Entrevista com:
- Gilberto Mendonça Teles -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Nasceu em 30 de junho de 1931, em Bela Vista de Goiás, GO. Reside há
30 anos no Rio de Janeiro. Fez toda a sua formação acadêmica
em Goiânia: o ginásio, no Ateneu Dom Bosco, dos salesianos, e no
Colégio Estadual, onde cursou também o científico; o curso
de Letras Neolatinas, na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica
de Goiás; e o de Direito, na Universidade Federal do mesmo estado. Em
1965, foi com bolsa de estudos para Portugal, obtendo, em Coimbra, o Curso de
Especialização em Língua Portuguesa. Em 1969, doutorou-se
em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul, defendendo também tese de Livre-Docência em Literatura
Brasileira.
Em Goiás, foi, durante14 anos, funcionário do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística e, ao mesmo tempo, professor do Colégio
Estadual [Liceu], antes de iniciar sua carreira de professor-universitário.
Foi professor-fundador da Universidade Católica e da Universidade Federal
de Goiás, onde estruturou e dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros,
fechado pelos militares em 1964. Por duas vezes presidiu a União Brasileira
de Escritores, secção de Goiás, e o Instituto Histórico
e Geográfico de Goiás. Atingido pelo AI-5, quando professor de
literatura brasileira no Instituto de Cultura Uruguaio-Brasileiro, de Montevidéu,
veio para o Rio de Janeiro em janeiro de 1970.
Durante três meses deu aula em pequenos colégios e cursinhos do
Rio de Janeiro, até ser contratado pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro [PUC-RJ], onde é hoje Professor Titular
de literatura brasileira e teoria da literatura há trinta anos. Com a
anistia, transferiu seus cargos públicos para as Universidade Federal
Fluminense e Federal do Rio de Janeiro, aposentando-se em 1988 e 1990, respectivamente..
Além de professor no Uruguai, lecionou em Portugal [Professor-Catedrático-Visitante
da Universidade de Lisboa], na França [Professeur Associé da Universidade
de Haute Bretagne, em Rennes; e Maître de Conférence na Universidade
de Nantes], nos Estados Unidos [Tinker Visiting Professor da Universidade de
Chicago] e na Espanha [Catedrático Visitante da Universidade de Salamanca].
Já recebeu 18 prêmios literários, entre os quais: "Álvares
de Azevedo" [Poesia], da Academia Paulista de Letras, 1971; "Olavo
Bilac" [Poesia], da Academia Brasileira de Letras, 1971; "Sílvio
Romero" [Ensaio], da A. B. L., 1971; "IV Centenário de Os Lusíadas"
[Literatura Comparada], da Comissão do IV Centenário de Camões,
1972; "Prêmio de Ensaio", da Fundação Cultural
do Distrito Federal, 1973; "Brasília de Poesia", do XII Encontro
Nacional de Escritores, 1978; "Cassiano Ricardo" [Poesia], do Clube
de Poesia de São Paulo, 1987; e "Machado de Assis" [Conjunto
de Obras], da Academia Brasileira de Letras, 1989.
Em 1979, a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás elegeu-o "Príncipe
dos Poetas Goianos". Em 1987, o Governo Português outorgou-lhe a
"Comenda da Ordem do Infante Dom Henrique"; e a Universidade Católica
de Goiás deu-lhe o "Diploma de Honra ao Mérito". Em
1992, a União Brasileira de Escritores de Goiás instituiu o "Concurso
Nacional Gilberto Mendonça Teles de Poesia". Em 1995, Homenagem
do Centro Acadêmico do Departamento de Letras da PUC-RJ, de que resultou
o livro Gilberto: 40 anos de poesia. Em 1996, a Universidade Federal do Ceará
conferiu-lhe o título de Professor Honoris Causa; e a Câmara Municipal
de Bela Vista de Goiás deu-lhe o diploma de "Título Honorífico".
