Entrevista com:
- José Castello -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Em novembro de 1974, aos vinte e três anos, iniciando-se no jornalismo,
José Castello enviou um conto para Clarice Lispector e recebeu uma resposta
sucinta e direta: "Com medo ninguém consegue escrever ...".
Este conselho jamais foi esquecido e tem acompanhado o escritor-jornalista desde
suas primeiras resenhas publicadas, na primeira metade dos anos 80, na revista
IstoÉ até a fase atual de colaborador do jornal O Estado de S.
Paulo. Castello foi editor do suplemento Idéias do Jornal do Brasil.
Trabalhou também nos jornais Diário de Notícias, O Globo
e Rioarte, no semanário Opinião e nas revistas Veja e Bravo! Publicou
os livros Vinicius de Moraes, o poeta da paixão, Vinicius de Moraes,
uma geografia poética, Na cobertura de Rubem Braga e João Cabral
de Melo Neto, o homem sem alma.
O que Inventário das sombras revela sobre a personalidade
dos escritores que estão no livro?
Nas entrevistas, em geral, os jornalistas se detêm naquilo que os entrevistados
lhes dizem. Pode-se forçar uma entrevista, quase torturar o entrevistado,
mas quase sempre se fica nas palavras. Em Inventário das Sombras, procurei
ir além disso. Como? Primeiro, relacionando diretamente, e com o mesmo
peso, a vida (as respostas) e a obra do entrevistado. Dando à obra o
peso de respostas, tanto valor quanto à palavra do criador. Entre vida,
palavra e obra fica, em geral, uma zona de sombras, que escapa ao jornalismo,
mesmo ao melhor jornalismo. O que fiz, certamente, não é jornalismo.
O que é? Não sei que nome dar, pois também não é
crítica literária. Chamei de "retratos". Gosto da palavra
pelo que ela guarda de íntimo, de pessoal. Eu tentei trabalhar com essa
zona mais pessoal, e também, sem me preocupar com gêneros ou cânones,
procurei traçar uma visão mais pessoal dos artista que escolhi.
Bispo do Rosário é tão fascinante assim? O que a loucura
tem de intrigante a ponto de equiparar um louco a outros escritores "racionais"?
Não existe essa divisão, loucos de um lado, racionais de outro.
Todos, em nossa vida diária, lidamos um pouco com nossa "loucura"
(isto é, com nossos aspectos irracionais, que ficam numa zona de sombra
que não podemos alcançar). Ocorre que um "louco" de
carteirinha, como era o Bispo, é em geral um sujeito no qual essas fronteiras
ficam mais expostas, mais visíveis. O "louco" não tem
satisfações sociais a dar, ele faz apenas aquilo que deseja. Não
estou fazendo uma defesa da loucura, ou idealizando-a, a loucura inclui também
muito sofrimento e solidão. Mas ela expõe mais claramente algumas
coisas que nós, por hábito, tentamos camuflar. É verdade,
não é que o louco exponha, ele é dominado por essas coisas,
mas, de todo modo, elas estão ali.
Você fez o perfil de João Cabral de Melo Neto, Vinícius,
Ruben Braga. Há dois livros sobre Vinicius, o de Moraes e o de
Morais. Qual a diferença?
Em O Poeta da Paixão tentei fazer uma biografia no modelo clássico.
A biografia clássica tenta contar "toda a vida" do biografado.
É um projeto um pouco paranóico, hoje me parece. O biógrafo,
se não brinca de Napoleão, brinca de deus. Um projeto que inclui,
por isso, muitos impasses e que, em geral, fracassa em grande parte. Não
foi por outra razão que o abandonei. Os livros seguintes, incluindo o
segundo livro sobre o Vinicius, são tentativas mais pessoais, de esboçar
retratos parciais, fragmentários, arbitrários até, os personagens
que escolhi.
Qual a importância da teoria literária para um jornalista desta
área?
