Entrevista com:
Silas Corrêa Leite |
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- Silas Corrêa Leite -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Silas Corrêa Leite é autor do primeiro e-book interativo da
rede mundial de computadores, "O Rinoceronte de Clarice". O livro
está no link Interativos do site http://www.hotbook.com.br O e-book tem
11 contos fantásticos com 3 finais cada: um feliz, um de tragédia
e um de surrealismo (ou politicamente correto). O escritor garante que a obra
é um sucesso, baseado na quantidade de downloads e acessos à página.
Silas, por que você se tornou Poeta?
Eu era filho de protestantes, pai descendente de novo cristão judeu-português,
e genitora mestiça descendente de negros escravos de Angola com índios,
e tinha desde o berço essa visão simplória de que tudo
no mundo era perfeito, o equilíbrio divinal da natureza, a terra-mãe
dando tudo perfeitamente para o comer, beber, vestir, habitar, viver em paz
e confortavelmente, aquela noção pueril, até que um bendito
dia faleceu a minha avó Maria dos Prazeres Guimarães. Pois sofri
um tremendo baque que refletiu pesado no sensorial, no psico-somático,
uma tristice que virou minha cabeça, meu mundo, meu entendimento. Então
nem tudo era perfeito, nem Deus! A morte era o câncer da vida, a negação
do Criador com a criatura. Pois virei ateu de meia tigela (ou mais ou menos
isso - eu tinha lá meus cinco ou seis anos nessa nau frágil
chamada havência) - escondendo minha estupefata frustração
com Deus. Foi um choque. Era questionamento quirera na base do "se foi
para destruir, por que é que fez?". Tinha um vizinho que colecionava
clássicos russos e obras de Érico Veríssimo e outros,
daí para uma leitura-fuga por atacado foi um andaime. Tornei-me um
"ledor" feroz, obsessivo, inveterado (calava fundo ali o meu lado
"sentidor" - só para citar Clarice Lispector minha amada
musa eternal), e, quando vi, já escrevinhava alhures (no primário
ainda, no Grupo escolar Tomé Teixeira, em Itararé, e nos tais
Dia do Índio, Dia da Pátria, Dia da Árvore, Dia da Bandeira,
lia meus textos ufanistas, que a professora Nancy Penna corrigia, depois,
mais pra frente, a Professora Jocelina Stachoviack de Oliveira estimulava,
dava força, apostava na minha abstração que ela classificou
como fora de série. Família rica quando eu nasci, e pobre quando
eu, o primeiro varão da família entrava a estudar (já
meio alfabetizado e outras conhecenças mais), saquei que, até
poderia ser pobre, mas burro nunca, como o pior analfabeto que, sabendo ler
não lê. Seria dose dupla. Saquei que a Escola Pública
era o único degrau para o alto, apaixonei-me pela leitura de tudo,
e, principalmente, pelas minhas professoras todas. Começara ali a ler
não só palavras mas símbolos, gestos, momentos, olhares,
acontecências, estimas, resultantes.) Era o bendito fruto de seis irmãs
antes de mim (eu era para ter nascido bruxo, mas nasci poeta?), e, mesmo piá
de tudo, lia de fotonovelas melosas a gibis, revistas como Intervalo, Seleções,
Almanaques, jornais. Meu daí dava-me de castigo, ler aqueles artigões
dizendo da briga do Lacerda, Brizola, Jango. Fui politizado antes de ser inteiramente
alfabetizado. Aliás, até hoje acredito num socialismo de resultados.
Pois, com a soma disso tudo, num crescendo, lendo, "fugindo" nas
aventuras, histórias e pencas de conhecenças (ilhando-me de
certa forma - chamo meus poemas de Poesilhas), gostei, peguei prumo, assuntei-me.
Meu pai, quando eu era mais quase jovem, tinha programa de rádio, ensaiava
corais e bandas, compunha músicas sacras, era um belo contador de causos.
