Entrevista com:
- Fabio Weintraub -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Poeta, editor, ensaísta. Nascido em 24 de agosto de 1967, na cidade de
São Paulo. Psicólogo pela USP. Psicanalista. Colaborador do Caderno
2 e da revista CULT (Revista Brasileira de Literatura). Desde 1990, integra
o grupo Cálamo, núcleo de produção poética.
Autor de Toda mudez será conquistada (SP: Massao Ohno, 1992) e
Sistema de Erros (SP: Arte Pau-Brasil, 1996), livro com o qual obteve
o prêmio NASCENTE IV (USP/Editora Abril) na categoria poesia, em 1994.
Participação em antologias do Cálamo: Lição
de Asa (SP: Iluminuras, 1993), Vila Lira Rica (SP: Edição
dos autores, 1995) e Desnorte. Leituras poéticas em torno à
obra de João Guimarães Rosa (SP: Nankin, 1997). Atualmente
coordena a coleção de poesia brasileira "Janela do caos"
para a Nankin Editorial.
Você é um psicanalista que é poeta ou um poeta que é
psicanalista? Ou isto não tem a menor importância na sua obra?
Existem várias maneiras de não responder a esta pergunta. A primeira
delas consiste em observar que, nesse balaio de gatos que compõem a ficção
do eu, é muito difícil estabelecer a função substantiva
ou adjetiva de cada elemento. Elementos que ocupam uma posição
central em determinado contexto ou circunstância podem desempenhar um
papel subsidiário noutra configuração. Por que a profissão
(no meu caso, a de psicanalista) seria mais importante na composição
de minha identidade que o fato de eu ser descendente de judeus poloneses; ou
de ter pé chato e aproximadamente três graus de miopia em cada
olho; ou de ter feito teatro dos quinze aos vinte e dois anos?
A segunda maneira consiste em repartir a pergunta e verificar o caráter
problemático de cada subidentidade (a de psicanalista e a de poeta) anteriormente
a qualquer tentativa de intersecção. No caso do psicanalista,
pergunto-me: como é possível atribuir identidade a um profissional
cuja prática se dá no avesso das identificações,
como abertura ao inconsciente, às divisões e descentramentos pelos
quais o sujeito se aliena na linguagem? No caso do poeta, como passar por detentor
de uma potência cujo controle me escapa? Ninguém se sente poeta
a não ser no momento em que está escrevendo. Quando um poema acaba,
nada garante que o poeta poderá repetir a façanha, justamente
porque ele é "um inventor de formas e não de fórmulas";
como bem nos ensina Octavio Paz. Por detrás do estilo, não há
técnicas passíveis de replicação e mesmo uma obra
extensa, objeto de alguma fama, não é cama onde o escritor possa
deitar-se impunemente.
Quanto à intersecção, o que privilegiar? A continuidade
do papel profissional ou a intensidade da experiência estética?
Aporias à parte, penso que a formação em psicologia e,
mais especificamente, a clínica psicanalítica - da qual estou,
cumpre dizer, afastado há uns três anos (atualmente trabalho numa
editora) - tem certamente importância em minha obra. Sobretudo no que
se refere ao tipo de escuta para o qual a psicanálise nos predispõe,
a "atenção flutuante" dirigida aos lapsos e repetições,
às dissonâncias sob a superfície calma do discurso (e que
também opera nas trapaças poéticas contra os automatismos
da linguagem). Além disso, reconheço ainda em meus poemas um interesse
mais acentuado por certos "mecanismos" afetivos e uma inclinação
discreta, porém consistente, para o campo das perversões.
"Vendetta" é um poema conciso. Dizer o máximo com o
mínimo é o paradigma da sua poesia, pelo menos em Sistema de Erros?