Creio que existe uma importância, mas ela não é decisiva.
Eu, por exemplo, raramente leio teoria literária, e cada vez me interesso
menos por ela. Tenho dois livros diante de mim: um de teoria literária,
outro de um Kafka, um Dostoievski, um Machado. Escolho sempre, imediatamente,
o livro de ficção. Por isso me considero, no máximo, um
leitor especializado, não um crítico. Tenho todo o respeito pela
crítica, temos grandes críticos no Brasil (Antonio Cândido,
Silviano Santiago, Flora Sussekind, Wilson Martins, etc). Mas não sou
crítico, e nunca pretendi ser crítico, embora às vezes
me considerem, só porque escrevo resenhas literárias (e resenha,
mesmo quando contém alguma opinião crítica, não
é crítica).
O que deve ter/fazer um jornalista para atuar no jornalismo literário?
Ler. Ler sem parar. Ler de tudo, sem preconceitos. Ler até o que não
gosta. Mas ler sempre.
Será que o curso de jornalismo é necessário para a
formação de jornalistas? Não seria melhor fazer letras
e depois, em um ano, fazer uma pós-graduação em jornalismo?
Não creio que o curso de jornalismo deva ser obrigatório para
o jornalista. A defesa esse curso é, me parece, uma atitude corporativista.
Um jornalista de economia, por exemplo, será bem mais competente se estudar
economia. Agora, o que o jornalista deve saber, obrigatoriamente, é escrever.
Escrever bem. Qualquer jornalista tem que saber. Mas isso faculdade de jornalismo
também não ensina.
Há necessidade de se cobrar uma postura excessivamente crítica
dos jornalistas que trabalham com cultura? Ex: Veja.
Crítica é uma coisa, sarcasmo, ironia, má vontade, histeria,
outra. A crítica de arte faz muito essa confusão. Pensa criticamente
é refletir, é saber ver os vários lados em questão,
é saber pensar. A crítica sarcástica (que, na área
de livros, predomina hoje em alguns jornais e revistas) é, ao contrário,
preconceituosa, parcial, burra. E grosseira, repulsiva. Ela me causa repulsa.
Bruno Tolentino não esconde de ninguém que era parte da banca
do Prêmio Cruz e Sousa, quando não tendo para quem conceder o prêmio,
saiu da banca examinadora e inscreveu um livro de autoria dele mesmo. Como bom
poeta que é, ele ganhou o prêmio. Muita gente o critica por isso.
Como encara o fato? É mais um ataque, de Tolentino, à hipocrisia?
Não conhecia os detalhes do caso. O Tolentino, que é um bom sujeito,
além de muito inteligente, e excelente poeta, tem um espírito
anarquista. Vejo isso de duas maneiras. Por um lado, é muito bom que
tenha aparecido alguém como ele, que diz as coisas frontalmente, diz
aquilo que muitos de nós pensamos entre quatro paredes, sem coragem de
dizer. Respeito muito a coragem do Bruno. Por outro lado, ele diz muitas barbaridades,
que me chocam muito também. Mas, se não forem grosserias, ou mentiras
deslavadas, mesmo que eu fique chocado, defenderei sempre seu direito de dizer
essas barbaridades. O Tolentino erra freqüentemente o tom de suas críticas.
Tem, além disso, um espírito conservador (ligado ao catolicismo
papista) que me arrepia os cabelos, que me dá até medo. Quando
é grosseiro, me choca, me chateia, não posso aceitar. Ele é
na verdade uma espécie de grande agitador cultural, aquele sujeito que
atira para todos os lados, meio irresponsavelmente. Paga um alto preço
pessoal por isso, devemos registrar. Imola-se até - e parece tirar certo
prazer disso. É uma figura paradoxal. Insisto: discordo frontalmente
de muitas coisas que ele diz, mas por outro lado acho saudável que existam
intelectuais como ele, sem rabo preso, sem papas na língua. Paulo Francis,
de outro modo, foi um pouco assim e até hoje, mesmo depois de morto,
paga um preço alto por isso também.
