Entrevista com:
- João Silvério Trevisan -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
João Silvério Trevisan nasceu em 1944, na cidade de Ribeirão
Bonito (SP). É escritor de literatura ficcional e ensaística,
dramaturgo, tradutor, jornalista, coordenador de oficinas literárias,
roteirista e diretor de cinema. Estudou Filosofia. Recebeu inúmeros prêmios
em teatro, cinema e literatura, dentre os quais o Jabuti (três vezes)
e o APCA (duas vezes).
Tem obras traduzidas para o inglês, o alemão e o espanhol. Escreve
para jornais e revistas de todo o País e do exterior. È autor
de Testamento de Jônatas Deixado a David (contos, 1976); As Incríveis
Aventuras de El Cóndor (romance juvenil, 1980/2ª edição:
1984); Em Nome do Desejo (romance, 1983/2ª edição:1985);
Vagas Notícias de Melinha Marchiotti (romance,1984), Devassos no Paraíso
(ensaio histórico-antropológico, 1986); O Livro do Avesso (romance,
1992); Ana em Veneza (romance, 1994/4ª edição: 1998), Troços
& Destroços (contos, 1997); Seis Balas num Buraco Só: A Crise
do Masculino (ensaio, 1998).
Você insiste muito na idéia de projeto literário. Não
vivemos mais Tempos onde as musas nos fazem escrever belos poemas e cartas de
amor?
Eu insisto que a musa morreu de fome... por falta de pagamento dos direitos
autorais. Mas também morreu o beletrismo que em geral acompanha a idéia
de "inspiração". Intuição e talento
são fundamentais para uma produção literária significativa.
Mas é grosseira ingenuidade (quando não pretensão) achar
que a literatura é ditada pelas musas. O resultado mais patético
é que esse tipo de "escrito inspirado pelos céus"
pode não passar de vômito confessional.
A literatura tem alguma função específica? Há
quem diga que a poesia não serve para nada. Para que serve a literatura?
Graças às finadas musas, a poesia não tem função,
e por isso mesmo tem tanta importância. Ela serve para nos permitir
um gozo raro: aquela experiência de liberdade quase absoluta, a possibilidade
de escolher qual a melhor das inutilidades que nos ajudará a viver
uma momentânea totalidade. É uma maneira de encontrar o sublime
através das dores da carne.
Poderia nos falar sobre o Balaio de Textos e a sua Oficina Virtual no site
do Sesc SP?
Essas são experiências de treinamento de escritores iniciantes,
de todas as idades. A internet me permite trabalhar com gente de todo o Brasil
e do exterior, inclusive. Atualmente, tenho uma brasileira de Viena participando
da oficina.
Em que a internet pode ajudar a projetar e a fazer um país e um
mundo onde, pelo menos, haja uma maior igualdade entre os seres humanos?
Não sei, francamente, se a internet pode realizar esse milagre.
Em Ana em Veneza você mistura estilos de época, escritas de
época. Qual a importância para um escritor e para o projeto escrever
em diversas dicções?
O escritor é um mestre do disfarce. Muitos procuram um estilo,equivalente
a uma determinada persona, que os mascara. Eu gosto de usar muitas máscaras,
gosto da imprevisibilidade. Para mim, cada novo projeto é um recomeço
da minha literatura. Se eu ficar usando a mesma máscara, temo ficar
entediado e, pior ainda, mentir para mim mesmo. Afinal eu sou muitos, trezentos,
trezentos mil.
Qual a importância de Nietzsche na sua formação?
Talvez tenhamos os dois o mesmo imenso amor pela radicalidade,pelo paradoxo
humano e pelo dionisismo instalado no âmago do intelecto
O que deve haver em um texto para que você admire o autor?
Radicalidade, paradoxo humano e dionisismo.
De quais escritores fortes descende?
Francamente, não sei. Meus autores prediletos não são
necessariamente aqueles que mais me influenciaram. Acho que tanto na vida
quanto na literatura fui obrigado a criar meu pai dentro de mim.
Até que ponto nós vivemos num mundo colonizado intelectualmente
pela França e pelos EUA? Por que não existe um grande filósofo
brasileiro?
Se estamos falando em filosofia tal como se pratica na Europa, não
temos no Brasil. E isso não me parece fazer nenhuma diferença.
Mas se falamos em poesia, musicalidade popular e alegria de viver, isso está
no Brasil, não na Europa. A cultura americana, que conquistou o mundo
inteiro, é o túmulo da metafísica e da sensualidade,
mas é a pátria do blues, do jazz e dos musicais. As comparações
são tolas, sempre.
Quem é o poenauta? Quem é o escritor brasileiro? Qual o perfil
do novo escritor brasileiro?
Infelizmente, o perfil do novo escritor brasileiro tem se relacionado mais
com um fator de mídia do que de literatura. Tenho assistido a um festival
de vaidades cada vez mais intensas. Acho que escritores/as são sempre
muito narcisistas. Mas tem gente nova que está ganhando dos mais velhos,
nesse quesito.
Tem algum mote?
Amar sem reservas, amar o Amor.
A cultura gay pode enfrentar o reacionarismo de direita e esquerda que,
por exemplo, assola a França?
Se pode, não sei. Mas deveria. Nós homossexuais somos sobreviventes
de vários e quotidianos holocaustos históricos. Seria lamentável
se massacrássemos os diferentes, repetindo a fórmula fascista
e intolerante de tantas culturas e governos que vêm nos massacrando
secularmente.
(2002)
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