Eu mesmo, com apenas16 anos, já escrevia para um suplemento jovem que
o jornal O Guarani trazia encartado, fazia imitações e paródias
nos shows da Jovem Guarda, além de ter sido aprovado em segundo lugar
num concurso de Locutores da Rádio Cube de Itararé. Corria o
ano de 1968. Por uma série de polimentos afins, tornei-me logo o "poetinha"
local, em terra de boa imprensa, boa pedagogia, bons pintores, belíssimo
geofísico histórico de cavernas e cachoeiras. Não sei
se me tornei ou fui feito, a vida tornou-me, encalhei-me numa sofrência
ou coisa assim. Até hoje gosto mais de "ler-escrever" do
que de respirar, existir. Poesia canga, ninhais? Despojo. Procurar pegadas
íntimas na mandala das palavras. Verter-se. Em um país de contrastes
sociais, com muito ouro e pouco pão, faz escuro mas eu canto. Poeta
nasce feito? Poeta desabandona-se num não-lugar e alumbra-se, criando
o inexistente, feito um desespelho de sub-ser. Hoje perdi-me de mim. Crio
feito uma catarse, um onirismo que um refluxo de inconsciência mal-e-mal
preconiza a partir de algum certo arquivo genético-sensorial recorrente.
Silas, num poema chamado Muçulmanos, em sua home page , você diz "E essas orações em
peso invocadas para Meca/É o que os tornam Altares - Todos os Muçulmanos..."
Todos os caminhos levam a Deus?
Acho que todos os caminhos levam a Deus, de uma forma ou de outra, por linhas
tortas ou estradas de tijolos amarelos. Mesmo que seja o "deus"
de cada um, segundo a imediata visão, estado de necessidade, grau de
merecimento ou estágio de Busca. Todos serão perdoados, de uma
forma ou de outra, em mais ou menos dobra de espaço-tempo. Todos serão
salvos. Há muitas moradas na casa do Pai, o "Que-Fez", segundo
Haroldo de Campos. Com esse nome ou outro, feitio litúrgico, de compota
ou estojo terreal, mas sendo infinito e grandioso, seu perdão é
idem. Não nos criou santos, sabia-nos finitos e miseráveis.
Se não houvesse o perdão do Criador à criatura ente,
então tudo seria mesmo uma mera aventura sideral num teatro-havência
como aludiu Shakespeare.
Silas, "O amor é silencioso como um ácaro", como
você canta num verso?
O amor platônico, íntimo e clandestino, antes de tirar o véu,
a bruma (paixão & loucura), despertence-se, é como um ácaro,
um esporo, um átomo procurando o tomo par, feito um silêncio
quase prece, correndo o risco de, no devir, tornar-se até poeticamente
falando, um Porta-lapsos. Mas, paradoxalmente, também pode ser um eco
no abismo, um grude de circunstância, uma polenta que desandou. Pior:
quando grita no depositário de luz da cena de origem, tem loucuras
que a própria lucidez desconhece. Porque o amor é faca de dois
lumes. Caibro e caixilho.
Silas, como você encara a Poesia atual?
A Poesia atual, brasileirinha ou brasileiríssima, está meio
que "emepebelizada", meio para "liric" (letra de música
em feitio de verso prosaico), do que propriamente poesia pura. Mas, também,
o que é mesmo Poesia, nesses tenebrosos tempos pós-qualquer
coisa? O que é a exata pureza do fazer poético, na gamela radical
de tantos enfoques e tecnologias? Adoro Wally Salomão, Arnaldo Antunes,
João Scortecci, Ademir Antonio Bacca, Luiz Antonio Solda, Soares Feitosa,
Alice Ruiz, Paulo Leminski e Antonio Cícero, entre outros, mas sou
macaco de auditório de Fernando Pessoa, o melhor poeta do mundo em
todos os tempos, Drumonnd, Jorge de Lima, Carlos Nejar, Manoel de Barros,
Bandeira, Castro Alves, João Cabral de Melo Neto e Hilda Hist, que
considerado a melhor poeta mulher do Brasil em 500 anos. Há muitos
poetas bons no Brasil, mesmo fora da chamada grande mídia, alguns até
descobertos por Antologias que, nem sempre completas, ainda assim fazem-nos
esse favor de descobrir um e outro inédito e anônimo, o que já
vale o livro, a junção, o espaço aberto e saudável
da veiculação. É claro que temos os poetas de ocasião,
de panelas, de trupe da imprensa, de clubes e esquinas. Eu que mal sou de
mim sozinho (e um poeta não precisa de solidão para ser sozinho),
não estou em antologia nenhuma, se bem que devo sair na próxima
Revista Poesia Sempre, por obra e graça do Ivan Junqueira, e, lendo
tudo e todos, aprendo até como ser e como não ser. Afinal, nasci
analfabeto, vivo estudando e vou morrer aprendiz. E depois, a fama é
reles, não é mesmo?
