Entrevista com:
- Luiz Alberto Machado -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Como começou a trabalhar na NET?
Tudo começou quando passei a residir em Maceió, em 1994, oriundo
de terras pernambucanas onde nasci, e encontrei o Teatro Deodoro fechado há
anos, a turma musical desarticulada, a classe teatral fazendo pouquíssimos
espetáculos e em espaços alternativos e os poetas engrossando
o bloco do eu sozinho - quadro este não muito diferente ainda hoje. Tive
um estalo após anos de indignação pela pasmaceira, no meio
de uma cachaçada na orla de Ponta Verde, inventei de editar um tablóide
que pudesse fazer o intercâmbio entre o pessoal que militava nas diversas
vertentes artísticas locais. Repetia, então, diversas experiências
desenvolvidas em Pernambuco. E, então, nascia o Nascente - Publicação
Lítero-Cultural, mantido pelo próprio bolso. Foi onde eu dispus
de vinte e quatro páginas coloridas, para divulgar eventos, charges,
crônicas, cinema, teatro, músicas, o escambau, sobretudo poesia.
Saí catando textos de alagoanos - uma barra! -, e reunindo outros textos
de amigos de diversos Estados brasileiros. Na verdade eu queria mostrar o que
se fazia em Alagoas artisticamente. Fiz a primeira edição com
cinco mil exemplares e saí distribuindo gratuitamente nos pontos onde
a turma pudesse se reunir. O retorno foi um fiasco, localmente. Exceto um ou
outro que chegava junto aplaudindo a iniciativa. Mais nada. Mas fora das fronteiras
do Estado, a coisa cresceu e meio mundo de gente das mais longínquas
partes do Brasil, deu-me ânimo. Fiz o segundo exemplar e persegui a idéia
por quinze números consecutivos, juntando ora material local, ora material
nacional e até internacional, reunindo tudo, fechando e mandando rodar
no Rio de Janeiro, que era mais barato e distribuindo para todo canto do Brasil.
Daí veio a Internet e fiz um site pro jornal, emitindo um boletim semanal
que se mantém até hoje, o Boletim Nascente. Junto com o Boletim
criei o Prêmio Nascente de Arte Infanto-Juvenil, dedicado aos estudantes
do ensino fundamental. Desse concurso, muito apoio de nomes representativos
e a edição de duas antologias e uma terceira que acabou nem saindo
com textos de estudantes do Brasil inteiro. O jornal e o concurso agonizaram
em 99 quando houve aquela escapada imoral de dólares e a manutenção
do Nascente impresso ficou inviável, pois não tinha anunciantes,
nem patrocinador, só simpatizantes, porém bancava tudo sozinho.
Como o jornal impresso deixou de circular, restava o site e o Boletim Nascente.
Felizmente o boletim expandiu as fronteiras de relacionamento e hoje consegue
divulgar os mais diversos eventos artísticos, sociais, ambientais e até
contra determinados momentos deploráveis do ser humano, como a guerra,
as sacanagens e os desvarios de nossos governantes. O Boletim Nascente mantém-se,
portanto, até hoje, nas páginas http://www.abarata.com.br/nascente.asp
e http://www.vaniadiniz.pro.br/boletim_nascente_1.htm proporcionando informações
acerca de eventos culturais e artísticos, além de sites dos mais
diversos matizes na Internet.
O curso de jornalismo é importante para quem quer ser jornalista?
Todo curso é importante para quem quer que seja e para quem quer fazer
alguma coisa fora dos moldes da mediocridade reinante. Devo admitir, também,
que, por outro lado, a universidade não vem cumprindo o seu papel. Pudera,
com o sucateamento das universidades federais e a proliferação
das lojas de venda de diploma com nome de faculdade disso e daquilo, a coisa
degringola ao cúmulo da desgraça do conhecimento. A comprovação
disso pode ser feita com uma visita a qualquer biblioteca dessas faculdades
e das universidades para ver as monografias de graduação que estão
sendo aprovadas por aí. Verdadeiros trabalhos secundários, com
a devida ressalva de alguns gatos pingados de qualidade. Como, ainda, vemos
a imprensa preocupada exclusivamente com os modismos da promoção
e a banalização da tragédia humana. Uma ou outra grande
reportagem merece respeito. As mais interessantes estão virando livros
por completa falta de espaço dentro das colunas limitadas dos jornais.
