Entrevista com:
- Moacy Cirne -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Nascido em Jardim do Seridó, RN, em 1943, é professor
do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal
Fluminense - UFF, em Niterói, RJ. Autor de dezenove livros, entre os
quais Objetos Verbais (1979), História e Crítica dos Quadrinhos
Brasileiros (1990) e Quadrinhos, Sedução e Paixão (2000),
é o editor do Balaio, "folha porreta", desde 1986.
Há quanto tempo existe o Balaio? Como faz para editá-lo e
qual a dificuldade em fazê-lo?
O Balaio, em seu formato impresso, começou a ser editado no dia 8 de
setembro de 1986: com 90 cópias, no início, distribuídas
nos primeiros meses apenas no Curso de Comunicação da UFF, em
Niterói, onde sou professor desde 1971. Em 1990, a tiragem média
já oscilava entre 180 e 220 exemplares, dos quais cerca de 50/60 eram
enviados por mala direta. Sempre o considerei um panfleto; sempre levei em conta
que era uma espécie de jornalzine para ser panfletado. Ao completar 15
anos, em setembro do ano passado, passou a ter uma versão emeiopanfletada.
Para editá-lo, tomei como referência uma máxima do nosso
Cinema Novo, devidamente adaptada: "Uma idéia na cabeça e
uma folha na mão". As dificuldades são as de qualquer trabalho
solitário, que envolve cabeça, corpo e coração,
além de tempo e dinheiro.
Você foi um dos principais criadores do poema/processo. Como encara
o fato de hoje, decorridos mais de trinta anos da criação do mesmo,
ele não ser lembrado como o concretismo é?
As marcas de sua radicalidade não foram absorvidas até hoje,
nem pelo sistema literário (poetas, críticos e professores de
letras), nem pelo sistema concretista (irmãos Campos e similares). Não
é fácil ser coerentemente radical, como o fomos. Nos anos 60 e
70, se dois ou três poemas concretos incomodavam muita gente, um poema/processo
incomodava muito mais. Mas é preciso fazer uma autocrítica: não
soubemos enfrentar a barreira da mídia a serviço da elite conservadora,
nem soubemos atingir muitos dos poetas novos. O poema/processo, em sendo redescoberto,
continuará espantando, espero que de forma positiva.
O que falta na poesia brasileira hoje? Qual tipo de movimento sacudiria
o marasmo em que estamos?
Provavelmente, ousadia, invenção, porradas verbais. Mas há
bons poetas. Entre os mais conhecidos no Sul Maravilha, Sebastião Nunes,
Carlito Azevedo e Glauco Mattoso, por exemplo. Entre os menos conhecidos, Nei
Leandro de Castro, Iracema Macedo, Lau Siqueira e Avelino de Araújo,
este um poeta visual. Aliás, a poesia visual brasileira vai bem, obrigado.
Não tenho receita para nenhum tipo de movimento capaz de sacudir o marasmo
dos dias atuais. Investir no experimentalismo e na ousadia pode ser uma boa.
Mas, sobretudo, investir na competência e na sensibilidade. Um provável
movimento, depois da poesia concreta, da instauração práxis,
do poema/processo e da poesia marginália, teria que ser múltiplo:
"experimental, mas sem perder a ternura jamais", parafraseando um
famoso guerrilheiro, o Che. Aliás, Nei Leandro já utilizou essa
paráfrase.
Quem é o poeta brasileiro hoje e quem era ele nas décadas
anteriores?
O poeta, hoje, continua sendo um guerrilheiro da cultura. Como antes. Só
que mais antenado, mais informado, e, em alguns casos, infelizmente mais individualista.
Esperemos que o seu individualismo seja produtivo socialmente...
Como encara a Internet na divulgação de cultura e poesia?
Como um meio e um suporte absolutamente fantásticos, seja para a feitura
de poemas, seja para a sua divulgação. Só que, no caso
da poesia visual, não podemos nos deixar enganar por suas facilidades
gráficas na esfera computacional. A facilidade, qualquer facilidade,
é inimiga do poeta, do escritor, do artista.
Com quantas metáforas se faz um poema?
Com uma. Ou com mil. Depende do poema: "tudo vale a pena/ se a poesia
não é pequena". Parafraseando, mais uma vez. Agora, Fernando
Pessoa.
O poema visual descende do poema/processo?
Do poema/processo, do neoconcretismo, do espírito dadá, da popart,
do grafismo...
Qual a grande arte? Acredita como Walter Benjamim que existe uma arte superior
à outra?
Toda arte, quando bem feita, pode ser uma grande arte. De Johann Sebastian
Bach, músico ímpar, a Will Eisner, quadrinheiro exemplar, de Miguel
de Cervantes, escritor magnífico, a Orson Welles, cineasta maravilhoso,
todos fizeram arte da melhor qualidade. Aliás, Eisner continua produzindo.
É o que interessa, em última análise. Benjamin afirmou
tal coisa?
Tem algum mote que o acompanhe pela vida? Alguma epígrafe?
Há dois motes que me atraem, há muito: "Ver com olhos livres",
de Oswald de Andrade, e "O sonho é mais forte do que a experiência",
de Gaston Bachelard. Mas a citação de Fernando Pessoa, parafraseada
antes, também me embriaga.
Qual o papel do escritor na sociedade?
Hoje, como ontem, refletir e ser um reflexo: nada existe por acaso, nem a
arte, nem a poesia. Decerto, não pode ser um reflexo mecanicista, um
reflexo sem vida própria, sem paixão. Digamos que seja um reflexo
amorosamente crítico. Ou criticamente amoroso.
(2002)
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