Entrevista com:
- Glauco Mattoso -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Glauco Mattoso nasceu na capital de São Paulo (Brasil) em 1951 com o
prosaico nome de Pedro Silva, cursou biblioteconomia e letras, tornando-se poeta
ao adotar o heterônimo Glauco Mattoso, trocadilho com "glaucomatoso",
por ser portador de glaucoma congênito, que o levaria progressivamente
à cegueira no início da década de 90.
Nos anos 70 integrou a chamada "geração mimeógrafo"
e participou da "poesia marginal", um dos baluartes da "resistência
cultural" contra a ditadura então vigente.
Criou um fanzine poético-satírico chamado JORNAL DOBRABIL (trocadilho
com o JORNAL DO BRASIL e o formato dobrável do panfleto, publicado em
folhas avulsas) e colaborou em diversos órgãos da imprensa alternativa,
como LAMPIÃO (tablóide gay), PASQUIM (tablóide humorístico),
ESCRITA (revista literária), CHICLETE COM BANANA (revista de HQ), TOP
ROCK (revista musical), etc. Chegou a fazer crítica literária
e ensaio (em livros e no CADERNO DE SÁBADO do JORNAL DA TARDE), mas sempre
esteve voltado à cultura underground e aos temas transgressivos, como
o sexo bizarro, o sadomasoquismo, a tortura, a violência no rock tribal
e, sobretudo, o lado "maldito" da poesia, em seus momentos mais escatológicos
e fesceninos.
Com a perda da visão, foi abandonando a criação de cunho
visual (concretismo, quadrinhos) para dedicar-se às letras de música
e à produção de discos, como sócio duma gravadora
independente.
Em colaboração com o professor Jorge Schwartz, da USP, traduziu
a poesia de estréia de Borges, o maior autor cego do século. A
obra poética de Glauco está quase toda inédita ou esparsamente
publicada em livretos esgotados e suplementos ou fanzines.
Agora lança três livros com sua produção mais recente.
São eles: CENTOPÉIA, GELEIA DE ROCOCÓ e PAULISSËIA
ILHADA. Todos pela COLEÇÃO LIVROS DO CÃO, EDIÇÕES
CIÊNCIA DO ACIDENTE.
Wilson Martins disse que a sua versificação é excelente.
Qual a importância da crítica? Na revista Medusa há um texto
que reclama aos críticos uma atitude e trabalho maior sobre a poesia
escrita hoje e sobre poetas importantes que não são estudados.
Por que só há estudos sobre Machado de Assis e Guimarães
Rosa? É mais fácil chover no molhado?
Vou partir do particular para o geral. No meu caso, que é peculiar
porque me diferencio pela excentricidade, tanto faz se a crítica é
pró ou contra. Citemos o ilson Martins, cuja credibilidade não
questiono. Ele disse em off ao Valêncio Xavier que sou hábil
versificador, mas que ele, Wilson, jamais escreveria sobre um poeta que verseja
sobre pés. Já Zé Paulo Paes disse por escrito que sou
hábil versificador, inobstante a temática escatológica.
Percebe como todos os caminhos vão dar em Roma? Se me elogiam, endossam
minha habilidade. Se se recusam a elogiar, endossam minha marginalidade. Em
qualquer caso, atinjo meus objetivos. Agora, no caso de outros poetas da minha
geração, a questão é que está faltando
uma geração de críticos que lhes sejam contemporâneos
e co-partícipes do momento cultural. O próprio Augusto Massi
me confessou isso: a geração poética dos 70 e 80 não
teve sua equivalente safra de críticos que a comentassem, pois a crítica
está sempre voltada para o já consagrado, à prova de
deméritos. São como os capitalistas conservadores, que só
investem em papéis de empresas tradicionais e não arriscam nas
novas. A esse propósito, tenho, por exemplo, o soneto "Autocrítico":
SONETO AUTOCRÍTICO [2.158]
Autor que cita crítico é inseguro.
Os críticos se citam mutuamente,
pois um nunca está certo se outro mente.
Respaldam-se pra não passar apuro.
Isso é parasitismo, e não aturo.
Só cito outros autores como a gente,
que são meu repertório e que, na mente,
presentes sempre estão, mesmo no escuro.
Não posso ler, mas lembro de um por um.