Também conheço uma penca de jornalistas gabaritados que nunca
foram numa faculdade de jornalismo. Eu mesmo que militei nas áreas de
radiodifusão e nas redações de jornais, não concluí
meu curso, embora me mantenha escrevendo artigos opinativos para os mais diversos
jornais impressos. E como seja radialista profissional, até um tempo
atrás escrevia crônicas diárias para os jornais radiofônicos
da região.
Fale-nos sobre o seu trabalho no Sobresites.
Há pouco mais de um ano, por causa do obstinado trabalho desenvolvido
com o Boletim Nascente, recebi uma generosa indicação da amiga
Célia Lamounier para o Alexandre Cruz Almeida, então um dos diretores
do Projeto SobreSites - O diferencial humano, para substituir o excelente trabalho
do Sebastião Macedo no Guia de Poesia, um dos desafios que relutei e
demorei aceitar. Quando conheci o site, aplaudi de pé o trabalho do Sebastião
e não me via em condições de tocar adiante. Mas como não
podia dizer um não para a Célia, topei.
Lá no Guia de Poesia, para conferir é só clicar http://www.sobresites.com/poesia/index.htm
procuramos dispor aos internautas todas as informações necessárias
para se conhecer de uma forma geral a poesia brasileira e, em menor proporção,
internacional. Lá estão poetas consagrados, contemporâneos,
sites temáticos, revistas eletrônicas, portais poéticos,
entrevistas com autores e pessoas ligadas à poesia e à Literatura
em geral, dicas para publicação de livros e textos impressos e
virtuais, associações representativas, eventos e concursos, destaques
e um fórum para intercâmbio entre os membros com vários
tópicos para debates, indicações, sugestões e divulgação
de poemas. Devo dizer que ainda estamos na quarta atualização
desde que assumi o Guia, tendo me dedicado bastante para atingir o mais amplo
universo da poesia em todas as suas manifestações.
Qual o panorama da poesia na NET hoje?
A Internet tem proporcionado hoje a possibilidade de se ler e divulgar poesias.
Como nem todo mundo consegue publicar seus livros, principalmente livros de
poesias, a Internet vem possibilitando a difusão de poesias como a de
Frederico Barbosa, Fernando Fiorese, Fabrício Carpinejar, Jorge Luiz
Antônio, Alberto Cunha Mélo, Wilton Azevedo e muitos outros contemporâneos
com trabalhos excelentes e de qualidade, ficando nesses para não correr
o risco da omissão. Foi na Internet que conheci de perto o excelente
trabalho do Lau Siqueira, embora tenha mantido contatos anteriores há
muito tempo com ele. O Portal Blocos, por exemplo, possibilita tomar conhecimento
de diversos excelentes autores na sua seção de Muita Poesia Brasileira
- MPB. A Usina de Letras, também, traz uma série enorme de poetas
que estão escrevendo e fora dos catálogos das editoras. Sem contar
que existe uma gama enorme de sites dedicado ao tema, como o excelente Jornal
de Poesia, do Soares Feitosa. Ora, se você não tem acesso a um
livro da Ana Cristina César, basta visitar o Guia de Poesia ou clicar
em qualquer ferramenta de busca que você encontra. Isso sem falar da poesia
dos consagrados, como Manuel de Barros, Aníbal Beça, Thiago de
Mélo, Hilda Hilst, Ascenso Ferreira, e muitos, muitos mesmo. E o Guia
se propõe a oferecer dicas onde encontrar sites e portais sobre poesia
e poetas.
Quem é o escritor brasileiro? Qual a diferença entre o poenauta
e o escritor de livros de papel?