Sobre a antologia de Heloisa Buarque de Holanda você apresentou argumentos
convincentes e que embasam as suas afirmativas, a principal delas, a de que
os poetas de hoje escrevem para outros poetas. A poesia tem futuro? Ë preciso
escrever para o povo? Qual literatura pode ser pop?
Não se trata de fazer poesia pop. Nem de "escrever para o povo",
já que não sei quem é o povo. Trata-se de escrever boa
poesia, e hoje se escreve muita poesia ruim, e, o que é mais grave, poesia
ruim apresentada como boa poesia, graças à força coercitiva
dos grupos literários que, num país vazio e idéias, acabam
impondo suas idéias. Acho a poesia muito importante. Ela não vai
morrer, nem deve se preocupar em ser pop ou qualquer outra coisa. Mas a verdade
é que a poesia brasileira não anda em boa fase. Depois da geração
de Drummond, Bandeira, Cabral, Vinicius, ficamos com um grande vazio. Temos
grandes poetas isolados: Manoel de Barros, Adélia Prado, Hilda Hilst.
Mas só. A nova geração faz uma espécie de "poesia
de professor". Como é da universidade que vem importante parte da
crítica, ela é muito elogiada, o que não quer dizer que
seja boa. É péssima em geral e é preciso ter a coragem
de dizer isso. Mas vigora um uníssono tão cerrado que, se você
diz isso, parece que está querendo aparecer, ou causar escândalo,
ou de má vontade.
Caso uma editora lhe pedisse para fazer uma antologia com os escritores
mais ilustres da atualidade, qual seria a sua lista?
Prefiro não fazer essa lista. Mas posso me arriscar a dizer que considero
João Gilberto Noll o mais importante prosador vivo do país. E,
depois da morte de Cabral, Manoel de Barros nosso poeta mais importante.
Conversando com um amigo escritor, ele assinalava a falta de projeto literário
dos novos escritores. Qual falta faz um projeto literário ao escritor?
Acho que isso não é verdade. Basta ler os escritores mais jovens.
Os mais importantes deles, todos têm projetos literários bastante
nítidos. Nítidos, me parece, até demais. Porque acredito
que, para escrever bem, é preciso trabalhar num estado de alguma inconsciência.
Trabalhar no escuro. E os jovens escritores, em geral, trabalham com as mãos
armadas de lanternas bem fortes. Daí às vezes certa arrogância.
Hoje é mais importante quem do que o que. Quando o
conteúdo vai ser mais importante do que quem escreveu a obra?
Você está certo, deveria ser sempre mais importante. Mas estamos
na época das griffes, hoje importa a griffe de um vestido, e não
o vestido. A assinatura deveria ser um efeito de qualidade, e não uma
causa de qualidade.
O e-mail ressuscitou a carta. A internet é a panacéia vendida
pela TV? Qual uso faz da internet?
Leio e passo emails, sobretudo. Consulto os jornais. Leio sempre o caderno
cultural do El Pais, por exemplo. Poucas coisas mais.
Escritor sempre diz que lê nas horas vagas, além de ler o que
faz?
Eu? Caminho no Jardim Botânico, ouço música (Mozart, Bach,
Beethoven, Madredeus), vejo filmes franceses, espanhóis e italianos no
Eurochannel (meu canal de TV favorito), como em restaurantes vegetarianos, faço
alongamento, passeio com meu cachorro pelo bairro.
Tem alguma epígrafe?
Gosto muito de uma frase célebre de Clarice: "Há pessoas
que escrevem para fora. Eu escrevo para dentro".
Qual o papel do escritor na sociedade?
Escrever. Escrever o melhor que puder. E, como escrever é pensar, ajudar
o mundo a pensar. Nada mais que isso, eu acho.
(2002)
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