VENDETTA
cerro os olhos depois da surra
o ódio rói o erro varre o riso
da boca
a mandíbula
apertada e dura
como uma virgem
cerro os olhos depois da chuva
o trovão vara a raiva raia a treva
das vértebras
a medula
desgovernada e cega
como um naufrágio
há gelos que o tempo não funde
cerro os olhos depois
guardo um punhal sob a língua
para o beijo
em mamãe
Não sei se a concisão pode ser considerada um paradigma para determinadas
poéticas e não para outras. Penso na concisão como valor
universal, transtemporal, como índice que atesta a voltagem de todo texto
poético para além de qualquer opção particular.
Trata-se de algo que quase se confunde com a função poética,
com a "projeção do princípio de equivalência
do eixo de seleção sobre o eixo de combinação"
(Jakobson) e que pode ser nomeado de muitas maneiras: polissemia, condensação
(Pound: dichten = condensare) etc. Estou só lembrando de slogans
teóricos muito conhecidos sobre os quais não é necessário
insistir.
Coisa bem diversa é identificar concisão com brevidade, e aí
a coisa muda de figura. A brevidade, sim, é um valor que pode interessar
mais a alguns poetas que a outros. Ocorre que, por algum equívoco de
leitura, determinados poetas passaram a endeusar as formas breves (como o epigrama
e o haicai, só para citar alguns exemplos) como se poemas de grande extensão
significassem necessariamente falta de rigor, desprezo pela concisão.
O que não passa de um enorme engano. O poeta pode ser breve sem ser conciso;
e vice-versa. Acho que é preciso desconfiar desses que fazem haicais
a granel, ou dos que aviam poemas-pílula com ingredientes vencidos e
sem receita médica.
Por fim, persigo sempre a concisão porque sem ela não há
poesia. Com relação à extensão dos poemas, gosto
de experimentar de tudo um pouco. Parafraseando Bandeira: "todas as extensões,
sobretudo as inumeráveis".
Você teve o livro ilustrado por Fernando Vilela. Como escolheram as
ilustrações já que, muitas vezes, o trabalho do ilustrador
atrapalha o do poeta e vice-versa? Como conseguiram a coesão?
Fico satisfeito em saber que o resultado final parece-lhe coeso, harmonioso.
No caso específico do Sistema de Erros, as gravuras foram feitas
depois dos poemas. O livro já existia quando convidei o Fernando para
ilustrá-lo. Não gostaria de generalizar, mas acho que o segredo
para se alcançar um bom resultado é fazer com que as imagens dialoguem
com os poemas sem a eles se subordinarem. Isto é, elas devem funcionar
autonomamente e não apenas como "legendas", apoio para
o texto. No caso do Fernando, o cunho abstrato da maioria das ilustrações
parece facilitar esse tipo de diálogo sem prejuízo da autonomia.
O curioso é que, ao menos para mim, mesmo os desenhos mais abstratos
parecem figurar, ainda que parcialmente, algum elemento do poema.
Em alguns poemas você trabalha com fábulas. Todo poeta tem
um lado lúdico? A poesia é uma brincadeira de gente grande?
Sim, o lado lúdico, a inocência diante das coisas, a adesão
à realidade sensível que é própria da criança,
tudo isso comparece no trabalho poético. Não foi Baudelaire quem
disse que a poesia é a "infância reencontrada"? Concordo
totalmente, a poesia é o natal da linguagem; linguagem em estado nascente.
Uma província na qual a distância entre homem, idéia, palavra
e coisa parece abolida (ou ao menos encurtada), onde, mais que representar,
o poeta, demiurgicamente, presentifica o mundo pelo verbo.
Mas, é preciso lembrar, trata-se de uma infância "reencontrada",
isto é, de uma infância que não descarta a capacidade adulta
de converter o espanto em palavras. Ou, como você mesmo disse, de uma
brincadeira séria, de gente grande. Se não fosse assim, poderíamos
equiparar o ignorante preguiçoso, que dorme a salvo das agulhadas do
espírito, ao sábio que, após longas pesquisas, afirma só
saber que nada sabe. Dito de outra forma: "um artista leva muito tempo
para se tornar jovem" (Picasso).
