Entrevista com:
José Roberto Torero Fernandes Júnior |
- José Roberto Torero Fernandes Júnior -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Formado em Jornalismo, Letras e pós-graduado em Cinema, José
Roberto Torero Fernandes Júnior escreveu, entre outros: "Chalaça"
e "Terra Papagallis". Bem sucedido aos 35 anos, contraria a uns falastrões
peremptórios, gente que afirma: "um bom escritor só nasce
depois dos quarenta anos de idade". Em entrevista ao Balacobaco, Torero
mostrou simplicidade ao afirmar: "Bem sucedido é um certo exagero,
e não sou tão jovem". Disse também que o recente livro,
"Terra Papagalli" é o mais ficcional e o que mais gosta. Vamos
lá... Dez perguntas prele...
Você está nas livrarias com "O Chalaça",
"Ira", "Pequeno Dicionário Amoroso", "Santos"
e "Terra Papagalli". Há uma evolução no seu trabalho?
Você poderia percorrer este caminho?
Acho que no começo eu estava mais perto da história
e agora tenho usado mais a imaginação. No Chalaça, uns
70% dos fatos aconteceram, no Terra Papagalli esse número foi para uns
30% e agora, com o Ira, deve ter baixado para uns 10%. O Pequeno Dicionário
Amoroso não é exatamente um livro, ou pelo menos, certamente não
é literatura, e o "Santos, um time dos Céus" é
um caso à parte.
"Terra Papagalli" é uma criação a quatro
mãos. É o seu livro mais maduro, equilibrado?
Não sei se o mais equilibrado, mas é o meu favorito.
Ele possui um humor mais sutil -às vezes até invisível,
como no caso de um falso dicionário de tupi que há lá dentro-
e seu personagem principal, o Bacharel da Cananéia, é mais complexo
que o Chalaça, Brás Cubas dos Santos (de "Santos, um time
dos céus") ou o Soldado (de "Ira-Xadrez, truco e outras guerras").
Como é o seu processo de criação?
Eu escolho o assunto, por exemplo, descobrimento, e começo
a ler sobre ele. Durante essa leitura vou montando a história e, antes
de começar o livro já sei, ou penso que sei, como ele será.
Então faço uma escaleta, uma espécie de roteiro com o resumo
de cada capítulo ou parte do livro, e só aí começo
a escrever (é claro que essa escaleta não deve ser uma camisa
de força, mas sim um mapa muito útil). Depois reescrevo tudo algumas
vezes, passo o texto para leitores-amigos, escuto as sugestões e faço
a versão final.
Quais as sensações que tem quando escreve?
Acho divertido. Principalmente refazer os textos.
O filão do romance histórico não está se
tornando algo pernóstico à literatura brasileira?
Acho que ainda não. Talvez daqui a dois anos sim, haja uma
overdose de títulos sobre o descobrimento.
Você prefere escrever sobre encomenda?
Não, é claro que prefiro escrever livremente. Porém,
se a encomenda for interessante, como por exemplo, escrever sobre as Copas do
Mundo para a revista Placar ou sobre o Santos F.C., não vejo problema
nenhum, é até bem divertido. O caso do "Ira" também
foi interessante, porque pude escolher o pecado e qual a forma de falar sobre
ele. Assim a encomenda quase não foi uma encomenda, mas a sugestão
de um tema.
Como vê a internet? O livro vai acabar?
Acho bacana mas não sou um deslumbrado. Leio pouco no computador
e sou um tanto preguiçoso para navegar. Talvez, para mim, a internet
seja mais um bom correio. Quanto ao livro, talvez acabe, mas não por
causa da internet, e sim pela falta de leitores. No Brasil, hoje, acho que não
há mais de um milhão de leitores. E se pensarmos numa literatura
um pouco mais alta, nem cem mil.
O que leu e lê? Do ponto de vista estilístico, qual o autor
que mais influenciou a sua forma de escrever?
Li muito gibi na infância e histórias juvenis na puberdade.
Hoje, meu favorito é Machado de Assis. Também gosto do Saramago,
dos Veríssimos (pai e filho), do Kurt Vonnegut e do Guimarães
Rosa. Quanto às influências, acho que são Machado de Assis,
Luís Fernando Veríssimo, Lawrence Sterne e Xavier de Maistre.
Você é jovem e bem sucedido. Não seria melhor ter
escrito sobre a inveja?
O Zuenir Ventura, que foi o primeiro a escolher o pecado sobre qual
escreveria, já tinha escolhido este pecado. Como isso provocou-me ira,
fiquei com ela. Além disso, com 35 anos não sou exatamente um
jovem e o termo "bem sucedido" é um certo exagero. Lisonjeiro
e educado, mas exagero.
Qual o papel do escritor na sociedade?
O meu é A-4.
(2002)
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