Em 1997, a União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro conferiu-lhe
a medalha "Carlos Drummond de Andrade"; e o Governo de Santa Catarina
a "Medalha de Mérito Cruz e Sousa". E em 1998, é eleito
Sócio Correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.
Como foi o primeiro contato com a literatura? Quais sensações
tinha ou tem ao lembrar da infância. Há algo especial, como quando
Marcel comia biscoitos, no Em Busca do Tempo Perdido, de Proust? Escrever é
lidar com o lúdico?
O primeiro contato foi na escola primária, numa cidadezinha do interior
goiano. A partir do terceiro ano, comecei a me interessar pelo livro de leitura,
com muitos poemas infantis do famoso Poesias Infantis, de Olavo Bilac.
Vejo hoje, recolhendo emoções na tranqüilidade, alguns
elementos que devem ter concorrido para o meu gosto pela Poesia. Coisas que
eu percebia, como o anoitecer; ou que eu era levado a sentir (pela
guerra, pela propaganda do Estado Novo ou por um sentimento inato de nacionalismo),
como uma vaga idéia de pátria; coisas que imaginava,
como o bonde, ou que eu conhecia de perto, como o rio, tudo
isso vinha nos poemas que éramos obrigados a ler na escola. E essa
"obrigação" é importantíssima na formação
do gosto literário.
Vejo-me com nove anos, diante da professorinha que me mandava ler em voz alta
o poema "A Pátria", de Bilac. Ouço-a me corrigindo
a pronúncia e ainda sinto a vergonha das suas correções
diante da turma, sobretudo diante de uma certa menina que me olhava de vez
em quando. Mas o que mais me agradava era algo mágico, indefinível,
que eu ia percebendo na música das palavras, possivelmente no ritmo
que ia descobrindo na leitura em voz alta de versos como "Ama com
fé e orgulho a terra em que nasceste!" ou "Esbraseia
o Ocidente na agonia / O sol...".
No alexandrino de Bilac, o encantamento tinha algo a ver com o conteúdo
do verso: o orgulho de haver nascido em Goiás de Pedro Ludovico e no
Brasil de Getúlio Vargas, tanto que, quando este morreu, eu escrevi-lhe
um soneto encomiástico, que aparece agora na quarta edição
de Hora Aberta (poemas reunidos). No decassílabo de Raimundo
Corrêa havia outra espécie de encantamento, melhor, de enigma
e de curiosidade. A ordem inversa e o enjambement me faziam olhar várias
vezes para o texto, tentando compreender porque o sol vinha lá no fim,
como se estivesse mesmo se pondo entre as nuvens vermelhas dos céus
de Goiás. E isso me agradava. Eu sabia o que era brasa por causa
das fogueiras de São João, mas não sabia bem o que era
Ocidente e aquele "na agonia o sol" me estimulava
a imaginação. Hoje vejo que a sucessão de vogais tônicas
(eia, ente, ia e ol) deve ter atuado como uma melopéia nos meus
ouvidos e no meu espírito que se ia abrindo para a linguagem e para
a poesia.
Aos quatorze anos aprendi a metrificar, lendo Gonçalves Dias, Álvares
de Azevedo e Olavo Bilac. Começava a compreender o segredo do ritmo
na poesia. Era tão difícil no início que eu às
vezes passava uma semana para endireitar os versos de um poema. E devo ter
comido também os meus biscoitos, madeleines, roscas e pamonhas,
pois as imagens da infância me vêm nítidas, espontâneas
sem precisar que eu lute com le temps perdus. A única luta (ou
lide) que se conta - e que é também proustiana - é com
o lúdico: apreendendo a brincar, a jogar com as palavras, o homem aprende
também a jogar com o mundo. E é sem dúvida desse jogo
que provém a poesia. A melhor poesia, pois escrever é mesmo
(como você pergunta afirmando) lidar com o lúdico, com a alegria,
com a vida. Todo poeta é também um opó-rapá-cupu-lopó
alguém que saiba brincar com a linguagem para descobrir / revelar o
outro lado das coisas.
