A Garganta da Serpente
Entrevista com Cobra entrevista com nossos autores
Entrevista com:

Marco Lucchesi

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- Marco Lucchesi -

Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão nosso habitante para o Balacobaco


Marco Lucchesi, ensina literatura italiana e comparada na pós-graduação da UFRJ. Sócio do Pen Club, da Sociedade Brasileira de Geografia, da Sociedade de Estudos Clássicos, da Sociedade de Literatura Comparada e da Academia Fluminense de Letras. Colaborador do "Jornal do Brasil", "O Globo", "Folha de São Paulo" e "O Estado de São Paulo", das revistas "Poesia Sempre", da Biblioteca Nacional, "Range Rede" e "Livro Aberto". Condecorado com a medalha da Camera di Commercio di Lucca, com o prêmio Paulo Rónai, o Mérito da União Brasileira de Escritores, a medalha Tiradentes, a medalha Geraldo Bezerra de Menezes, e diversas vezes finalista do Prêmio Jabuti de Literatura. Publicou: Saudades do Paraíso, O sorriso do caos, Faces da Utopia, A paixão do infinito, Bizâncio. Organizador da antologia da poesia russa, na revista "Poesia Sempre", n. 10, e do livro Artaud, a nostalgia do mais. Participou da edição de Feminino e Masculino, Poesia e filosofia, A obra de Geir de Campos e "L'Utopia dei tropici". Organizou ainda a Jerusalém libertada, de Tasso, e Leopardi - poesia e prosa. Traduziu: A ilha do dia anterior, de Umberto Eco, Ciência nova, de Vico, Poemas à noite, Rilke e Trakl, Poemas de Khliébnikov, O combate, de Patrick Süsskind, Esboço do juízo final, de Foscolo, A trégua, de Primo Levi.