Agora, ainda com relação à sua pergunta, não gostaria
de restringir aos temas extraídos de fábulas e histórias
infantis a presença desse elemento lúdico em minha poesia. A infância,
penso eu, infiltra-se ali de muitas formas, sob outros disfarces.
"O carimbo da noite" é o retrato de um pesadelo ou "segredos
/ nas dobras / do travesseiro" são indícios de uma noite
fecundantemente amorosa?
Não sei não, mas acho que o poema deixa isso em aberto: imaginar
a matéria dos segredos ocultos nas dobras do travesseiro é tarefa
do leitor e, de certa maneira, a multiplicidade de significados que o poema
comporta é, ou deveria ser, uma de suas riquezas. É um poema bastante
simples. Nele, o que me interessou mais de perto foi imaginar que o sono, esse
refúgio psíquíco fundamental que ergue uma barragem entre
a véspera e o dia vindouro, que nos esvazia a cada noite e nos absolve
para a manhã seguinte, deixa vestígios físicos, rastros,
marcas como as de que um carimbo é capaz. O impalpável (a noite,
o sono) desenhando hieróglifos na alvura do leito. Olhar para a cama
desarrumada e imaginar que há uma mensagem na desordem dos lençóis,
eis o que eu pretendia com o poema, mais do que fixar o conteúdo dessa
mensagem de modo positivo ou negativo.
Há uma vertente da poesia atual que é a da "revelação".
O poeta se contém no início e vai soltando aos poucos a sua teoria,
conteúdo; depois, à moda do soneto, prepara um final que explique
ou ponha um ponto (final, de interrogação, de exclamação).
Você concorda com esta simplificação ou o poeta está
sujeito às musas e ordenações superiores? Inspiração
transpirada ou transpiração inspirada?
Não sei se entendi direito a pergunta, mas, ao que parece, você
pede para eu me situar em relação às teorias da composição
disponíveis para o poeta de hoje e geralmente situadas entre os extremos
da inspiração e do trabalho. O poeta é um medium
entregue passivamente à voz da musa (ou do inconsciente, numa outra chave
teórica), ou um ourives que "trabalha, e teima, e lima, e sofre,
e sua", se possível, "longe do estéril turbilhão
da rua"?
Não sei se saberia dizer algo de novo a esse respeito. Sinto-me mais
inclinado a recordar algo do muito que já se escreveu sobre essa falsa
antinomia. A mentalidade romântica investe na espontaneidade do gênio,
na facilidade com que ele se rende ao "êxtase divino", ao
furor poeticus. Contra ela, a idéia de que a obra nasce de uma árdua
paciência, feita de tentativas e erros, sacrifícios e cálculos
para a perfeição da forma. É claro que esses modi operandi
antagônicos, ainda que ligados à psicologia pessoal de cada autor,
prendem-se também a valores ideológicos, padrões de gosto,
modelos de desempenho formal dominantes em cada época. De qualquer maneira,
há quem relativize tal antinomia. Por exemplo, para Luigi Pareyson -
filósofo italiano que propõe uma estética da formatividade
no lugar de estéticas da expressão - "a inspiração
nunca é tão determinante que reduza a atividade do artista a mera
obediência, e o trabalho nunca é tão custoso que suprima
toda a espontaneidade; e o que caracteriza o trabalho artístico é
a adequação entre espera e descoberta, entre tentativa e êxito,
quer esta adequação seja lenta e difícil, quer fácil
e imediata".
Sumamente esclarecedor é também o ensaio de João Cabral
de Melo Neto intitulado "Poesia e composição - a inspiração
e o trabalho de arte". Para ele, a polaridade inspiração
X trabalho só se reveste de sentido nos períodos históricos
em que não há mais um padrão de julgamento coletivo, um
conceito de literatura determinado pela necessidade dos homens para quem se
escreve. Quando a expressão passa a ser mais importante que a comunicação,
os poetas se aferram a mitologias privadas e a crítica passa a ser uma
atividade incompreensiva. Em contrapartida, adverte-nos Cabral, nas épocas
em que ainda havia algum entendimento entre o poeta e seus leitores, "inspiração
e trabalho não se opunham essencialmente." A espontaneidade, a facilidade
com que o poeta inspirado nos lega a palavra divina, sinaliza, nesses períodos
de equilíbrio, "uma enorme identificação com a realidade"
na qual o que se valoriza "é o coletivo que se revela através
daquela voz individual". Da mesma forma, o trabalho "deixa de ser
essa atividade limitada de aplicar a regra, posterior ao sopro do instinto e
jamais se converte num exercício formal, de atletismo intelectual. (...)