Dizem que livros são como filhos, gosta-se igualmente de todos.
Há algum (livro de sua autoria) predileto?
Pode ser, mas não deixa de haver preferência por um (filho),
incompatibilidade com outro e até compaixão por um terceiro.
Se a palavra gostar pode sintetizar essas diversidades, muito bem.
Com os livros se passa de maneira análoga, mas com uma diferença
fundamental: à medida que vão sendo publicados vai-se formando
na cabeça do autor uma [auto]consciência crítica sobre
o valor deles, a não ser que se trate de um escritor cabotino, para
o qual tudo é obra-prima... Nas duas linhas de minha produção
- de poesia e de crítica - há alguns livros por
que tenho maior simpatia. Talvez porque sofri mais a sua escritura ou ela
se deu numa época mais difícil, tanto para o homem como para
o escritor. Ou quem sabe a consciência crítica se dá melhor
com a sua "estrutura", com os seus temas, com o seu título,
etc. É neste sentido que, como poeta, gosto de livros como Planície
(1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível
(1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural
de Nuvens (1984) e o recente Álibis (2000). Creio que eles
são pontos sustenidos na minha série de poesia, o que não
impede de achar que Plural de Nuvens seja talvez o meu predileto. Quanto
à linha de crítica, há livros como A Poesia em Goiás,
de 1964, que representa o meu primeiro grande esforço de pesquisa e
de pensamento crítico; o Drummond - A Estilística da Repetição
(1970), análise aprofundada de um recurso estilístico [4ª
edição]; Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro
[17ª edição], o que mais me rende em direitos autorais;
Camões e a Poesia Brasileira [1973], cuja 4ª edição
acaba de sair em Portugal; e, ainda, Retórica do Silêncio
(1979) e A Escrituração da Escrita (1996). São
livros de que gosto, onde exprimi meu conhecimento de cultura literária.
Acho que o predileto pode ser A Escrituração da Escrita,
no qual me sinto maduro e à vontade, a ponto de contornar os cacoetes
da linguagem universitária.
Para o texto ser revolucionário, deve haver conteúdo e forma
revolucionários, ou com apenas um dos ingredientes, a revolução
pode ser feita? Existe novidade hoje em dia?
Um dia me dei conta (na Retórica do Silêncio) de que
há duas espécies básicas de vanguarda: uma, que
se diz e se quer revolucionária, que faz manifestos e que vem por fora
da literatura estabelecida e que eu chamei de provocante, pregando
a destruição e anunciando uma literatura nova, que não
se sabe bem como é; e outra, natural e por dentro da
linguagem literária. A primeira se refere a movimentos como o futurismo,
o dadaísmo, o surrealismo e o concretismo brasileiro; e a segunda se
aplica a todos os poetas como Bandeira, Oswaldo, Drummond e Cabral, os quais
foram vanguardistas no sentido de que tiveram ousadia, originalidade e virtuosidade
na produção de seus poemas, na criação de sua
poesia, isto é, conheceram a fundo a sua arte/ciência de fazer
versos.
Depois desta "introdução", pego a sua pergunta e junto
"conteúdo e forma" num só termo - forma -,
sem pensar em separá-los. Quando Maiacoviski disse que "sem
forma revolucionária não há arte revolucionária",
ele não está separando forma de conteúdo, pois
ele sabia (ou intuía) que na linguagem tudo é forma. Há,
portanto, uma forma do conteúdo e uma forma da forma: esta se manifesta,
aquela fica latente, mas de tal maneira que uma alteração numa
repercute na outra. Por exemplo: é muito difícil que num soneto,
poema fechado nos seus catorzes versos, se possa exprimir o sentido revolucionário
das duas formas de vanguarda. A forma da forma não encontra
liberdade para expressar a forma do conteúdo novo, literário,
social ou político. Não sei se ficou claro, mas é assim
que penso.