Dos críticos não lembro nem desdenho.
Me são indiferentes, salvo algum.
Mas não vou citar nomes, porque tenho
certeza de que são gente comum,
pois sou igual àqueles que resenho.
Numa advertência em PAULISSÉIA ILHADA, você nos diz que
o binômio cegueira e podolatria estão mais diluídos nesta
obra. Qual a importância da multiplicidade temática em sua poesia?
Repetir é um dom de estilo? A paulisséia deixou de ser desvairada?
Existe uma poesia paulista?
Eu pareço um poeta de uma nota só. Primeiro, foi a merda, depois
o pé e a cegueira. Mas isso é só para um leitor de olhar
estreito. Na prática, a recorrência temática funciona
como pretexto para abordar um vasto repertório que constitui a cosmogonia
de todo poeta. Quanto à Paulicéia, continua desvairada, cada
vez mais, mas para quem está enclausurado pela cegueira o próprio
universo é uma prisão.
A poesia paulista é como a mineira ou a baiana. Se existe uma, existe
a outra, ou então toda poesia é universal. Veja, a propósito,
meu soneto "Versátil":
SONETO VERSÁTIL [2.49]
A crítica que tenho recebido
é quanto ao tema, não quanto ao formato:
"O Glauco trata só de pé e sapato,
ainda que use o molde mais subido."
Respondo antes de tudo por Cupido:
comigo ele jamais teve contato.
Além do mais, não vou deixar barato
que assunto algum me seja proibido.
Sou cego mas eclético, e versejo
acerca de problemas tão diversos
que nem forró, barroco e sertanejo.
De grandes e pequenos universos
é feito o Pé que cheiro, beijo e vejo:
a Ele presto conta dos meus versos.
O soneto é uma peça literária com características
específicas. Há quem deteste soneto. Não é o nosso
caso. Por que escolheu o soneto como fôrma poética? Qual o laço
que une Glauco Mattoso, Gregório de Matos, Bocage e Camões? Sonetos
dodecassilábicos são mais que uma tradição na poesia
lusófona? Você salvaria Os Lusíadas preterindo a baranga
como fez Camões? (Perguntas retiradas de GELÉIA DE ROCOCÓ):
Por que o soneto é a maior contribuição formal (em suas
palavras) da poesia em todos os tempos? Você pensa em tanta teoria quando
escreve? O que vem primeiro, o ovo ou a galinha?
Estive conversando com Ernesto Melo e Castro, poeta português ora residindo
no Brasil, e chegamos à mesma conclusão: o aparente desprestígio
atual do soneto é um fenômeno localizado, típico do "panelismo"
da literatura brasileira. Em Portugal o soneto nunca foi considerado ultrapassado.
Aqui foi o parnasianismo o "culpado" pela sonetofobia, talvez por
ser antecessor da "inovação" modernista, mas também
porque beirou a pieguice (na MPB diríamos "breguice"). Note-se
que os parnasianos gostavam do alexandrino, ou dodecassílabo. Já
o soneto luso tem tradição decassilábica heróica,
camoniana, presente em Bocage e Gregório, dois referenciais meus por
conta da temática fescenina. é nessa tradição,
inexpugnável, que me inscrevo, e por isso digo que o soneto é
o formato mais próximo da perfeição já inventado.
Quanto à teoria, vem depois. Por isso está no posfácio...
Em SONETO RECORRENTE (2.109): "Depois de cego, penso que mereço/ao
menos atenção mesmo que ingrata". Qual atenção
merecem (hoje) o poeta e a poesia? No SONETO JORNALÍSTICO (2.167), está
escrito que "Notícia é quando alguém perde a visão".
O que é e o que deveria ser a imprensa? A imprensa é conservadora?
A questão é simples. Mídia é merchandising, quando
não mero marketing. Se o tempo é dinheiro, na imprensa o espaço
é dinheiro. Então, só é notícia quem é
profissional, isto é, quem ganha e/ou gera dinheiro. Ora, o escritor
só é "profissional" se produz prosa, especialmente
para outras mídias, tipo TV, cinema ou a própria imprensa. Ninguém
é profissional em poesia, a não ser o cego cantador do nordeste.