O escritor brasileiro vem aqui e acolá tentando conciliar as contradições
do nosso tempo. Ora, vira participante de causas as mais diversas; ora, recolhendo-se
na torre de marfim. Isso ainda é maior quando se depara com as vanguardas
ou quando revisita estilos, ou ainda quando cai na onda perseguindo os mais
diversos momentos de sua criação.
Nisso ainda fica claro a dificuldade de conciliar autor e produtor, hoje o escritor
tem de correr atrás das janelas abertas, virar camelô do próprio
trabalho - o que não é nenhuma novidade desde os movimentos marginais
-, berrando aqui e ali. As editoras só apostam no que dar certo de cara.
E para tornar público qualquer trabalho tem que ser naquela famosa edição
do autor ou sob um selo alternativo bancado por ele próprio.
Hoje o escritor só cai na graça do público quando a sua
obra ou vira roteiro de cinema, ou é transformada em minissérie
televisiva. Fora disso, babau. Os que não conseguem agente nem editora,
ficam correndo atrás. Realmente o escritor brasileiro não sabe
se vender.
Resta, portanto, as edições limitadas às expensas do próprio
autor, seja em livro impresso ou em e-book. Principalmente hoje onde as pessoas
passam mais tempo no computador, do que folheando um livro ou um jornal.
Devo dizer que tenho encontrado bons poenautas, poucos, é claro, a maior
parte é versejador; como também poucos são os bons poetas
encontrados nas impressões de livros. O que fica de positivo nisso, é
a oportunidade de se conhecer bons poetas, aprender a poetar e a selecionar,
carpintar e construir o poema.
Para que serve a poesia?
Para participar na vida. Não consigo conceber a poesia como prazer dos
onanistas intelectuais. Para mim, ela tem de participar, tem de estar a serviço
das causas humanas e da interação do humano com o seu meio, refletindo
anseios, inquietações e visão do amanhã.
Com quantas metáforas se faz um poema?
Héhéhé. Com todas e nenhuma.
Como é ser um poeta nordestino?
O Nordeste brasileiro é essa carne lanhada, sofrida e carregada desde
o litoral belíssimo, passando pela mata quase inexistente, pelo agreste
das dores e o sertão dos anátemas. Um contraste onde o paradoxal
é reinante. Um misto de intuição e sabença das coisas
que são dos homens e da vida. É aqui que tenho a minha raiz, a
partir do índio caeté, do negro degredado e do branco espoliador.
As coisas aqui são gritantes, por isso que temos uma variada manifestação
cultural que passa pelos caboclinhos indígenas, pelo maracatu dos deserdados,
pelo frevo dos foliões preteridos, pelo rastapé de forrós
e baiões e xotes e repentes e cantorias e emboladas maravilhosas. Isso
em todas as regiões. É este cenário múltiplo das
distorções sociais, onde meia dúzia de gente detém
o mais explorador poder e, a grande maioria avassaladora, na outra ponta da
corda social, mantêm-se a margem e alienado dos seus direitos. Isso, sei,
não é exclusividade do Nordeste. Faz parte desse continental esculhambado
Brasil. Mas aqui é mais gritante. E isso faz parte da minha literatura,
da minha música, do meu teatro, do meu texto infantil e infanto-juvenil
e que podem ser vistos nos meus sites: http://www.abarata.com.br/sites/luizalbertomachado
ou http://www.alvoradinha.art.br.
Tem algum mote?
O meu compromisso com o meu tempo e com a minha terra. E dano glosa para cima!
Qual o papel do escritor na sociedade?
Participar. O escritor ou aquele que se destina ao fazer artístico como
um todo, seja no teatro, na literatura, na música, ou em outra atividade
qualquer, é o de participar ativamente das coisas do seu tempo e da sua
terra, registrando, resgatando, misturando, experimentando e reproduzindo tudo
com a sua linguagem, sua ótica, sua expressão pessoal.
(2002)
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