Silas, a Poesia virou coisa de Professor?
Pois é, a Poesia é mais rebento de professor, jornalista, profissional
liberal, louco, autista, viciado, suicida, bacharel, artista, do que do povão
mesmo que mal tem um tostão pro leite e mel, sequer brioches. Eu, em
cada sala de aula, torno um aluno especial, num amante da boa MPB, da leitura,
da poesia, mostro um Bob Dylan, um José Nêumanne Pinto, sapeco
aqui uma Sylvia Plath, depois um Chico Buarque ou Gilberto Gil, volto a reinar
com um haikai, uns versos brancos, e assim, tento, solitário como um
lírio, tecer o amanhã, limando mais um ser sensível em
terra de primatas. Pelo menos primatas para mim que era um rapaz que amava
Os Beatles e Tonico & Tinoco, e hoje sobrevive num mundeco de um estúpido
consumismo bobo, rococó, onde uma globalização neoliberal
também de forma nefasta globaliza a violência em todos os níveis,
a ignorância coletiva de quem pensa que pensa ou acha que é o
que não é, produzindo burrezas por atacado.
Silas, qual a ligação que você tem com o Guimarães
Rosa?
O Rosa eu só fui ler (e adorar) de pleno íntimo aceite, já
na casa dos 20 anos. Ele, junto com o Machado de Assis, se fossem europeus
seriam "Nóbeis". Tenho umas pinceladas do Guimarães
Rosa, mas não o sou totalmente, claro. Entro mais num parafuso do realismo
fantástico, surrealismo, com poesia nos textos, regionalizando pro
sul-caipira. Meus amigos dizem que eu sou mais um "Silas Lispector".
Acho que é um liquidificador de tudo que bate e volta, numa mistura
saudável.
Silas, qual é o lugar para a prosa na sua escritura?
Eu sou só um metido a poeta rueiro e descalço, que acabou se
embarulhando na prosa e ficção-angústia... Como descobri,
por intermédio de editoras pouco confiáveis do ponto de vista
cultural mesmo (por incrível que isso possa parecer) que não
adiantava escrever Poesia, que não há mercado, espaço,
que "poesia não vende", para sair do limbo resolvi escrever
contos, mas não os comuns, quis ousar, sair do sério, dar com
os fulcros n'água. Aliás, poesia não deveria de se vender,
mas ser dada de lambuja, de troco, como moeda de ocasião feito pertencimento
de maria-mole-queimada, caixa de fósforo, bala paulistinha, picolé
de groselha preta, pirulito de limão. Entrei pro Grupo/Movimento Infâmia
Literária (do Nelson Oliveira - Prêmio Casa de las Américas/Cuba
- Romance Subsolo Infinito/Companhia das Letras) e, com experiência
básica de crônicas e jornalismo (inclusive Oficina de Jornalismo
na ECA/USP e elogios de Ricardo Ramos em curso de Redação na
ESPM), passei a ganhar mais prêmios como contista, do que como poeta.