No meu livro A Escrituração da Escrita (Vozes, 1996),
no capítulo "O Processo da Moderna Poesia Brasileira", faço
uma síntese dos procedimentos da "Nova Vanguarda Européia",
citando, dentre outros, os seguintes movimentos: o poema visual, o sonoro
ou fonético, o multidimensional, o semântico, enfim, uma série
de recursos de que se valem para vender um produto poético (ou não)
como novo. Todo tipo de apelação possível e impossível.
Aparentemente, novidades.
Você tem a versatilidade dos tempos pós-modernos. Escreve
poemas concretos, metrificados, sonetos, verso livre? O poeta é um camaleão?
Acho que a sua pergunta atinge aqui a força de uma bela definição
teórica: ser pós-moderno é misturar tudo, mas sem eliminar
a autonomia de cada forma poética. É o camaleão brincando
de poeta e lambendo as astúcias miméticas de Aristóteles.
Ou do Teles, que mantém a tradição do aristos [aristoz],
isto é, de querer o melhor, o excelente. Se essa mistura é mesmo
pós-moderna, estou feliz. No Brasil o "pós-moderno"
foi uma onda que passou pela universidade, arrastando todos os que só
vivem do novo: ser inteligente é citar o último tango de Paris...
Aliás, estou falando de barriga cheia, pois um professor da UFRJ, num
livro sobre épica, estudou a minha Saciologia Goiana como épica
pós-moderna. Nunca tinha pensado nisto. Mas concordei com ele: o meu
livro era mesmo uma mistura de todas as formas e movimentos literários.
Penso, entretanto, que não escrevo poema concreto coisa alguma: escrevo
poema visual, que é outra coisa. Tanto que os concretos se valeram
dos poemas visuais, que são tão antigos como a escrita. Veja-se
o livro de José Fernandes, O Poema Visual, publicado pela Vozes,
creio que em 1996. A minha "versatilidade" (pena que não
é versutilidade) me faz ser ou pretender ser um "camaleão":
daí a minha língua comprida, língua de sogra / língua
de sabre / língua de sobra / língua demais [...] a língua
oca / que pende langue / do céu da boca.
Você é angustiado por alguma influência?
Li o livro de Harold Bloom (The Anxiety of Influence / A Theory of
Poetry), quando trabalhei como professor na Universidade de Chicago, no fim
da década de 1980, depois de haver escrito A Retórica do
Silêncio, que é de 1979 (Cultrix) e possui um subcapítulo
denominado "A Influência". É claro que já sabia
do nome do autor mas ainda não o havia lido, embora o seu livro tenha
saído em 1973. Como a sua pergunta intertextualiza o título
do crítico norte-americano, vi-me na obrigação de citar
a sua obra, antes de tocar no problema da "influência". Levantei
a história desse termo e terminei o meu estudo dizendo que, hoje, em
face de uma obra com que o espírito do escritor encontra identificação
estética, "o novo escritor, em vez de imitar, como nos tempos
clássicos, procura conscientemente atualizar os elementos que
lhe parecem importantes na estruturação de sua obra. Mas não
resta dúvida de que à margem de sua consciência fluem
imagens, construções estilísticas e até traços
do assunto de obras literárias que o tenham impressionado. Mas sempre
de maneira parcial, nunca total. Senão seria o plágio".
Agora, pessoalmente posso dizer que tenho algumas influências palpáveis
na minha poesia, possivelmente nesta ordem: Bilac, Cruz e Sousa, Raul de Leôni,
Paulo Bonfim, Bandeira, Mário de Andrade, Drummond, João Cabral
e Lêdo Ivo. Na poesia brasileira, são os autores que mais leio.
De fora, devo consciente a Lorca, Jorge Guillén, Vicente Aleixandre,
Reverdy, Aragon e mais proximamente Raymond Queneau. Nunca o havia lido, mas
um crítico brasileiro, também romancista e tradutor, me disse:
Puxa! Como a sua poesia se parece com a de Queneau. Achei graça, mas
na primeira viagem a Paris saí procurando obras de Queneau. Hoje penso
que ele devia ler bem português e acabou me descobrindo...