A regra não é a obediência, que nada justifica, a maneiras
de fazer defuntas, pelo gosto do anacronismo, ou a maneiras de fazer arbitrárias,
pelo gosto do malabarismo. A regra então é profundamente funcional
e visa assegurar a existência de condições sem as quais
o poema não poderia cumprir sua utilidade. (...) o verdadeiro sentido
da regra não é o de cilício para o poeta. O verdadeiro
sentido da regra está em que nela se encorpa a necessidade da época."
Peço-lhe desculpas pela citação extensa, mas não
resisti à tentação de reproduzi-la por considerar as idéias
ali presentes, ainda hoje, decorrido quase meio século sobre tal conferência,
extremamente esclarecedoras. É claro que muita coisa mudou, a começar
pelo maior prestígio que os poetas "inspirados" detinham em
comparação ao alcançado pelos poetas "artífices",
segundo o testemunho cabralino. Hoje a situação parece ter se
invertido, até mesmo pela influência do próprio Cabral.
Não obstante, a idéia de que a antinomia inspiração-trabalho
só tem ressonância devido a uma perda do lugar social do poeta
continua valendo.
Para concluir, quero voltar à sua pergunta. Você chama de "revelação"
algo que está ligado a um certo jeito de fazer poesia no qual o poeta
expõe uma "teoria", encaminhando o poema/teorema em direção
a um final que o "explique". Algo semelhante à estrutura silogística
que, segundo alguns, a forma soneto deve adotar. Em seguida, você opõe
esta vertente da "revelação" ao doce jugo das musas
e das "ordenações superiores". Pois bem, eu faria três
pequenos reparos a tal formulação. Primeiro, a palavra "revelação"
possui forte teor religioso e está mais próxima da concepção
da poesia como dom divino que como argumentação racional. Segundo,
a idéia da poesia como trabalho/construção não se
liga necessariamente àquele modo silogístico destacado por você
como uma das vertentes da poesia atual. Last not least, o poeta, cá entre
nós, não "explica" coisa alguma; mesmo quando parece
submeter cartesianamente seus "objetos" aos rigores do método.
Segundo a Heloisa Buarque de Hollanda, o poeta de hoje é um erudito.
Ele fala várias línguas, traduz, faz ensaios, críticas,
resenhas, estuda... O poeta precisa ser um super-homem?
E quem disse que erudição converte alguém em super-homem?
Há os que defendem a tese contrária, a saber, que erudição
é sinal de debilidade, "coisa de boiola", kriptonita a minar
os poderes do gênio. Brincadeiras à parte, há mesmo hoje
em dia uma expectativa no que se refere ao desdobramento do poeta na área
do ensaio e da tradução. Grande parte dos nomes que compõem
o cânone moderno acumularam as funções de poeta e de crítico
(e/ou de tradutor) só que numa perspectiva pragmática,
isto é, buscando na obra alheia elementos para a construção
do seu próprio fazer poético. Não se trata, portanto, de
críticos preocupados com a isenção e a objetividade de
seus juízos, mas interessados na lenha oferecida pela reflexão
à obra por fazer. Buscam amiúde, na comparação com
autores contemporâneos e no resgate da tradição (composição
do paideuma pessoal), segurança e legitimidade para as próprias
escolhas.
De outro lado, noto também uma deserção dos críticos
propriamente ditos em face da crítica chamada "militante".