Daí pra cá, vim formatando livros, romances, coletâneas
de microcontos, trabalhos infanto-juvenis, poemas temáticos, poesia
para a juventude carapintada (prática educacional vivenciada) e outros
mais, um monte. Coisa assustadora, talvez digna de um Guiness Book, Curta-Metragem,
Documentário ou Globo Repórter. Agora mesmo, estou com um romance
vivencial na Geração Editorial, de um cara cabeça que
é o Luis Fernando Emediato, e um outro com a Editora Gente. Muitos
outros foram "recusados" (mal avaliados?) por grandes editoras do
eixo RJ-SP. Também, por quase dois anos, estou com um livro de contos
(muitos premiados) em poder do Bernardo Adzenberg (Diretor de Conteúdo
da Folha Online) para ser prefaciado, e também um de poemas em poder
do Poeta José Nêumanne Pinto para ao mesmo fim. Estou aguardando,
vivenciando a expectativa de um bom retorno nesse propósito. Esse ano
já fui premiado num Concurso de Poesia do Sesc/Rotary de Cornélio
Procópio, Paraná, (poema criticando os Outros 500 do "Achamento"
do Brasil), e também no Concurso Ignácio Loyola Brandão
de Contos, de Araraquara. Já pensei ate em traduzir e tentar editar
no exterior. Será que tenho que ser mais um a morrer inédito,
deixando meu acervo para alguém do Depto. De Letras da USP, no futuro,
escrever uma tese sobre minha luta inglória? Ai de mim!
Silas, a Poesia deve ser engajada?
Toda Poesia tem - o homem é um animal político, dizia Sócrates
- o seu lado de engajamento tácito ou não. Poesia neutra ou
chinfrim como texto alheio à realidade (e tongo, saranga) do Cony,
não significa nada, não tem nada a ler. Não cria gume,
não ela, não tem visão plural-comunitária. Eu,
como Manoel Bandeira - Saravá Celso Furtado! - só acredito em
arte que seja libertação. Não separo o Poeta do Ser Cidadão.
Melhor uma poesia engajada e temática nesse fito precípuo de
ser social, humana, do que uma poesia xerox, trivial ou matemática
como pelotão de isolamento. Poesia mostra o avesso do haver-se, descasca
a cebola do indizível, traduz o sagrado-profano com questionário
íntimo novo, mexe as candeias e sacode o bolor do tédio com
vinagre. Gosto da Poesia que arranca o leitor (também receptor afinado
de vislumbre) do lugar comum, e toca fogo na canjica desse país de
jecas janotas e boçais (têm um pé na cozinha do ego doentio);
cheirando a azedos de estadias-fugas em esgotos góticos de Miami. Habemus
Poesia? Tô social. Logo, eila pisando na tábua de carne dessa
terceirizada insensibilidade que maquia um tal ISO 2001: a sub-sobrevivência
instintal
Silas, todo bom poeta é engajado?
Todo bom poeta é bom poeta e ponto!. O resto é colcha de retalhos
de mosaicos de percursos, sais, estadias e viagens interiores com cadarços
de palavras. Para um potencial de Sebastião Salgado, quanta água
com açúcar deu flash por debaixo de pontes e arquiteturas frias,
superfaturadas? Temos um holocausto nas ruas do mundo - pior que uma guerra
mundial, um nazismo - e ainda falam na montada queda do Muro de Berlim, com
tantas outras "fronteiras" e muros no capitalismo-câncer financiando
o leviano engodo neoliberalismo açodado pelo lucro nojo, lucro fóssil
de mais riquezas injustas (e impunes) na ciranda financeira de agiotas internacionais.
Velhos, crianças, sem teto, sem terra, sem pátria, sem emprego,
sem Amor, excluídos sociais entregues à própria sorte
- ninguém quer ver isso? - enquanto o futuro do Brasil ao FMI pertence,
com FHC (ex-sociólogo, ex-comunista, ex-ateu) promovendo privatizações-roubos
sem auditorias de incompetências herdadas no trato com a coisa pública
(um estado público na verdade privado pelo tucanato amoral e decadente)
ainda dizendo que o Plano Real deu certo. Pra quem? Para quê? Trocamos
nosso suado dinheirinho pau a pau pelo dólar, e hoje quanto vale? Quem
vai pagar por isso? Quem é o ladrão, o chefe da quadrilha internacional?
Dão milhões para banqueiros ladrões, milhões para
universidades privadas incompetentes, e chamamos isso de modernismo? Que golpe
é o PAS, um funesto "Programa de Assalto à Saúde"?.
