A Garganta da Serpente
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Ryoki Inoue

- Ryoki Inoue -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão nosso habitante para o Balacobaco

Ryoki Inoue, 52, é um autêntico workaholic, maníaco por trabalho, com horror a ficar parado. Prova e exemplo disso é seu último livro, Entrelivros, feito para descansar, nos intervalos entre os 1.050 livros que escreveu Formado médico pela USP, especialista em Cirurgia do Tórax, Ryoki deixou a medicina em 1986 para se tornar escritor. Em pouco tempo, dominava 95% dos pocket books publicados no Brasil: escreveu 999 novelas em seis anos, entre estórias de faroeste, guerra, policiais, espionagem, amor e ficção científica..
Devido à sua intensa e extensa produção literária, desde 1993, Ryoki Inoue figura no International Guinness Book of Records, como o homem que mais escreveu e publicou livros em todo o planeta.


Quando a literatura entrou na sua vida?
Acho que nasci com a literatura nos genes. Minha mãe era professora de português, francês, grego e latim e dava aulas de literatura na Faculdade de Filosofia da USP. Meu pai, médico, tinha como seu maior prazer a leitura. Era mais ou menos óbvio que eu acabasse desenvolvendo uma forte tendência para as letras. Contudo, só vim a me dedicar profissionalmente a escrever, aos quarenta anos de idade.
Por que trocou a medicina pela literatura?
Formei-me na USP, fiz residência em Cirurgia do Tórax (R-1, R-2, R-3, R-4 e R-dículo), doutorei-me, caí no mundo, cliniquei e operei por dezesseis anos e achei que tinha feito já o suficiente do ponto de vista da dívida que eu tinha para com a sociedade, por Ter cursado uma faculdade pública. O que eu sempre gostei de fazer foi escrever e, assim, decidi deixar tudo de lado e me dedicar única e exclusivamente à literatura. Não houve qualquer motivo outro. Não me decepcionei com a medicina, muito embora, aqui no Brasil, ela seja bastante decepcionante: descobre-se que aquilo que se aprende na escola jamais conseguirá ser posto em prática para o povo, apenas para alguns mais bafejados pela fortuna... Isso é triste, mas é a realidade.
Quais escritores mais o influenciaram?
Li muito e leio muito até hoje. Sinceramente, não sei dizer se fui diretamente influenciado por algum escritor, brasileiro ou não. Posso dizer, isso sim, que sempre apreciei o Fernando Sabino, o Ruben Braga, o João Ubaldo Ribeiro, o Otto Lara Rezende. Dos clássicos, tupiniquins, o Machado, o Menotti, Lobato, Cassiano Ricardo... Dos estrangeiros, principalmente os grandes best-selleristas que, na verdade, foram uma boa escola para mim. Posso citar o Higgins, Ken Follet, Forsyth, Robbins, Sheldon, Konsalik e muitos outros. Também li os clássicos como Euclides da Cunha, Joyce, Eça... Ler é sempre muito bom!
Você escreveu mais de mil livros. Falta ainda escrever sobre alguma coisa?
A imaginação humana é ilimitada, graças a Deus. Por isso, acho que se Ele me der tempo, chego aos dois mil... E sempre com temas diferentes, posso garantir.
Como percebeu que, por ter escrito tantos livros, poderia entrar no Guinness Book? Conte-nos a façanha.
Não percebi. Fiquei sabendo através de uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo e tive a confirmação de que não era piada quando os repórteres começaram a me procurar para entrevistas.
Qual a sua definição para romance?
Romance é uma história que fala dos sentimentos humanos e que, em algum ponto pelo menos, fala de amor. Na realidade, o romance em si não passa de uma história de Romeu e Julieta. Esta é a raiz. Tudo quanto se escreveu, no fundo, é sobre o mesmo tema: o amor, amor difícil, sofrido, triste e ao mesmo tempo cheio de felicidades, pequenas e grandes... A criatividade e a originalidade do autor é que fazem a diferença entre um romance e outro.
Há alguma receita para ser tão profícuo?
Dou um curso através da Internet em que dou todas as dicas para se produzir um ou vários romances.
Sob quais pseudônimos escreveu e para quais editoras?
