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Entrevista com:
- Matias Mariani -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Matias Mariani nasceu em São Paulo em 1979, mas se mudou muito cedo
para o Rio de Janeiro, onde passou grande parte de sua adolescência. Voltando
para São Paulo aos 15 anos, Matias estudou no colégio Logos, onde
lecionava o poeta Frederico Barbosa, o qual incentivou-o em seus primeiros ensaios
literários. Em 1999 Matias publicou, como edição de autor,
seu primeiro livro de poesia, intitulado "Dois Pontos" (Selo Sebastião
Grifo). Atualmente ele reside nos Estados Unidos e estuda cinema na Universidade
de Nova Iorque. É também co-editor da revista de poesia e crítica
literária Sebastião, ao lado dos poetas Paulo Ferraz e Pedro Abramovay,
a qual está agora em seu segundo número. A pouco, Matias concluiu
seu primeiro curta-metragem, "O Não de São Paulo", sobre
a vida esparsa e caótica na metrópole que adotou como sua.
Qual Mundo é O MUNDO DESTE FIM?
Walter Benjamin em Teses Sobre a Filosofia da História descreve um ser
fantástico, o Anjo da História: "Ele tem o rosto voltado
para o passado. Onde para nós se apresenta uma cadeia de eventos, ele
não vê senão uma paisagem de catástrofe, que se altera
a cada toque de seus pés sobre as lápides. Ele bem que gostaria
de se deter, acordar os mortos e reunir os vencidos. Mas do paraíso sopra
uma tempestade que se abate sobre suas asas, tão forte que o anjo não
pode tornar a fechá-las. Essa tempestade o empurra incessantemente para
o futuro, para o qual ele tem as costas voltadas, enquanto diante dele as ruínas
se acumulam até o céu". Ao ler este texto o poema me veio,
incipiente. Hegel, que é um filósofo que nunca me interessou pessoalmente,
também me deu um verso, com uma citação que li de passagem:
"A melhor coisa que uma criança pode fazer com seus brinquedos é
quebrá-los".
Por que escrever palavras e fazer barulho na cabeça dos outros?
Sempre me interessou o reflexo involuntário da leitura, gerado pela mera
presença de um texto no nosso campo de visão. Um texto gera, primordialmente,
o som de suas letras na cabeça do leitor, mesmo que o mesmo não
conheça a língua que o originou. Portanto, acho interessante sublinhar
esse caráter quase automático presente no ato de se escrever um
texto, que é a criação de sons na mente de outrem, um futuro
leitor
Quando que o chão passa a ser um homem?
Este poema, Quarteirão, me veio como uma tentativa de se conter a paisagem
urbana em figuras geométricas, mais especificamente no quadrado, e como
este esforço é necessariamente em vão. As formas urbanas
sempre escorrem para fora da geometria, como um mendigo no canto do polígono-visão
pode ser muitas vezes confundido como um pedaço de calçada.
O que são ¨Situações¨? São pequenos contos,
crônicas? Como você define as suas situações? Fale
sobre
"Situações" são memórias alheias. Tento
imaginar personagens que tenham vivido determinadas situações,
e transcrevo detalhes irrelevantes que eles lembram daquele momento. Não
acho que são crônicas. Não acho que são contos. Acho
que são poemas, pois eu assim os chamo.
No poema REBECA DUBLIN há uma aproximação a Joyce?
Não. Nunca me aprofundei suficientemente em Joyce para ser uma influência.
Como é ser considerado um poeta inventor?
Acho lisonjeiro.
Como é fazer parte da antologia Na virada do século - Poesia
de Invenção no Brasil?
É muito bom, sem dúvida. É raríssimo uma antologia
tão bem trabalhada, tão abrangente aparecer no cenário
poético brasileiro, esta Na Virada do Século sem dúvida
será um marco. E por isso devemos agradecer Frederico Barbosa e a Cláudio
Daniel, que tiveram a dedicação e a precisão necessária
para fazer uma antologia única.
Com quantas metáforas se faz um poema?
Às vezes nenhuma.
Tem alguma epígrafe?
Para minha vida? Não. Mas ultimamente tenho pensado muito sobre um verso
simples de Augusto dos Anjos, presente no Monólogo de uma Sombra:
"A alma dos movimentos rotatórios
"
Qual o Drummond dentre os diversos Drummonds você destaca como seu
predileto?
D'O Elefante.
Para que serve a poesia?
Em essência, não serve para nada. Mas cada um pode dar-lhe o uso
que deseja.
Qual o papel do escritor na sociedade?
Eu acho que o papel do escritor na sociedade, como catalítico de mudança,
é altamente restrito nos tempos atuais. Concordo com o escritor americano
Don DeLillo, que no livro Mao II, escreve na fala de um dos seus personagens:
"Anos atrás eu acreditava que era possível para um romancista
mudar a vida íntima de uma cultura. Agora, homens-bomba e atiradores
tomaram este território. Eles organizam invasões a consciência
humana. O mesmo que os escritores costumavam fazer antes de serem incorporados".
A vanguarda existe?
Não mais da forma que foram inicialmente concebidas. Mas certas coisas
continuam valendo. Continuo acreditando no Breton de "A beleza será
convulsiva ou não será".Continuo acreditando no "VIVA
VAIA" de Augusto. Só acho que temos que repensar a estrutura geral
de uma vanguarda fazê-la compatível com o nosso mundo atual de
meias-verdades.
O e-book substitui o livro?
Eu tenho muito pouco conhecimento técnico da Internet. Uso para mandar
e-mails, ler jornais brasileiros. Nunca li um e-book. Portanto não me
julgo capaz de responder a esta pergunta.
(2002)
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