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Entrevista com:
- Heloisa Buarque -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Heloisa Buarque, professora titular de teoria critica da cultura da ECO/UFRJ,
Coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ,
Diretora da Editora Aeroplano, atualmente colaboradora do JB. Escreveu e organizou
mais de 10 livros sobre cultura e política, organizou duas antologias
de poesia: a primeira "26 poetas hoje" , de 1976, lançou os
poetas marginais durante o período da ditadura militar, a segunda, "Esses
Poetas" trouxe o retrato dos novos poetas dos anos 90. Escreveu roteiros
para cinema, dirigiu documentários para cine e TV, dirigiu e apresentou
um programa de radio sobre literatura na radio MEC, nos anos 80.
Há mais de vinte anos você lançava uma coletânea
com os poetas mais expressivos da geração mimeógrafo. Há
menos de um ano está nas livrarias uma outra coletânea com poetas
dos anos noventa. Quais as diferenças entre estas duas gerações?
Como foi o processo de seleção? Alguém ficou de fora?
A diferença básica é a de que de uma explosão de
paradigmas e modelos em direção à uma maior liberdade no
uso da própria idéia de poesia, passamos, nos 90, à uma
certa reconstrução do estatuto da poesia e do trabalho mais especificamente
literário com a linguagem. Para mim, os dois momentos são igualmente
importantes e muito mais próximos entre si do que possa parecer à
primeira vista. O processo de seleção desses poetas foi bem difícil
porque a quantidade de boa poesia que encontrei foi inesperada. Diante disso,
escolhi os trabalhos que me pareciam refletir de maneira mais direta a atmosfera
cultural dos anos 90. Muitos excelentes poetas ficaram de fora o que é
o destino de qualquer antologia ou seleção (e também seu
limite e sua graça).
Ainda falando da coletânea, a poesia gay tem a tanta importância
a ponto de ser uma vertente e figurar numa coletânea de tanto prestígio?
Acho que a poesia gay é hoje tão inovadora e importante como
foi a poesia das mulheres nas décadas de 60-70.
No programa LITERATUA, você disse não conhecer o livro, acredito
que o mais recente, do poeta Bruno Tolentino. A poesia brasileira precisa de
Tolentino?
Com tanto assunto quente sobre cultura e literatura, por que todos vocês
tem tanta obsessão em saber o que penso sobre o Tolentino?
Recentemente a revista Veja publicou um artigo comparando poetas e vespas,
dizendo, num tom de chacota: "quem diria, a poesia ainda existe".
Até que ponto esta matéria corresponde à realidade?
Essa matéria foi uma matéria reportagem sem grandes interpretações
sobre a atual poesia. O saldo positivo que vejo nela é que se confirma
o fato de que poesia hoje é, definitivamente, notícia e que está
ocupando um espaço inédito na grande imprensa, seja de que cor
ela for.
O poeta brasileiro cada vez mais é um erudito. Ele traduz, tem pós-graduação,
escreve ensaios e resenhas. Tamanho preparo esbarra na falta de divulgação
de seus trabalhos e na ausência de possibilidade de viver da poesia. Ainda
assim, fora do mercado, existem poetas. O que move alguém para o caminho
da poesia? Qual é o feitiço? A poesia só traz problemas?
Adoraria responder essa pergunta mas, infelizmente, não sou poeta.
Concorda que a prosa brasileira está num nível de qualidade
bem abaixo do que a poesia? Quem seria o Drummond da prosa?
Acho que nossa literatura anda uma caixinha de surpresas. Eu diria que a poesia
estava na frente há pouco tempo atrás e agora me deparo com jovens
ficcionistas de primeiríssima qualidade aparecendo. Drummond é
Drummond, sou muito fã dele, não consigo achar similares.
Dizem que a crítica "migrou" para as universidades. A universidade
está de portas abertas para ajudar os poetas?
Acho que se as universidades não abrirem suas portas para os poetas
eles vão começar a invadir as universidades (aliás já
começaram!)
Você ainda continua com a idéia de criar uma editora?
Eu já criei essa editora há mais de um ano: ela se chama aeroplano,
em homenagem ao poema de Luiz Aranha.
Qual a importância de João Cabral para a poesia brasileira?
Alguns poetas continuarão "perfumando a flor"? O que é
moderno na pós-modernidade? A pluralidade estilística pode ser
um problema?
João Cabral é um poeta fundamental que já definiu a fronteira:
antes e depois de Cabral. A poesia brasileira não teria o nível
que tem, sem esses grandes modernos. Quanto aos possíveis problemas da
pluralidade estilística pós-moderna, ainda não temos recuo
de tempo suficiente pra avaliar seus efeitos. Por enquanto, ela vem se mostrando
saudável e democratizante. A história dirá melhor.
Ana Cristina César ainda é um enigma? Como encara acusações
de plágio que ela recebe? e recebeu recentemente?
Não. Cada vez mais chega-se perto dessa grande poeta dos anos 70. Quanto
ao plágio referido, tendo sido Ana Cristina minha orientanda de mestrado,
diria que ela fez um upgrade super bem vindo do meu trabalho.
Quais os poetas que cabem dentro da Heloisa?
Muitos, mas não todos.
Aos poucos todos os poetas "fortes" estão entrando na internet.
O que a rede pode fazer pela poesia?
Tanto, que não dá ainda para prever. No momento, posso dizer
que ela está abrindo canais de divulgação, que é
um ponto terrível de estrangulamento de nossa produção
poética.
Quais os sites mais interessantes da WWW?
Tenho mais de 2.500 selecionados, curtidos e comentados. Visite a biblioteca
virtual de estudos culturais, link do site: www.ufrj.br/pacc
O que faz nas horas vagas?
Cozinho, nado, finjo que sou arquiteta e curto minha neta lindíssima
que se chama Dora.
Tem algum mote, algum poema que a acompanhe pela vida?
O "Oldie" dos Beatles que funciona com precisão: let it be....
Qual o papel do escritor na sociedade?
Ser escritor
(2002)
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