Harold Bloon aponta Shakespeare como o inventor da modernidade. Concorda?
No Jornal do Brasil (Idéias), de 2 de setembro do ano passado,
falo do Shakespeare: a invenção do humano, de Harold
Bloon, como o livro mais importante que eu estava lendo. A tese central do
crítico norte-americano é a de que Shakespeare "nos explica"
porque "nos inventou". Ele é o "inventor do humano"
e não, como você está dizendo, "da modernidade".
A não ser que o "humano" tenha aí algo de "humanismo"
e, portanto, de modernidade avant la lettre. Para Bloon, a arte de
Shakespeare é tão infinita que nos contém e há
de continuar abraçando os que vierem depois de nós. "As
[suas] peças nos lêem de maneira definitiva". E não
é à toa, portanto, que "Depois de Jesus, Hamlet é
a figura mais citada no Ocidente".
Walter Benjamin erra quando hierarquiza a arte dizendo que o cinema é
a maior delas?
Acho que sim, que erra. A começar com a comparação
entre as artes. Cada uma tem sua matéria própria, sua forma
específica e seu universo especial. Destacar uma em detrimento da outra
não me parece metodologicamente correto. No seu conhecido artigo "A
obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica" [estou citado
pela tradução francesa da Denoël, de 1971], Benjamin diz
que pela primeira vez - e isto no cinema - "o homem deve agir, com toda
a sua personalidade viva e segura, e entretanto privada da aura. Porque sua
aura depende do seu aqui e agora. Ela não sofre nenhuma reprodução".
Compara depois o cinema ao esporte e diz que nos dois casos os espectadores
são semiconhecedores e chega à conclusão, aliás
verdadeira, de que o desenrolar de um filme "fornece um espetáculo
que não se teria jamais podido imaginar no pasado". Enfim, coloca
o cinema como uma super-arte, em vez de vê-la como uma reunião
de artes, cada uma com a sua característica, mas concorrendo todas
para um sentido coletivo que tem no movimento o seu ponto culminante.
Com quantas metáforas se faz um poema?
Eu poderia começar citando uma estrofe do meu poema "Na língua
do povo" (de Álibis), onde digo que
Que tudo começa em mim. Até o caos
de outro universo com estrofe e rima.
E eu quero te mostrar com quantos paus
se faz um bote com mulher por cima.
Um poema pode se fazer sem nenhuma metáfora e sem nenhuma figura:
pode ser apenas o registro lingüístico de um momento, de um fato,
como em alguns poemas de Bandeira. Houve até quem falasse em antimetáfora
nesses casos. O problema maior é achar que metáfora é
qualquer figura ou a figura dominante. Os dois lados do signo, significante
e significado, criam dois planos no discurso: o da "expressão"
e o do conteúdo" e cada um deles gera uma cadeia de imagens que
vão num crescente, por um lado, do nível do fonema ao da sílaba,
ao da palavra, ao da frase, ao da oração e finalmente ao do
discurso em si; e, por outro lado, do nível do sema ao da raiz, ao
do semema e às significações da palavra, da frase e do
discurso. Daí as famílias de figuras - os metaplasmos, as metataxes;
os metassememas e os metalogismos. Isto pode ser visto claramente na p.24
do meu livro A Escrituração Escrita, citado acima. Ao
pé da letra, não se pode dizer que o poema é como uma
metáfora, pois esta figura se dá no nível da palavra,
no seu plano de conteúdo, no dos metassememas. Não metáfora
de frases: a figura aí ganha outro nove, alegoria, por exemplo.