Que empulhação é a tal Reforma de Ensino que não
reforma nada, fecha unidades escolares, paga menos a um educador do que a
um motorista de ônibus, dando verniz novo a quadrilhas velhas? As máfias
governam os governos. Todo Ser Humano, Ser Cidadão, até por
uma questão de foro íntimo de sobrevivência ética,
emocional, de resistência, tem que ser mesmo engajado. O importante,
afinal, não é que a emoção sobreviva?
Como é ser um "plantador de sonhos" como você diz?
Plantar sonhos é não passar em brancas nuvens nesse miserê
cultural. Se eu deixar de escrever agora, a insensibilidade vence. Tenho que
morrer lutando, para que demonstre que, pelo menos a minha sensibilidade Venceu.
Plantar sonhos é preencher com humanismo a minha quantia diária
no cheque em branco de cada dia de vida, sendo verdadeiramente Ser e verdadeiramente
Humano, nesse pais que há grande celeiro de babaquaras, e onde os imbecis
estão no poder, por isso os inteligentes têm que se unir, no
amor e na dor. Plantar sonhos é ser meio Rimbaud pós-moderno,
meio Lord Byron, meio Neruda, meio Tolstói, meio Plinio Marcos e Nelson
Rodrigues. Plantar sonhos é tentar arar consciências, deixar
a semente-arte (a melhor pedagogia é o exemplo), como uma mensagem-página
de não aceitação, de crítica ao comodismo, para
o futuro. Se houver futuro no futuro, já que a cada século piora
a qualidade do ser enquanto espécie.
Silas, mas o sonho não acabou?
O sonho acabou. Mas o artista sonha um sonho novo a cada dia. Na sua utopia
visionária única, pincela, orna, conduz, não é
conduzido. O Capitalismo é tão podre e vil como o Comunismo
imposto de cima para baixo, pela força. O Marxismo acabou? Nunca se
estudou tanto Karl Marx do que hoje em dia nas universidades americanas. O
sonho acabou para o cara pálida que se matou, anulando-se, se massificando
nessa correnteza de amebas ao estilo quase grife de: "acompanhe a maioria/Ande
sozinho." Todo artista revisa o sonho anterior, cria outros, produz,
refaz. E depois, o que é o sonho de cada um por si? Status, posses,
poder. (O status de sítio de uma grife com refil.) E o sonho de todos
por todos? Esse não vai acabar nunca. A verdade, como a tal terra prometida
é, como já cantou Renato Russo, também pode ser amar
as pessoas como se não houvesse amanhã...
Silas, qual é o lugar que a música ocupa em sua vida?
Sou filho de músico, consigo compor com uma facilidade incrível,
inacreditável. Faço baladas, blues, assim sem mais nem menos.
Você sugere um tema e eu canto incontinente. Você vem com a música
pronta e eu de presto encorpo a letra. Meus poemas são como mantras-banzos-haikais-salmos-blues.
Certa feita peguei um poema do Drumond e fui cantando em cima, com a música
casando direitinho. De outra feita, abri um livro do Garcia Lorca e cantei
o poema (de uma mulher colhendo azeitonas) que parecia moda da Mercedes Sosa.
Tenho umas letras com o Barão Vermelho, fiz até uma espécie
de "Hino do Frejat", uma letra com o grupo de rock Detonautas do
Rio de Janeiro, fiz o Hino ao Itarareense, estou fazendo o hino de minha escola
atual, já fiz um outro Mantra em parceria com um aluno de Ética
e Cidadania de uma escola de Vinhedo (Instituto Sant'Anna). Quem quiser trabalho
meu, é só me contatar no e-mail poesilas@terra.com.br -
Você tem algum "mote" de trabalho?
Vários: silêncio, tristeza, solidão, justiça,
humanismo, morte - Acho que a Morte é a minha musa. A morte é
o centro do universo? É morrendo que se nasce para a vida eterna? Eu
faço versos como quem morre, disse Manuel Bandeira. Tudo é Caos.
Tudo é "danação" de pedra. A consciência
é o registro de vida nesse plano? No começo era só o
abismal, até que um Poeta (o primeiro?) deve ter nominado as coisas,
e deu nome ao começo, meio e fim. Mas, e quando a Morte matar a morte?
Silas, qual o papel do escritor na sociedade?.
