20.000.
Quem pode participar do CEP?
Todo mundo. Realmente qualquer um. Basta mandar algum material, ou pelo menos
manter contato. Que nós colocamos em uma fila (Que não é
pequena, confesso). mas que alguma hora você participara. Poetas são
mais fáceis, pois exigem menos estrutura e são mais rápidos.
Banda é que é um pouco mais difícil.
O CEP tem um público cativo?
Sim, o CEP certamente formou um público cativo. A prova disso são
esses últimos dois anos que eu trabalho no evento e que não houve
um só mês em que as portas não tivessem que ser fechadas
devido a falta de lugar para o público que estava chegando (cerca de
300 pessoas/mês - lotação máxima do teatro). O público
que freqüenta costuma ser bem variado, mas uma boa parte é formado
por universitário (normalmente da Zona Sul - UFRJ, PUC, UniRio) e por
jovens em geral, que participam mais desse meio "alternativo"(apesar
deu detestar esse rótulo) do Baixo Gávea, Forrós, Circo
Voador, Lapa, Santa Tereza e etc.... Mas existe uma parte de pessoas mais velhas
e de outros "grupos" ou do subúrbio. É realmente bem
variado, porém fixo.
Quais as principais tendências do CEP?
Todas. Por isso se chama Centro de Experimentação POética.
E o poética do nome quer dizer poesia de uma forma geral. Poesia em música,
a poesia da dança, do teatro, da vida. Qualquer corrente que já
aconteceu ou que vier a acontecer vai encontrar algum espaço ou identificação
dentro do CEP. Da Tropicália ao Hip Hop, passando pela música
erudita, indo ao Punk e voltando aos parnasianos e modernistas. Vale tudo.
O Chacal apadrinhou ou é o fundador do CEP?
O Chacal não apadrinhou o CEP. Ele, junto com o Guilherme Zarvos, fundou
o evento e apresenta e organiza um dos dias (o evento acontece duas vezes por
mês) há doze anos.
A poesia tem que ser falada para se apresentar no projeto?
Não. De certa forma, o CEP acaba valorizando a poesia falada pelo seu
formato do show - performance. Mas nós fazemos lançamentos mensais
de poetas impressos, em uma produção independente, e já
saiu um livro de poesia do CEP chamado 7 + 1, e vários desses poetas
que já se apresentaram no CEP tem seus livros publicados. Mas, de maneira
nenhuma a poesia tem que ser falada. É só mais um meio de comunica-la.
De onde vem o nome CEP 20.000?
O título CEP 20.000 vem do endereçamento postal do Rio (que é
20.000, agora 20.000-000) e quer dizer CENTRO DE EXPERIMENTAÇÃO
POÉTICA. Mas o Chacal tem uma bela frase que diz que o "CEP é
no mínimo, terapêutico". Que é a pura verdade. Por
mais que em uma noite não aconteça nada de bom no evento, você
sai de lá pelo menos mais feliz.
Qual o papel do escritor na sociedade?
Apesar de pouco valorizado o escritor hoje em dia, principalmente o escritor
novo ou os escritores "marginais", os "Não comercias",
ele exerce um papel importantíssimo. Primeiro, de manter viva a literatura
brasileira que é a mais rica do mundo. Segundo, de retratar o seu tempo
e assim, o tempo em geral, sempre, naturalmente, sobre outra ótica. O
escritor, e principalmente o poeta, tem o papel de enfiar o dedo nas feridas,
de xeretar os buracos dos sentimentos, de contar mentiras quando quiser e de
dizer verdades. Tanto faz. O escritor tem o papel de abrir as possibilidades.
(2002)
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