Todo professor analfabeto em poesia diz que o poema é uma "vasta
metáfora". Burrice. Mas a sua pergunta é quanto ao número
de metáforas num poema. Quanto mais melhor, mas o acúmulo delas
pode levar ao hermetismo, à obscuridade, uma vez que o ritmo do poema
perde o seu fundo de realidade convencional (o cotidiano) para apontar com
mais insistência no sentido da abstração. O certo é
o equilíbrio, a dosagem certa que só o tempo e muito exercício
de escrita nos acaba ensinando.
Quem é o escritor brasileiro?
É como qualquer escritor em qualquer país do mundo. É
muito raro que ele seja somente escritor. É sempre uma mistura de médico
e poeta, advogado e romancista, professor e crítico. Enfim, um sujeito
que estuda pouco a sua arte, pois tem de estudar a sua profissão para
sobreviver. Isto é o comum. Mas é também um sujeito,
no Brasil e no exterior, que tem de lutar para aprender a escrever, para escrever,
para publicar, para distribuir o seu livro, para obter reconhecimento e para
receber o pouco que lhe toca de direito autoral. Mas ele possui ainda a "aura",
a sua arte de poesia ou prosa não a perdeu não. E é ela
que lhe dá uma espécie de salário indireto, de estima
e de admiração que acaba lhe rendendo alguns trocados.
Qual uso faz da internet?
Muito pouco. Gosto imenso do computador: ele adiantou minha vida últil
em mais de dez anos. Gosto também do e-mail, mas não
gosto da maioria das coisas que me mandam. Acho que quando passar esta fase
de "instalação", quando ele se tornar normal e perder
um pouco do seu ar de burguês, o seu uso se disciplinará automaticamente
e se tornará o que já é: um notável meio de comunicação.
Não tenho muito tempo e paciência com a internet. Mas visito
de vez em quando algum site.
Como é o seu trabalho acadêmico?
Sou professor universitário desde 1958. Há trinta anos trabalho
na PUC-Rio. Sou professor titular e leciono literatura brasileira e teoria
literária. Já lecionei no Uruguai, em Portugal, na França
(duas universidades), nos Estados Unidos (Chicago) e na Espanha (Salamanca).
Pelo meu Curriculum Vitae, que vai anexo a seu pedido, pode-se documentar
outras coisas, como antologias de poemas meus no estrangeiro. Gosto de dar
aula, mas me irrita o aluno que não sabe e dá a entender que
sabe, sobretudo nos cursos de pós-graduação. Nunca deixo
de preparar as minhas aulas. Como escrevo muito (estou falando de crítica
literária), meus cursos têm sido leitura e debates de artigos
meus. Claro, e leitura de textos literários, nunca meus. Sou pontual
e exijo a pontualidade.
O livro acaba? O desmatamento também?
Em A Escrituração da Escrita trato do mito da morte
da poesia, do romance, do livro. É um mito antigo. Quando Jesus nasceu
se ouviu numa das margens do Mediterrâneo a voz que dizia que o Grande
Pã morreu, como se toda a cultura antiga fosse desaparecer. Mas o interessante
é que algo realmente mudou, mas não morreu. Tudo continua vivo.
Logo que passar a moda do computador, da internet, etc. vai-se ver que o livro
continuará vivo, ocupando o seu espaço. Se o governo ajudar,
o desmatamento vai acabar mesmo. Por que você não passa para
o seu site o meu poema "O Mato Grosso Goiano", de Saciologia
Goiana, um poema visual que mostra o desmatamento e o critica. Se não
puder encontrá-lo, me diga, por favor.
Qual epígrafe personifica você e sua obra?
Vou juntar duas numa só, para responder. A primeira, uma epígrafe
que tirei de Raymond Queneau, do livro L'Instant Fatal. Aí se
diz, num poema, que "ça a toujours kékchose déxtreme
/ un poème". A segunda, tirei do livro Lettres en Folie,
de A. Duchesne e Th. Leguay. E diz simplesmente isso: "En nous incitant
à jouer avec eux les mots nous invite à juer avec le monde".