Na universidade, os jovens doutorandos preferem escrever a quadragésima
oitava dissertação sobre Mário de Andrade a se arriscar
sobre um poeta contemporâneo. Nada contra Mário de Andrade, figura
proteica que merece dinastias de intérpretes para dar conta dos tesouros
que nos legou. Mas chama a atenção o fato de que, nas gerações
de críticos que foram alunos de Antonio Candido, Roberto Schwarz, Alfredo
Bosi, Davi Arrigucci Jr...., haja tão poucos que escrevam sobre a literatura
corrente; ao contrário daqueles mestres. Assim, os que estariam, em tese,
melhor preparados para avaliar a produção contemporânea,
abandonaram as páginas dos cadernos de cultura e se refugiaram na turris
eburnea da academia para estudar somente os autores canônicos. Sobram
então os "jornalistas culturais" (em sua maioria submetidos
às exigências do mercado) e os poetas-críticos a quem faltaria,
como já disse, a devida isenção para avaliar a obra de
seus pares.
Tudo isso para entender um pouco a expectativa, pesada segundo você, de
que o poeta, além de escrever seus poemas, trabalho já bastante
oneroso, desempenhe-se bem nas funções de crítico e de
tradutor. Agora, mesmo que não escreva ensaios ou traduza autores estrangeiros,
imagino que todo poeta deve constituir padrões judicativos sólidos
em relação ao que escreve, o que só é possível
pela introjeção de modelos, pelo diálogo com a tradição
que, longe de oprimi-lo, o estimulará. Ninguém pode realizar uma
obra verdadeiramente "original" (olha aí o jargão romântico
novamente) sozinho, contando apenas com o que lhe vai na cachola.
Qual a importância de Mário de Andrade para a sua poesia?
A presença de dois poemas homenagem a Mário de Andrade em meu
livros Sistema de Erros testemunha de fato uma admiração veemente,
irrestrita, incontida não só pelo escritor (em suas diversas facetas),
mas também por sua figura pública. No âmbito exclusivamente
literário, reconheço a supremacia do ficcionista sobre o poeta
(irregular, aquém da perfeição alcançada por um
Bandeira ou por um Drummond), mas não há como recusar a beleza
de certos momentos do Remate de Males, da Lira Paulistana...,
a jóia que são os "Poemas da Amiga" ou o "Rito
do Irmão Pequeno". Acho também que o próprio Mário
de Andrade tinha bastante consciência das "imperfeições"
em sua obra poética. São inúmeros os momentos de sua correspondência
em que ele admite ter "escrito feio" para dar coragem aos outros.
Aliás, vejo de maneira muito nítida, em tudo quanto o Mário
fez, uma divisão enorme entre o desejo de "artisticidade" e
a disposição para o sacrifício dessa "artisticidade"
em nome da solidariedade, da descoberta de um Brasil a que a literatura voltava
as costas. É ele mesmo quem o garante: "Toda minha obra é
transitória e caduca, eu sei. E eu quero que ela seja transitória.
(...) A minha vaidade hoje é de ser transitório. Estraçalho
a minha obra. Escrevo língua imbecil, penso ingênuo, só
pra chamar a atenção dos mais fortes do que eu pra este monstro
mole e indeciso ainda que é o Brasil" (carta a Drummond, 10/nov/1924).
E ainda: "(...) não sou mais artista. Isto parece blague como outra
qualquer, mas não é. Continuo a embelezar minhas obras, torná-las
agradáveis para interessar, atrair, convencer. Mas lhes falta
aquela qualidade artística primeira que uma infinidade de estetas e,
entre os últimos recentes, Croce, de maneira berrante estabeleceram:
ausência de interesse prático, criação livre e pura
do espírito. Minha arte, se assim você quiser, tem uma função
prática, é originada, inspirada dum interesse vital e pra ele
se dirige" (carta a Drummond, 18/fev/1925). É claro que a situação
deve ser enquadrada historicamente: o preceito estético da arte como
um fim em si passou por inúmeras revisões; a reputação/autoridade
de um Benedetto Croce já não é a mesma... Mas continuo
achando relevante tal discussão como antídoto contra um certo
beletrismo que, de tempos em tempos, volta a seduzir nossos poetas.