Eu sou apenas um cego cantador do concreto, donde a conclusão de que
praticamente toda poesia é marginal, exceto aquela que, embora produto
do sofrimento, ganha prêmio Nobel.
SONETO BIZARRO (2.111): "Libido, pelo jeito, é mero lodo".
Freud explica?
Freud explica muita coisa, mas no caso do lado sujo do sexo nem é
preciso consultá-lo. Basta lembrar daquela quadrinha fescenina:
Tanto gosto não exijo,
mas já que tanto gostais,
Vou pôr o por onde mijo
no por onde vós mijais.
Ou seja, se o sexo é indissociável das excreções
e dejetos, a sexualidade tende sempre a ser considerada uma coisa porca. No
fundo é mesmo. Por isso é que é tentadora...
Há a necessidade de metáforas e linguagem conotativa para
se fazer poesia?
Não. Acontece que a poesia trabalha com poucas palavras. Portanto,
o peso de cada palavra é maior, e qualquer mudança na carga
morfológica ou semântica chama mais a atenção.
Intencional ou não, toda palavra sobrecarregada fica parecendo polissêmica.
Já que é assim, vamos metaforizar de propósito e capitalizar
isso, certo?
SONETO VEROSSIMIL (2.119): "brincar e poetar sem compromisso..."
A poesia é levada a sério demais? A metalinguagem é o futuro/presente
da poesia?
Se os juristas teorizam sobre o direito nos próprios autos, e se os
médicos escrevem artigos comentando suas cirurgias, por que o poeta
não poderia comentar poeticamente sua poesia? Cada um vende seu peixe
onde pode. Só que o poeta, comparado ao jurista e ao médico,
não passa dum camelô, que vende muamba na calçada e às
vezes pensa que está vendendo perfume numa butique ou granadas na trincheira
da guerrilha.
NO SONETO TROPICALISTA (2.150): "Uma antropofagia mesmo que tardia".
A descolonização tropicalista ainda está em voga? Letra
de música é poesia?
Na Grécia antiga, berço da poesia, letra era poema. Na Idade
Média dos goliardos, letra era poema. Essa história de que letra
é diferente de poema é papo de crítico literário,
que não pode competir com o folclorista e com o cronista do show business.
A Beat Generation, os singers-songwriters do rock e os letristas pós-Vinícius
na MPB mostram que letra voltou a ser poema, coisa que o cantador nordestino
nunca pôs em dúvida.
Qual governo te governa? O que representam a iconoclastia e a anarquia em
sua existência no terceiro planeta depois daquela bola de fogo rumo ao
caos?
Todos os poderes terrenos são reflexo dos poderes metafísicos,
entre os quais há um equilíbrio de forças: yin/yang,
bem/mal, prazer/dor, claridade/escuridão, etc. O paradoxo é
a essência do ser (vida/morte), e daí decorre todo o conflito
da existência. O sadomasoquismo faz parte disso: querer mas deixar-se
dominar, ter pena da vítima mas torcer pelo bandido, exigir respeito
à cidadania mas pedir pulso firme à autoridade. No fundo, torço
para que haja censura, só para poder transgredi-la. Provo do veneno
para poder evitar seus efeitos.
Há uma velha questão sobre como se elabora o poema. Gente
boa diz que é inspirado e gente boa diz que é iluminado. Inspiração
ou trabalho, ou os dois? Como foi fazer sonetos decassílabos perfeitos
e maravilhosos num espaço curto de tempo?
Foi sofrido, porque nasceram da necessidade de desabafar a angústia
da cegueira, dos pesadelos e do isolamento, mas depois de prontos foi um alívio
e uma surpresa: ver que se sustentavam esteticamente, embora produzidos apenas
na memória, sem dicionário de rima, sem Aurélio, sem
papel ou tela para anotar (só os digitei no computador falante depois
de compostos na cabeça). Eu só acreditava em poesia cerebral,
apolínea, cabralina. Hoje ainda acredito, mas acho que existe uma "assistência"
espiritual, ou seja, o poeta é um Romário, mas "alguém"
dá o passe, ou seja, faz a assistência. No meu caso, acho que
foi Borges, mas sei que Zé Paulo Paes, Bocage e Gregório estavam
escalados. Se me comparo a Romário? Quem sou eu? Só se fosse
Romário de Andrade...