O papel do escritor na sociedade é não ter papel nenhum. Milton
Santos (esse daria um bom presidente) não quer ser político.
Quer ser ele mesmo digno, transparente. Betinho só queria dar seu testemunho
de vida, sem ter papel de rosto algum. Desconfio muito de quem quer papel
disso e daquilo, só para enfeitar o pavão da mesmice capenga.
O papel do escritor é, apesar de tudo, continuar escrevendo, registrando,
denunciando, colocando o dedo em feridas históricas de um país
de hipócritas e antros de exclusões. Os melhores Escritores
do mundo, eram, e apenas eram circunstancialmente, diplomatas, professores,
peregrinos, jornalistas, compositores, profissionais liberais, funcionários
públicos, vagabundos, amantes, boêmios, mal resolvidos, mas,
principalmente eram independentes para errarem e acertarem (com isenção)
prosas e versos. No link Poetinha Silas do site de Itararé
- consta uma breve bibliografia minha até 1998, mas eu não falo
muito de cursos, vida profissional. As crianças e os jovens são
minha plantação de sonhos, canteiros, a minha mensagem de amor
para o futuro. E fazer poesia a qualquer momento, por qualquer toleima ou
mixórdia de achar-me nulo ou atado, é a minha forma de pedir
paz, pedir justiça. Afinal, a Esperança é a inteligência
da vida. Como não há sensações no esquecimento,
escrevo, lavro, vou amealhando matizes e iluminuras de meu próprio
percurso-vida. E que Deus tenha piedade de nossa miserabilidade, onde a própria
poesia tende a ser um mero Eco no Abismo. "Ser Poeta é a minha
maneira/De chorar escondido/Nessa existência estrangeira/Que me tenho
havido"
Silas, para encerrar, o que você gostaria de dizer?.
A literatura atual, como todo o mundo, está numa época de "travessia",
de entressafra. Eu mesmo, de uma hora para outra, virei escritor virtual,
porque tive uma ótima idéia (e um ótimo livro, segundo
críticos, intelectuais, jornalistas, escritores) foi recusado como
"Literatura em 3 Dimensões" pela Companhia das Letras, e
acabou sendo descoberto e virando e-book de sucesso, estando no link Interativos
do site http://www.hotbook.com.br, onde uma coletânea chamada O Rinoceronte
de Clarice tem 11 contos com 3 finais cada, um feliz, um de tragédia
e um de surrealismo ou politicamente incorreto, permitindo ao leitor internauta
copiar grátis pro seu pc, votar no melhor final do conto, bem como
- e esse é o lado interativo que o projeto pioneiro propõe -
pode escrever um final todo seu, e encaminhar pro provedor. Ao final do ano
deve ser escolhido o melhor final do leitor para cada ficção,
e anexado ao livro que, certamente, cedo ou tarde será impresso, desde
que um gerente editorial tenha um instante-fragmento de insight e enxergue
longe, enxergue melhor minha obra como um todo. Foi escrito em 1968, e ainda
hoje é pioneiro e único do gênero na rede mundial da Internet,
a partir de pesquisa feita em Nova York. Ganhei vários prêmios,
até na USP e na Universidade do Oeste do Paraná (Concurso Paulo
Leminski de Contos), fui elogiado, entre outros por Jamil Snege, Elio Gaspari,
Ricardo Ramos e Revista Aldéa da Espanha, estou em Antologia Multilíngue
de Poetas Contemporâneos da Itália (entre outros países),
e permaneço inédito em livro próprio no Brasil. Acredite,
se quiser. Imagine se eu fosse amigo de algum dono de editora com alguma sensibilidade,
visão cultural e noção de literatura, e não um
mero apreciador do tilintar de uma caixa registradora?. De qualquer maneira,
agradeço a gentileza desse precioso espaço precioso, a força,
a visão, a leitura dos meus textos estranhos e loucos, esperando que
um dia eu possa, feliz e desmamado do ineditismo, anunciar um coquetel para
lançamento de um livro de contos, um romance, uma novela. Do CAOX nasce
a luz? Tudo é possível. Torço por isso. Milagres acontecem...
Obrigado e até a próxima.
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