Fui obrigado a usar - as editoras assim o exigiam - 49 pseudônimos, todos americanos ou ingleses. Escrevi para todas as editoras de pocket-books do Brasil e para várias outras, depois que completei mil livros escritos e publicados e que percebi que as editoras de Pockets não queriam saber de progredir. O resultado está aí. Hoje em dia, infelizmente, não se vê mais o gênero pocket nas bancas ou livrarias.
Como o crítico recebe o seu trabalho?
Como Harold Robbins dizia, vivo bem sem a crítica e a crítica vive bem sem mim. Vamos deixar as coisas assim.
Qual deve ser o papel do crítico?
O crítico deve criticar. Porém, para tanto, em primeiro lugar ele deve ler a obra a ser criticada. Depois, ele deve Ter algum conhecimento para poder criticar. E deve ser desprendido de tabus e preconceitos. Como se pode perceber, são qualidades um bocado difícieis de se encontrar nos críticos, especialmente aqui no Brasil.
Você vive de literatura?
Sim. Única e exclusivamente.
Há pouco você fundou a Vertente. Qual a linha editorial da sua editora?
Não temos uma linha editorial exclusiva. Interessam-nos obras de autores brasileiros, principalmente daqueles que vêm batalhando por um lugar ao sol. O material sendo bom, nós propomos a parceria.
Quais foram os principais lançamentos da Vertente?
Tivemos excelentes livros este ano. Mas posso destacar "O Pacto", de Clélia Romano, "A Magia Branca a Serviço da Culinária Afrodsisíaca", de Nicole Bartel, "A Tragicomédia Acadêmica", de Yuri V. Santos, "A Auto Hipnose e Você", de Nelson Feitosa. E um livro de poesias caboclas espetacular chamado "Tristezas Enluaradas", de Antonio Zanotti.
Como era sua relação com as editoras e como é a relação dos escritores com a Vertente?
Sempre me relacionei bem com meus editores, muito embora todos eles fossem muito difíceis de lidar. Quando fundei a Vertente, tomei por princípio ser o mais aberto possível para os autores e fazê-los sentir a Editora como um prolongamento de suas casas. Tenho conseguido.
Como vê a internet no aspecto de divulgação e de venda de produtos literários?
Só para você Ter uma idéia, 90% dos livros que publicamos vêm da Internet. E uma boa parte das vendas também.
O livro está com os dias contados?
Não. Jamais o livro será prescindido. Pode acontecer de surgir uma nova forma de se apresentar um livro. Mas sempre será um livro, algo em que se lê e em que se aprende.
A questão da quantidade e da qualidade... Tudo que você escreveu é bom?
Se não achasse bom, não teria publicado. E quantidade pode andar perfeitamente passo a passo com a qualidade. Asimov escreveu quase setecentos livros...
Ser um escritor popular é algo menor?
Ao contrário. O escritor que vira suas baterias para o povo, tem até mais mérito do que aquele que se dedica a uma elite apenas. O povo precisa Ter o que ler, precisa aprender a apreciar o livro e a compreender que é nele que vai encontrar o verdadeiro conhecimento. Falam mal do Paulo Coelho. Mas, independentemente de qualquer coisa, ele tem um mérito enorme: encontrou a linguagem que o povo quer e precisa ler.
Qual a principal característica de um bom escritor?
Conseguir transpor para o papel suas idéias de maneira clara para que qualquer um possa entendê-lo. E, óbvio, ter boas idéias.
Qual o conselho daria para o jovem escritor?
Escreva. Escreva todos os dias até que a interação cérebro mãos seja automática, seja a tal nível que o pensamento passa automaticamente para os dedos no computador. Não tenha medo de escrever e de mostrar o que escreve. E, principalmente, lembre-se que escrever é uma profissão e não apenas um hobby.
Qual o papel do escritor na sociedade?
Qual será o maior formador de opiniões? Não será, por acaso o escritor? O cinema nada mais é que a transposição para imagens de uma história escrita por alguém. O noticiário televisivo nada mais é que a leitura de notícias que alguém escreveu. Tudo é feito através da escrita. Desde as coisas que têm relação apenas com o mundo material até aquelas que dizem respeito apenas ao mundo espiritual, ao mundo interior de cada um. O escritor é aquele que mexe com essa mídia. Que faz surgir e divulga uma idéia, um pensamento, uma posição política ou filosófica. Daí, enfim, a importância do escritor na sociedade.

(2002)

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