SONETO INSONE (2.34): O pior cego é o que vira cego? Quem nasce cego
é menos cego?
Ah, não tenha dúvida: perde mais quem sabe o que perdeu. Por
isso acho que o melhor castigo para políticos corruptos e bandidos
em geral seria ter os olhos vazados (aproveitando as córneas para transplantes
em gente honesta e necessitada), mais que qualquer cadeia.
SONETO CÉTICO (2.79): "Não creia em tudo que está
lendo". Quantos poetas o poeta deve ser?
Eu diria que o poeta é outro poeta a cada poema. O poema é
um momento, reflexo dum estado de espírito. Mas como a natureza humana
é universal, o poeta se coloca na pele alheia para falar de seus próprios
calos.
SONETO SONOLENTO (2.108): Quanto mais velho melhor Camões?
A moderna crítica portuguesa não desmerece um Pessoa, mas já
vê Camões como algo mais atual que Pessoa. O fato é que
quanto mais velho, melhor o vinho. Ainda bem, pois tenho alguma chance de
ser valorizado em 2551, quando completo seiscentos anos de vida...
Livro GELÉIA DE ROCOCÓ
No país da bundolatria (ou calipigiomania), o que um pé pode
fazer sozinho contra a idiotice? (((((PROPONHO A UPA - UNIÃO DOS PODÓLATRAS
ANONIMOS))))).
Onde só tem bunda, sempre há lugar para um pé na bunda.
Não importa quão excepcional possa ser a exceção.
Há sempre quem se interesse por aquilo que foge à regra. Aliás,
nem precisa fundar uma associação de pedólatras anônimos,
já que um pedólatra nunca é totalmente anônimo.
Principalmente quando sua pedolatria (ou mais propriamente podolatria) é
incomum entre os próprios pedólatras. A esse respeito, insisto
no soneto "Imperfeccionista":
SONETO IMPERFECCIONISTA [2.401]
Agora lhes descrevo o pé que adoro:
Maior que o meu, portanto masculino,
ainda que pertença a algum menino,
suado até, por tudo quanto é poro.
Fedido de chulé: nunca inodoro.
Sapato ou bota: em couro nada fino.
Assim, folgado e sádico, o imagino,
igual aos que da infância rememoro.
Mais longo o indicador que o polegar,
na planta é plano, e não do tipo cavo.
Percebem onde, enfim, quero chegar?
O pé que idealizo, beijo e lavo
na língua, no tesão, no paladar,
é aquele que me trata como escravo.
15.SONETO INCONSÚTIL (2.229): Jorge de Lima é eclipsado por
poetas menores? Como influenciou a sua obra?
O Jorjão não é minha maior influência. Gregório
e Bocage têm muito mais culpa nesse cartório. Mas ele serve de
exemplo de como manter vivo e atual algo imortal como o soneto. Não
acho que ele esteja eclipsado. Basta ver como se revive a lenda de Orfeu até
no cinema e na escola de samba, graças a ele.
SONETO CONSTRUTIVISTA (2.260): Sexo. Luxúria. Prazer. Masoquismo.
Sadismo. Iconoclastia. Todo mundo, como diz o Dicró, veio de uma gozação?
Como encara a verdade que o humor oculta? É um tapa de plumas na hipócrita
sociedade?
Fiz vários sonetos reafirmando a função crítica
do humor. "Ridendo castigat mores", mas não apenas: brincando
a gente reafirma a função sádica da arte: enquanto se
chicoteia, se ri da vítima... Veja, por exemplo, o soneto "Classicista":
SONETO CLASSICISTA [2.187]
Os gregos e latinos são modelo
e herança do poeta gozador.
Difícil não nos é fazer humor;
difícil é deixarmos de fazê-lo.
Partindo de Aristófanes, que fê-lo
em fase de apogeu e de esplendor,
passando a Juvenal, onde o sabor
picante em Marcial ganha cabelo...
A sátira é fatídica ao poeta.
E se me perguntarem se é difícil
fazer a poesia mais direta,
Direi que são os ossos do meu vício.
De duas, uma: ou fácil seja a meta,
ou é quase impossível nosso ofício.
SONETO MEXERIQUEIRO (2.261): Como é ser tão moderno e tão
antigo?