"O SORRISO DO CAOS" é um compêndio de sua atividade "jornalística". Qual foi o critério para a seleção dos textos? Como classifica as "matérias"? O que lhe agrada na função de "jornalista"?
Marco Lucchesi - O Sorriso do Caos é, digamos, uma presença no jornalismo que me intriga e me desperta uma vocação começada aos 15 anos e que tem, inquestionavelmente, uma presença importante dentro da minha busca. Portanto, o Sorriso do Caos reúne ensaios que apareceram na sua maior na grande imprensa brasileira. Agora mesmo está para sair pela Editora Artium um livro chamado O Teatro Alquímico, que é uma sondagem, ou melhor dizendo, um teatro de leituras que têm pontuado a minha vida . Contraponto de O sorriso, este guarda ensaios mais longos, tirados de livros e revistas, mas trazido por uma busca ferrenha de unidade, na qual não se distingue entre o Livro do Mundo e o Mundo dos Livros, mas que confunde essas duas dimensões porque só o conhecimento e a estética podem dizer algo mais intenso ao coração do homem.
Ivo Barroso fez um trabalho soberbo na tradução do Rimbaud. É o melhor trabalho que um tradutor brasileiro já realizou?
Ivo Barroso é um dos nomes mais altos da tradução-poesia e Rimbaud é inquestionavelmente o seu acme. Assim como Ivan Junqueira, Haroldo de Campos, Jorge Wanderley, Dora Ferreira da Silva, e muitos outros que não saberia citar, sem cometer injustiça. Gostava de lembrar o meu querido amigo José Paulo Paes, um homem habitado pela literatura.
"O SORRISO DO CAOS" deve ter textos sobre escritores que lhe agradam uns mais e outros menos. Quais, dentre os que estão no livro, fazem a sua cabeça?
É difícil de escritores. Nenhum faz a minha cabeça, todos fazem a minha cabeça, a vida faz a minha cabeça, a pluralidade faz a minha cabeça e acabo muitas vezes por perder a pouca cabeça que me falta.
"BIZÂNCIO" é o seu livro de estréia com poemas próprios. Nos diz Ivan Junqueira que, não é bem uma estréia, já que você verteu para o português grandes poetas de diversas nacionalidades. Você considera que fez o caminho inverso, indo da tradução para seus próprios poemas? O que aproveitou de sua experiência como tradutor?
De fato, Bizâncio é, como bem disse Ivan, não um livro de estréia porque a poesia é minha forma fundamental, é o meu habitus primordial e que naturalmente ganhou em Bizâncio a sua autonomia. Fiquei feliz pois com ele fui finalista do Jabuti desse ano. Acaba agora mesmo de ser publicado e tendo uma repercussão acolhedora na Itália o livro Poesie, escrito na minha segunda língua, o italiano, e com alguns poemas em árabe, que é uma das minhas paixões viscerais: o Oriente, o mundo islâmico, o mundo judaico, o mundo semita como um todo de que nós, portugueses, brasileiros, mediterrânicos, descendemos. Da minha experiência de tradutor colhi diversas situações e, como cheguei a escrever num artigo que abre o livro O Teatro Alquímico, já não sei onde começo e tampouco onde termino, tal a minha necessidade de con-fundir a tradução com a criação. No entanto, não me considero um tradutor, mas alguém que na tradução tem buscado uma das formas de expressão mais intensas e genuínas. A leitura dos outros não me ameaça, bem ao contrário, me alimenta e assim deveria ser.
Ainda em "BIZÂNCIO", vemos, no poema homônimo, uma opção pelo verso curto e de ritmo veloz... Poema que dá uma noção de movimento... de traveling. Por que esta opção?
Sim, o verso curto e veloz e o movimento me atraem de fato, mas Bizâncio não é tudo isso, Bizâncio também está marcado por poemas como os Sonetos, escritos à maneira antiga, à maneira da tradição, por assim dizer, provençal, que na Península Ibérica com as contribuições de Sá de Miranda e Camões se mantiveram até o século XVI. No entanto, guardo poemas extremamente longos em que não busco o ritmo veloz, mas a essencialidade, o osso, a pedra.
Inconvocados, impresença, incontecida, incontaminadas, são neologismos que dão a idéia de devir, de poder ter acontecido. Cria-se um véu de maleabilidade e dúvida. O poeta vê coisas e acontecimentos possíveis mas que não ocorreram. Ficamos com uma noção de abandono (Istambul já não é mais) e não de decadência. É isso? Como é o seu processo criativo? Acredita na inspiração?
A sua questão é muito acertada e, de fato, o neologismo é um recurso que encontra na poesia longas tradições, que podem remontar mesmo a Homero e, de modo mais especial, a Virgílio e a Dante. De fato, a impossibilidade é uma marca da minha poesia e este véu de maia, labilidade e dúvida a que você se refere me parece, essencialmente, o coração das coisas que vou buscando. E a sensação de abandono me parece igualmente uma visão muito clara do que se passa na poesia; um abandono de si para si, o que se torna efetivamente um imenso desafio e que marca, portanto, as formas da minha procura, e que não coincidem com a geografia, mas que nem por isso são avarentas com a geografia. E assim, portanto, tenho buscado esse abandono dentro de mim, no Brasil, nos sertões físicos de Euclides da Cunha, na Bahia, sobre os quais escrevi em Saudades do Paraíso, mas também no deserto, deserto do Saara, deserto da Mauritânia, nas pedras da Síria - abandono e inspiração ou algo que seja parecido com inspiração. Meu livro Os olhos do deserto trazem um pouco de minhas inquisições.
Para quem daria um Nobel de Literatura?
Bem, para quem eu daria um Nobel de Literatura? Para ninguém porque o Nobel não diz nada. Homero não tem Nobel, Shakespeare não tem Nobel. Eu não daria um Nobel para muitos, mas a questão do merecimento via Nobel não é algo que me comova de modo intenso. Aplaudo profundamente Saramago. Vejo que Saramago é indubitavelmente, " apesar do Nobel" , um dos maiores escritores de língua portuguesa de todos os tempos. Meu amigo Mario Luzi é um daqueles que " estão a merecer um Nobel". Conheci no Egito o Nobel Nagib Mahfuz e é um dos meus preferidíssimos prosadores deste fim de século tão árido.
