Entrevista com:
- José Mendonça Teles -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
José Mendonça Teles nasceu em Hidrolândia, Goiás,
no dia 25 de março de 1936. É professor titular na Universidade
Católica de Goiás. Possui 24 livros publicados: contos, crônicas,
poemas, história e ensaios. Reside em Goiânia, onde é Presidente
do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Já
recebeu o prêmio "Assis Chateaubriand" e a Medalha João
Ribeiro, da Academia Brasileira de Letras e o Prêmio Clio de Historia,
da Academia Paulistana da História, entre outros.
Como foi o primeiro contato com a literatura? Quais sensações
tinha ou tem ao lembrar da infância. Há algo especial quando Marcel
comia biscoitos, no Em Busca do Tempo Perdido, de Proust? Escrever é
lidar com o lúdico?
Morando numa cidadezinha do interior, onde o tempo não passava na
janela, eu corria minha liberdade pelas ruas de meus 9 anos, sem lenço
e documento. Um dia, a professorinha do grupo escolar me ensinou a declamar
"Meus oito anos" de Casimiro de Abreu, numa festinha de homenagem
ao santo padroeiro da cidade. Fui muito aplaudido, tomei gosto pela coisa
e nunca mais me esqueci "da aurora de minha vida/ de minha infância
querida/ que os anos não trazem mais!"
A infância para mim é um momento lúdico, terno, uma caixinha
preciosa guardada no armário da solidão, daí o meu poema:
"Olhei fundo nos meus olhos/ vi que o tempo tem um fim/ Fui lá
dentro chorar a infância/ fechei as portas de mim". Lembro-me diariamente
dela, pois tenho mania de caminhar de ré, para frente. Se Marcel comia
os seus biscoitos, como os biscoitos de minha mãe! Aqueles biscoitinhos
fritos de quebrar desjejum e carinhosamente colocados na mochila da escola.
Ah, minha mãe, em que metáfora do universo você se escondeu?
Eu sou um maior abandonado, um menino grande que perdeu o seu brinquedo na
memória do quintal!
O lúdico é uma porta para se chegar no terreiro da memória.
Quem entra não quer sair, pois há tantos jogos, tantos entretenimentos.
Sair para quê? Para ver o sol nascer quadrado, viver preso nas artimanhas
da sociedade capitalista? No lúdico o tempo é construído
com tijolos de liberdade.
Dizem que livros são como filhos, gosta-se igualmente de todos.
Há algum (livro de sua autoria ou não) predileto?
Tenho 24 filhos, isto é, livros. Todos foram gerados com muito amor,
tesão e orgasmo. Não tenho queixas deles, cada um vem cumprindo
seu dever de mostrar que é gente, que tem uma meta a cumprir, isto
é ensinar que nem só de pão vive o homem. O livro é
um agente espiritual. Amo meus filhos e eles me amam. São carnes da
própria carne.
Para o texto ser revolucionário, deve haver conteúdo e forma
evolucionários, ou com apenas um dos ingredientes, a revolução
pode ser feita? Existe novidade hoje em dia?
Revolucionar, no meu entendimento, é o que fica, após o processo
depurativo. Machado de Assis, Drummond, Bandeira e Vinícius são
revolucionários no conteúdo e na forma, pois levaram sua literatura
ao encontro do povão, que os consagrou, depurando-a. Nada há
de novo debaixo do sol. Se há novidade, está debaixo da lua,
inspiradora de poetas e exegetas.
O senhor é angustiado por alguma influência? Harold Bloon
aponta Shakespeare como o inventor da modernidade. Concorda?
Não tenho nenhuma angústia. Sou um escritor simples, da aldeia,
que vive no seu cantinho em Goiânia, Goiás, brincando e brigando
com as palavras toda manhã, mesmo sabendo que é um luta vã.
Se Harold Bloon diz que Shakespeare inventou a modernidade é preciso
saber, primeiro, quando começou a modernidade. É coisa do século
quinze (época do notável dramaturgo) ou dos tempos de hoje?
Walter Benjamin erra quando hierarquiza a arte dizendo que o cinema é
a maior delas?
É opinião dele, respeito-a, mas também tenho a minha:
a maior arte é a literatura, que deixa tudo registradinho, letra por
letra. Em cima dela, os cineastas fazem sua festa, soltam foguetes!
Quem é o escritor brasileiro?
É um sonhador, que está sempre escrevendo uma obra prima, enquanto
a prima obra.
Qual uso faz da internet? O livro acaba? O desmatamento também?
A única coisa que aprendi no computador foi digitar meus textos. Não
pretendo sair disso, por enquanto. Quanto mais o homem se moderniza, mais
sente falta do antigo. O livro será sempre o antigo e o antigo tem
sabor de eternidade. Já o desmatamento terá o seu fim quando
chegar às margens do rio ou do mar oceano.
Qual epígrafe personifica o senhor e sua obra?
Acho que se enquadram bem nos dois tercetos do soneto "Debaixo do tamarindo",
de Augusto dos Anjos:
"Quando pararem todos os relógios
de minha vida, e a voz dos necrológios
gritar nos noticiários que eu morri,
Voltando à pátria da homogeneidade,
abraçada com a própria eternidade
a minha sombra há de ficar aqui"!
O papel do escritor na sociedade é ser, como diria Erza Pound, antena
da raça?
Concordo em gênero, número e grau e acrescentaria mais um pau:
ou seja, uma luzinha na ponta da antena para alumiar os lugares onde a raça
assenta praça!
(2002)
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