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Silio Boccanera

- Silio Boccanera -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão nosso habitante para o Balacobaco

Silio Boccanera trabalha ha mais de vinte anos como correspondente brasileiro no exterior. Carioca, formado em Jornalismo pela Universidade Federal do RJ e pós-graduado nos Estados Unidos pela Universidade da Califórnia do Sul, começou a carreira no Jornal do Brasil, em 1970.Foi correspondente do JB em Los Angeles e em Washington, nos anos 70, e transferiu-se para a televisão na década seguinte, quando foi para Londres pela Rede Globo. Cobriu Europa, África e Oriente Médio pela Globo durante 14 anos, passando depois para o SBT, onde trabalhou por dois anos, ainda baseado em Londres. Ele continua morando na capital britânica.

Neste longo período no exterior, cobriu luta armada na América Central (seu primeiro livro foi sobre a revolução sandinista na Nicarágua), guerras na ex-Iugoslávia e no Oriente Médio, convulsões sociais e crises econômicas,

arte e esporte. Viu de perto o esfacelamento do comunismo no bloco soviético e esteve em Berlim no dia histórico em que caiu o muro. Atualmente, escreve uma coluna semanal sobre Europa para O Globo e dez outros jornais brasileiros. Em televisão, faz reportagens para um programa mensal 'Revista Europa', que aborda assuntos europeus para o canal a cabo GNT-Globosat.

Após tantos anos lidando com fatos, embarca pela primeira vez na ficção com o livro Jogo Duplo, da Editora Moderna, ambientado no Líbano, país que Silio conheceu em guerra e em paz. A história resvala por um mundo próximo ao real e envolve jornalistas internacionais em ação, mas Silio garante que nada tem de autobiográfico. Como ele diz na introdução, "tudo na história é ficção; exceto o que não é".


O que é necessário ao escritor ter no mínimo e o repórter em abundância?
Não tenho a ousadia de prescrever o que faz um bom escritor, porque, num país de Rubem Fonseca e Ana Maria Machado - para ficar em apenas dois contemporâneos de qualidade -- não me considero um 'escritor'. Sou um jornalista que escreveu dois livros. Quanto ás qualidades para ser repórter, eu recomendaria ler muito (não só livros, mas qualquer coisa, pelo menos jornais), manter-se informado, ser curioso e cético (sem virar debochado e cínico) e não ter visão conspiratória do mundo, desculpa freqüente para evitar a busca de causas reais.
Concorda que, tanto o escritor quanto o repórter, não podem ter muito "escrúpulos"?
Discordo inteiramente de que escritor ou repórter não devam ter escrúpulos. É fundamental ter escrúpulos em qualquer profissão.
Quando você considera um texto pronto para a publicação?
Impossível estabelecer um critério rígido para determinar quando um texto está 'pronto para publicação'. O julgamento é subjetivo. No caso de jornalismo, a pressão do tempo freqüentemente dita quando 'está pronto'.
Até que ponto o livro é jornalístico?
Jogo Duplo é uma historia de ficção, ambientada no meio jornalístico.
Quais são as sensações ao escrever um romance?
Escrever um romance foi experiência nova para mim, porque, após trinta anos de pratica na narrativa de fatos, pude inventar uma historia sem compromisso com a realidade. Curiosamente, dessa forma é possível discutir muitas verdades.
Quais são as diferenças entre a carpintaria do romance e a do texto diário?
Carpintaria... Como já disse, no texto de ficção, não há compromisso com os fatos, ao contrário do texto jornalístico.
Por que o livro se passa no Líbano?
O Líbano foi escolhido porque é um país fascinante e apropriado para as aventuras que se desenrolam em Jogo Duplo. Poderia, sim, ser ambientado em outro país.
Você considera o seu livro popular?
Sim, considero Jogo Duplo um livro popular, pois trata de uma aventura, uma historia de ação, e não um tratado jornalístico ou relatos de aventuras como repórter. Destina-se ao publico em geral.
Você concorda que o "Ulisses" é o melhor livro do século?
Ulisses não foi considerado 'o melhor livro do século' e sim o melhor em idioma inglês. Não posso julgar porque não li.
Você venceu em uma profissão que é quase um rito de passagem. Agora você tenta a literatura. (Risos meus) É vocação pró-sofrimento?
Minha investida na literatura é passageira. Não pretendo ocupar o espaço de gente mais talentosa para a ficção.
Há crítica no Brasil?
Há crítica no Brasil, sim, embora haja também muito 'palpite', muito 'gostei ou não e pronto'.
Você gosta de ler teoria literária?
Não leio teoria literária.
Existe melhor idade para escrever um romance?
Não ha idade apropriada para se escrever romance. Muitos grandes escritores morreram jovens.
Como explica o fenômeno Paulo Coelho?
Paulo Coelho preenche uma necessidade de certa faixa de público, dentro e fora do Brasil. O leitor 'preenche' conteúdo em muito do que lê.
Trabalha em algum livro?
Não trabalho em outro livro meu, mas acabo de traduzir um interessante romance inglês, a pedido da Editora Moderna. Trata de adolescentes que se envolvem com heroina. Vai se chamar 'Herô' , a ser lançado no fim do ano. Traduzi outro, recém lançado também pela Moderna, para o público juvenil, com o titulo 'Frio Como Pedra', historia de um assassino em série.
Quando o veremos mais vezes na internet?
Não me envolvo regularmente com chats na Internet, mas quando fui convidado a responder perguntas on-line, na época do lançamento do livro, achei estimulante conversar direto com leitores em pontos distantes.
A internet é um perigo ou um mal necessário?
A Internet não é um perigo nem um mal necessário, como tampouco o são o telefone, a televisão, o rádio, o chiclete de bola ou o tamaguchi. Bom ou mau é o uso deles.
Aonde escreveu Jogo Duplo?
Escrevi Jogo Duplo na Inglaterra, onde vivo desde 1982.
Qual o papel do escritor na sociedade?
O papel do escritor, como do jornalista, do gari ou do ascensorista é de atuar como cidadão, reivindicar seus direitos, expressar suas opiniões, escolher seus governantes livremente.

(2002)

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