Bem, mas tudo isso se refere mais a uma influência um tanto difusa do
Mário de Andrade sobre o meu modo de pensar. Influências mais diretas
sobre a poesia, não saberia identificar. Só para terminar, ainda
com relação ao "escrever feio" de Mário de Andrade,
lembro de uma coisa que o prof. Alfredo Bosi me disse certa feita. Ele comentava
as aproximações que certos críticos tentam fazer entre
a obra de Mário de Andrade e a de Guimarães Rosa. O interesse
de ambos pela cultura popular, sobretudo no que se refere ao seu potencial mitopoiético,
permitiria colocar o mago cordisburguense ao lado do genial criador de Macunaíma.
"Mas em Guimarães há uma entrega religiosa ao belo, ao passo
que Mário é muitas vezes de um mau gosto agressivo", dizia-me
o prof. Bosi. Parece que o próprio Guimarães era sensível
a isso. Em uma carta, se não me engano, a uma tradutora de sua obra,
dele Guimarães, para o inglês, ele comenta: "(...) isso de
o Mário escrever milhor ao invés de melhor, para aproximar
a escrita do jeito de falar, não tem o menor sentido. Milhor,
quando muito, lembra milho". Mas essa é uma discussão que
vai longe. Fiquemos por aqui.
Faltam movimentos literários ou é melhor ser mosqueteiro:
"cada um por si e Zeus por todos"?
Não sei se podemos pensar nesse assunto em termos do que é melhor
(ou "milhor", como queria o Mário). Formulada dessa maneira,
a existência ou não de movimentos parece ser uma questão
de escolha pessoal ou preferência, ao invés de algo determinado
historicamente. O movimento modernista, por exemplo, tem por detrás de
si, transformações tecnológicas (o automóvel, o
cinema...), as vanguardas européias do início do século,
a I Guerra Mundial etc. Hoje não há movimentos organizados, grupos
fiéis a determinada plataforma estética. Todos insistem na pluralidade
de tendências, na aposta em projetos individuais. À polarização
que marcou as duas últimas décadas (concretos X marginais), se
seguiu um momento de distensão aparentemente mais propício ao
diálogo. Não há, pelo menos de modo ostensivo, dogmas estéticos
ou excomunhões exemplares. É claro que há alguns poetas
tributários da lição concretista, dedicados a um trabalho
em que a visualidade desempenha papel importante (como Arnaldo Antunes, Lenora
de Barros e João Bandeira), mas que não chegam a formar um grupo.
De modo geral, a diversidade impera; fica muito difícil mapear tendências.
Aliás, a mera classificação também não seria
de grande valia. Classificar nem sempre significa compreender. Ainda mais quando
os critérios classificatórios são exteriores ao fenômeno
em apreço. Veja, por exemplo, a antologia recente organizada pela Heloisa
Buarque de Holanda (Esses poetas - Uma antologia dos anos 90, RJ: Aeroplano,
1998). Os critérios adotados para compor um panorama representativo da
poesia contemporânea foram ideológicos, talvez por importação
direta da moda norte-americana dos "estudos culturais" (a meu ver,
mais ideológicos que culturais). Selecionar representantes da poesia
gay, da poesia negra, poesia judaica..., eis o que se pretendeu, a julgar
pelas declarações dadas à imprensa. Desde quando Nelson
Ascher e Moacir Amâncio podem ser reunidos como representantes de uma
poesia supostamente "judaica"? O que há de judaico no trabalho
deles? Também eu, então, sendo judeu, teria meu trabalho vinculado
à tal chancela? Se for assim, na falta de um esquema compreensivo mais
amplo, vamos sair criando categorias e subcategorias que nada explicam efetivamente.
Por outro lado, acho também que é preciso desconfiar do clima
cordial que, segundo alguns, distingue o debate poético contemporâneo.
