Entrevista com:
Tchello d´Barros |
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- Tchello d´Barros -
Entrevista concedida ao Núcleo de Jornalismo para o Terra Cidade Virtual
Conte-me um pouco de você e aonde nasceu?
Nasci numa pequena e bela vila chamada Palmares, hoje é o município
de Brunópolis, ao lado de Campos Novos. Um dos meus orgulhos é
ser Catarinense. Sou filho da escrivã Marlene Klein e do jogador de
futebol Ribas Barros. Morei em 10 cidades do Brasil até o destino me
trazer à Blumenau em 1990, cidade que me adotou e faço questão
de divulgar pelos lugares aos quais viajo, 17 países até o momento.
Como começou seu interesse pela poesia?
Começou pela porta dos fundos, ou seja, eu sempre detestei poesia.
Quando estudante, nos empurravam goela-à-baixo, textos de poetas arcaicos,
tínhamos que decorar os versos exclusivamente para obter notas e todos
adquirimos uma aversão pela arte poética. Mais tarde, fazendo
teatro, descobri outras linguagens mais modernas e ilustrei textos de poetas
contemporâneos, quando percebi que era poeta há muito tempo,
mas nem desconfiava disso. Meus primeiros poemas foram escritos somente aos
25 anos.
Você tem outras profissões?
Tenho outras atividades, eu diria. Como sempre gostei muito de desenhar,
tornei-me desenhista ilustrador e artista plástico. Já produzi
mais de 10.000 desenhos para a indústria têxtil e realizei diversas
exposições de pintura, tendo inclusive participado de alguns
salões de arte contemporânea. No teatro participei como ator
de mais de 10 montagens e até fiz uma ponta no filme sobre a vida da
Madre Paulina. Já fui militar, surfista, pára-quedista, jogador
de voleibol, tatuador, professor e promotor de eventos culturais, mas foi
na arte que me encontrei de verdade. Sou um dos fundadores da Sociedade Escritores
de Blumenau, entidade literária que tenho a honra de presidir e tenho
ainda o privilégio de integrar a Câmara Júnior de Blumenau,
onde sou o atual Diretor de Capacitações.
Dá para viver somente de poesia no Brasil?
Dá pra sobreviver apenas. Viver mesmo, com qualidade de vida e conforto
é mais difícil. A profissão de Escritor ainda nem foi
regulamentada no país. O brasileiro lê muito pouco, como se sabe,
e as editoras investem quase nada no gênero da Poesia. Conheço
vários poetas que editam seus escritos em produções artesanais,
distribuindo entre amigos. Foi assim que comecei também. Muita gente
também não prestigia os lançamentos e sessões
de autógrafos com declamações de poemas. Preferem o anestesiante
besteirol televisivo diariamente.
Você acha que qualquer pessoa pode escrever uma poesia ou tem que
ter um dom?
Poesia é feita de imaginação, criatividade, sensibilidade,
ritmo e até um pouquinho de matemática. Esses elementos estão
dentro de todo mundo, até pessoas analfabetas poetizam, veja-se o caso
de alguns repentistas no Norte e trovadores no Sul. Basta gostar e, é
claro, abrir o coração...
Você tem quantos livros publicados, fale-me sobre cada um deles?
Publiquei inicialmente o opúsculo "Olho Nu" numa editora
de Florianópolis e todos os poemas são construídos com
monossílabos ou palavras de até três letras, num formato
de ideogramas. Depois publiquei "Palavrório", uma edição
de bolso que produzi sozinho. São poemas onde abordo questões
metafísicas e minha visão desse mundo caótico em que
vivemos. Depois, impresso na gráfica de linotipia da Fundação
Cultural de Blumenau, foi editado "Letramorfose", todo com poemas
muito curtos, com jogos de palavras, e textos onde a palavra é explorada
de forma semântica, sonora e até mesmo visual. Finalmente surgiu
"Olho Zen", uma coletânea de hai-kais, que é um tipo
de poemeto oriental, mas muito praticado atualmente no mundo todo. Além
disso meus textos fazem parte de umas doze antologias, no Brasil, em Portugal
e pela Internet em diversos sites de literatura.
Você tem algum escritor em quem inspirou-se ou tem algum preferido,
qual?
Não me inspiro em ninguém, procuro desenvolver minha linguagem
própria, mas tenho sim meus preferidos. Jorge Luís Borges, com
seu realismo fantástico é o número um. Infelizmente o
Brasil, com exceção dos próprios escritores e poetas,
ainda não descobriu esse genial argentino universal. Sou apreciador
da obra de José Saramago, que tive a felicidade de conhecer pessoalmente,
mas já acompanhava sua obra antes da badalação do Prêmio
Nobel. Não posso esquecer também de mencionar o poeta Paulo
Leminsky, pela originalidade de sua obra, é outro desconhecido do grande
público.
Que linha você segue na poesia? Como você define seu trabalho?
É uma linha experimental, que alguns chamam de vanguarda por causa
das pesquisas e efeitos. Como uso alguns elementos do neo-concretismo, meu
trabalho em poesia pode ser resumido como concretismo-minimalista. Mas também
produzo textos em formas fixas como a Quadra, o Soneto e o Hai-kai.
Quando você escreve, de onde vem a inspiração?
Acontece de duas formas diferentes. Aparecem os chamados "insights",
a qualquer momento, andando na rua, almoçando, conversando ou até
sonhando. Então anoto a idéia e depois aprimoro, ou então
simplesmente resolvo que vou escrever e começo a digitar sem parar,
coisas desconexas, donde separo o joio do trigo e vou aos poucos lapidando,
burilando.
Qual seu próximo projeto? Seus planos?
Terminar meu livro sobre minha peregrinação pela América
do Sul, onde percorri o Deserto de Atacama, o Caminho Inca de Machu Picchu,
parte do Caribe e Amazônia. Depois vou terminar duas novas coletâneas
de poemas e em 2003 vou retomar meu trabalho de pintura, com uma série
chamada Labirintos Pictóricos, cuja pesquisa já está
bem adiantada.
Quais os rumos da poesia no Brasil? Tem espaço para novos talentos?
Está crescendo o interesse pela poesia e literatura em geral. Há
boas perspectivas, haja visto o interesse dos jovens, nas últimas Bienais
do Livro que participei. Depois há a geração de internautas
leitores e autores que estão "descobrindo"a poesia contemporânea.
Eu mesmo hoje sou muito mais lido no eixo Rio - São Paulo e em Portugal
do que em Santa Catarina.
O que você falaria para uma pessoa que quer iniciar na poesia?
Leia, leia, leia. Depois escreva, escreva e escreva. Depois continue fazendo
isso misturadamente e não pare nunca mais de através de sua
escrita, fazer desse mundo um lugar melhor pra se viver com amor, beleza,
dignidade e muita, muita poesia!
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