A primeira é a prática da segunda e ambas nos põem no
sentido do ludismo: brincar ou jogar com as palavras, com a linguagem. A primeira
abre o livro L'Animal, publicado em Paris, numa edição
bilíngüe, em 1990; a segunda abre o Álibis, do ano
passado. Elas personificam a minha concepção de poesia, percebida
por alguns críticos, como Paulo Rónai e como Péricles
Eugênio da Silva Ramos que escreveu o seguinte na Revista de Poesia
e Crítica, de 1985:
Duas coisas chamam a atenção, liminarmente, neste Plural
de Nuvens de Gilberto Mendonça Teles: em primeiro lugar, mostra-se
com toda a clareza o virtuose do verso [...]. E tudo isso casado com estilo
por vezes sério, mas freqüentemente lúdico ou zombeteiro:
Tudo o que escrevo / tem algo de travesso - assevera Mendonça
Teles. [...] A faceta bem humorada do poeta e o modo como a lapida situam-no
em posto perfeitamente dele, pessoal, inconfundível, apesar das raízes
longínquas que possa ter de escassos mestres. Na verdade, ninguém
desenvolveu, como ele, em nossa poesia moderna, essa feição
alegre, foliona, mas completamente destituída de ferrão, satírico
ou mordaz, de qualquer ofensa ou maldade. O poeta brinca, como escrevia
Mário de Andrade transcrevendo Pallazeschi: Lasciatemi divertire!
E, brincando ou divertindo-se, realiza-se numa poesia de presença
marcante. Plural de Nuvens não é livro que possa passar
sem que se assinale seu lugar de realce em nossa poesia: chega a redmi-la
de torrenciais mesmices e da obnubilação dos que pensam que
cantam, mas na verdade coaxam.
Aliás, o humor constitui o tema da dissertação de mestrado
de Marília Núbile, A Carnavalização na Poesia
(Estudo da poesia de Gilberto Mendonça Teles), defendida na Universidade
Federal de Goiás e publicada pela Universo em 1998.
O papel do escritor na sociedade é ser, como diria Erza Pound, antena
da raça?
É coisa demais, Seomario; prefiro brincar por agora e responder com
um poema que está em Plural de Nuvens. Mas diria antes que o
papel do escritor, a sua função social, é escrever e,
assim, descrever com a sua observação e com a sua imaginação
tudo o que lhe parece "escrevível", revelar o irrevelado,
mostrar o invisível do visível. Captar, com a antena da raça
ou da roça, a sua maneira especial de ver a vida e o mundo. Mas veja
o meu poema brincalhão:
TEATRO DE ARENA
Estou desempenhando o meu papel-
carbono: aqui está o seu nome
como uma tatuagem no meu peito.
Aqui, o acetinado para as suas mãos
e o aéreo para uma viagem clandestina.
Já fui como um papel almaço
muito bem pautado e com margens
para as emendas e correções.
Amanhã serei algum papel de embrulho
se não for um desses papéis de oficio
com timbre e protocolo para comunicar
oficialmente a seu marido
que entrei em gozo de férias
ou de licença-prêmio com você.
Hoje eu sei me transformar
nos papéis mais difíceis:
ser bufão como um papel bouffant,
faminto como um papel de arroz,
discreto como um papel de alcova,
fino como um papel de linha,
sensual como um papel de rolo
para as nossas abluções.
Mas também um autêntico linha-d'água
só para ver você na contraluz.
Já representei papéis estrangeiros:
China, Índia, Holanda, Japão.
Você pode fazer de mim o seu correio,
o seu papel-moeda ou papelão.
Quando você me receber, não me olhe de soslaio,
apesar de ser muito bonita esta palavra.
Me olhe de banda, que é a coisa mais linda,
e me guarde no bolso da calça, bem em cima
daquele sinal na coxa esquerda.
Depois, antes que alguma coisa aconteça,
me tire da cabeça.
Um dia,
quando a roupa voltar da tinturaria
e este poema perder seu significado,
você me encontrará todo enrugado:
-Que papel será este? E por capricho
me deitará no lixo.
(2002)
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