Fazer uma interpretação freudiana de Shakespeare é uma besteira enorme. Quais outras sandices foram feitas em nome de uma análise literária "pós-moderna"?
Uma interpretação freudiana de Shakespeare... O apequenamento do fenômeno literário não é exatamente privilégio de algumas correntes pós-modernas. Isso já aconteceu com o marxismo vulgar, com o positivismo vulgar, e, portanto, com todos os ismos vulgares, que fazem da obra mero refém, vítima despreparada da sua vontade feroz de a reduzir a um monte de escombros que sejam capazes de emprestar uma unidade inexistente à obra. No entanto, vítima na verdade não é a obra, essa mera ilusão da prepotência daqueles que porventura a seqüestram; ao contrário disso, a obra é muito poderosa e acaba devorando aqueles que pretensamente têm intenção de fazer dela um banquete de cinzas.
Como conseguiu, em 36 anos de vida, obter esta cultura enciclopédica?
Tenho 35 anos e a questão da idade me é cara. Cada segundo e minuto dessa idade me são profundamente importantes. A cultura enciclopédica, como a consegui? Não sei se é enciclopédica. Sei apenas que tenho sede. Sede e fome de conhecimento, mas não de uma cultura imóvel, glacial, estúpida, de academites e outros bacilos de um pseudo verniz ou daqueles que buscam borboletas alfinetadas. Tenho tido profunda intensidade em tudo que faço nas páginas que leio e na vida que escrevo.
Qual a relação tem com a cultura pop americana, os beats, os rockers e as manifestações populares de arte?
Quanto à próxima pergunta, todas as manifestações populares de arte me são caras. Pelo simples fato de que nós buscamos cultura, mas estamos impedidos de produzi-la. E essa cultura popular para mim está na alta, aliás, altíssima MPB brasileira, está nos sertões onde fui buscar contato com a arte delicada e rude, intensíssima desse povo, está na breve e intensa amizade que fiz com Luiz Gonzaga, com o qual aprendi como se faz a arte do Brasil. E com os bérberes, a cultura popular me interessa. Em geral, no entanto, os bits, os rockers, tudo isso não guarda de mim o mínimo, o leve interesse. A não ser por um viés da sociologia e da historia, que representam para mim a primeira formação na academia. Quando me sento ao piano, não toco o que me parece mais sociológico (e interessante nesse espaço). Passa muito longe de mim a vontade de buscar essas formas.
Quais os livros de ensaio que não podem faltar na estante de um poeta?
Um poeta deve buscar um conhecimento do todo. Mito ou fantasma, o paradigma de um Leonardo da Vinci deve persistir hoje, mesmo que as desculpas em torno da impossibilidade de um conhecimento como o de sua época esbarrem naquilo que hoje se afirma como a multiplicidade quase que infinita do conhecimento. Não, o conhecimento é uma proposta interdisciplinar abrangente e deve fazer cortes, produzir interseções, anéis, vaso-comunicações. Portanto, os ensaios que devem estar na estante do poeta são todos os ensaios e mais alguns, sobretudo aqueles que ainda não foram escritos e que esperam um lugar não apenas na estante, mas no sistema da poesia.
O fato de ser um erudito prejudica no sentido de uma forte autocrítica ao seu fazer poético?
Não sei o que sou. Mas cultura e terra se identificam Vejam o Raduan Nassar. Penso que a autocrítica não impede, a autocrítica auxilia. É preciso Ter um equilíbrio entre aquilo que impede e aquilo que auxilia. O conhecimento não impede, o que impede é não buscar o conhecimento, não estar tocado por uma sede incandescente de conhecimento e, portanto, ao contrário, conhecimento e poesia não podem estar longe um do outro. O que mata não e a autocrítica, mas a autopiedade. O desinteresse e mortal.
Quantos poetas fortes estão presentes na sua poesia? A angústia à moda de Harold Bloom está presente?
A angústia está sempre presente, antes e depois de Harold Bloom. Os poetas fortes que me pertencem são efetivamente aqueles que estão e não estão no Cânone ocidental. Mas são os grandes poetas e os poetas brasileiros, os grandes poetas brasileiros Carlos Drummond de Andrade, de quem fui amigo e aluno, no pior e melhor sentido da palavra aluno. O grande e imenso Drummond. O grande João Cabral de Melo Netto e, sobretudo, os grandes poetas que são, por essência, apátridas, pois que são todos moradores da linguagem.
Qual a sua opinião sobre a matéria que ridicularizou a poesia brasileira atual? Há muito desrespeito e brigas entre poetas?
Não sei dizer se há brigas, se deixa de haver brigas. O meu amor é pela poesia e sei muitas vezes até fazer - o que nem sempre é fácil -, uma distinção entre a má pessoa e o ótimo poeta, que lamentavelmente ou não podem muitas vezes coabitar. Não sei o que responder, apenas digo que o meu interesse é pela poesia que está fora do tempo e fora dos nomes. Mas é um fenômeno, é um acontecimento e como tal dispensa nomes, lutas e coisas do gênero.
Como classificaria a poesia brasileira hoje?
A poesia brasileira hoje é uma poesia extremamente rica, mas pouco conhecida, pouco espaço, grandes poetas em todas as regiões, de norte a sul, sudeste, nordeste. A força da poesia brasileira é extremamente fascinante e tem dado provas de ser contínua e riquíssima.
Tem alguma epígrafe que o acompanhe pela vida?
Eu não chego a ter uma epígrafe, mas a minha atitude diante da vida é de intensidade, de procura, de desespero, conhecimento como fogo e a poesia como esse incêndio. O conhecimento dos dois, a busca do mundo, do universo. Confundir-me buscando latitudes distintíssimas, que vão do Atlântico ao deserto, ao interior do Brasil, aos Alpes na Itália, leituras do mundo, o mundo das leituras, e buscando uma essência, uma vontade forte, porque para mim literatura e vida se confundem de tal maneira que uma, distinta da outra, não poderia e nem deveria viver.

(2002)

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