Nada se parece mais com uma criança que um velho. O chato é
quando estamos no meio do caminho e temos que posar de adulto sisudo. Mas
deixe estar: logo logo deixo de usar calça curta e viro trombadinha,
ou seja, aprendiz de pivete...
PERGUNTA IDIOTA: Glauco Mattoso acredita no amor? Em que tipo de amor?
Pergunta nada idiota! Acredito no amor, desde que não haja sexo. Onde
há sexo há poder, dominação, humilhação,
e onde há amor há no máximo carinho. Se as duas coisas
podem coexistir? Claro, mas por pequenas frações de tempo, ou
então no plano platônico e onanístico. Nunca é
demais lembrar que a mãe ama o filho porque o considera sua propriedade,
e só depois de gozar é que o macho indaga da fêmea se
"Foi bom, meu bem?"...
SONETO FALOCRÁTICO (2.299): Gilberto Gil cantava que todo menino
é um rei. Todo menino é um gay?
Eu diria que todo gay é um menino, ou seja, todo cara que pende para
seu próprio sexo tem fortes reminiscências da infância,
o que não significa necessariamente trauma. No meu caso, foi trauma
porque foi na marra e foi humilhante, mas depois a humilhação
se tornou tão cotidiana que o masoquismo virou síndrome de abstinência...
Você dedica espaço para explicação de como trabalha
a metrificação. Você pensa nela quando escreve?
Claro, mas não como uma coisa abstrata, teórica. A métrica,
a rima, assim como a acentuação tônica, estão na
cabeça do poeta rítmico assim como uma partitura está
na cabeça do músico: é uma bússola, não
um mapa.
Qual relação tem com a ficção científica?
É um gênero menor?
Nenhum gênero é menor, exceto o haicai. Menores são obras
ou autores. A prova de que a ficção científica é
um gênero nobre, que recruta os mais engenhosos talentos, está
no fato de Bráulio Tavares ter deixado meio de lado a poesia e a letra
de música para ganhar prêmio como cientista-ficcioneiro, ou melhor,
como ciencieiro-ficcionista.
O que anda escutando? Música?
Ouço de tudo. Meu ouvido ficou tão aguçado que escuto
até carros manobrando na garagem, nove andares abaixo, ou vizinhos
trepando aos cochichos. Mas o que prefiro ouvir são as sonatas para
cravo de Scarlatti e o rock dos anos 50 e 60, como Bo Diddley, Buddy Holly,
Warren Smith, Beatles, Kinks, Byrds... Sobre questões auditivas tenho,
por exemplo, o soneto "Sonoro":
SONETO SONORO [2.376]
As vozes das vizinhas são distintas,
algumas estridentes, outra mansa.
Adultas ou com timbre de criança,
ninfetas, quarentonas, velhas, trintas.
Talvez não imagines nem consintas,
mas meu ouvido cego não descansa:
rastreia, pelo prédio, a vizinhança;
permeia portas, tetos, luzes, tintas.
És tu, balzaquiana, que me passas
total tranqüilidade no teu tom,
poupando-me de dores e desgraças!
Não sei se és linda, pálida, marrom.
Não penso em estaturas, pesos, raças.
Só penso em tua voz, calor tão bom!
Qual mote representa o seu estilo de vida agora?
Meu lema sempre foi aquele ditado que diz "Mais vale ser um sapão
de brejinho que um sapinho de brejão". Agora que fiquei cego,
meu ditado favorito é um que adaptei: "Nunca falta um pé
cansado para um chinelo cego".
Qual o papel do escritor na sociedade?
Acho que é o papel higiênico. É verdade que alguns escritores
são meio lixa, outros mais aveludados, mas a merda também varia.
Existe merda de filé mignon e merda de rabo de porco. Cada papel tem
a merda que merece, e vice-versa. Eu prefiro ser versa, ou antes, subversa,
a ser vice de quem não merece ser titular dum cargo. E tenho dito,
ou antes, tenho maldito.
obs. Sua secretária eletrônica pede o tamanho do pé.
Tem pequeninos que resolvem ou tem que ser grande?
O tamanho é só um atrativo a mais, entre outros (sola chata,
dedão mais curto, cheirinho forte...). O que importa é a vontade
de quem me permite o privilégio de servir-lhe o pé.
(2002)
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