Haverá mesmo um debate? Os poetas estão acompanhando o trabalho
uns dos outros e refletindo a partir daí? Tenho minhas dúvidas.
Um amigo meu, o historiador e poeta Sérgio Alcides, diz que os poetas
de hoje comportam-se como se vivessem na República Velha. Há algumas
oligarquias que negociam entre si a alternância nos postos de poder. Alguns
poucos telefonemas decidem quem irá aparecer na primeira página
dos cadernos de cultura ou em determinado programa de entrevistas na TV. Todo
mundo se cumprimenta, mas ninguém diz de verdade o que pensa sobre o
trabalho alheio. Não que tal situação seja criada de modo
consciente, deliberado, pois se trata de um sistema que ultrapassa as vontades
individuais. Acho também que tudo isso se agrava com a deserção
dos críticos a que aludi logo atrás.
Apesar disso, penso que há uma dilatação real do espaço
destinado à poesia (revistas, editoras, eventos) e que existe uma produção
média de boa qualidade. Isso talvez gere bons frutos a longo prazo. Devemos
lutar para manter esses espaços abertos sem tomar ingenuamente tal abertura
como sinal inequívoco de excelência da poesia contemporânea.
Como editor você deve ter uma noção, pelo menos singular,
da poesia feita no Brasil. Há vertentes literárias claras? Estas
vertentes correspondem ao que o público quer ou não há
público para a poesia no mundo?
Julgo que a resposta à pergunta anterior serve também para esta
questão, pelo menos no que se refere à identificação
de vertentes na poesia contemporânea. Quanto à correspondência
à expectativa do público, vale o que o João Cabral afirmou
no texto que citei, ou seja, a partir da virada romântica a necessidade
dos leitores passa a contar pouco na criação poética, a
expressão importando mais do que a comunicação... Pós-modernismos
de lado, acho que tal postura romântica continua vigorando.
A "apropriação" de outras formas de arte como o
cinema, artes plásticas, música... enriquece a sua poesia ou,
como dizem uns, é a forma de "não enfrentar as dificuldades
com o texto a ser erigido"?
Não sei exatamente a que tipo de apropriação você
se refere. Apropriação de procedimentos? Por exemplo, encadeamentos
sintáticos que imitem a montagem cinematográfica ou a estrutura
de um videoclip? Ou simplesmente um diálogo com temas tomados
de empréstimo às outras artes; poemas sobre escultores, pintores,
músicos? Ou ainda poemas intersemióticos que inovam com relação
ao "suporte" utilizado? Da mesma forma, não entendo direito
o que você está chamando de fuga às dificuldades do próprio
texto. Dificuldades de que ordem? Às vezes, o recurso às outras
artes, longe de funcionar como um tipo de fuga, traz soluções
para problemas pré-existentes e cria novos problemas. Mário de
Andrade, por exemplo, no "Prefácio Interessantíssimo",
vai buscar na música a justificativa para um "novo" tipo de
sintaxe, contrapondo o verso harmônico ao verso melódico,
dominante até então, segundo ele.
Nada tenho contra nenhum tipo de apropriação extraliterária
em princípio. Quanto à minha poesia, penso que dialogo com outras
artes apenas na esfera temática. Em meu livro Sistema de Erros
lembro-me, à guisa de exemplo, do poema sobre o "Tiradentes"
de Portinari.
Os poemas "Lição" e "Sistema de Erros" são
odes à liberdade... Quando o aluno liberta-se dos grilhões que foram
(são) seus mestres? Fale sobre suas influências literárias.
LIÇÃO
rui
o que me instrui
à revelia
dos riscos
fere
o que me afere
cobrando o censo
do imenso
mina
o que me ensina
o veio oblíquo
da idéia
basta
o que me arrasta
à rua estreita
do acerto
punge
o que me pune
o ouvido gasto
de aluno
Todo poeta que queira desenvolver um trabalho sério, consistente,
passa por um longo período de aprendizado durante o qual se embebeda,
pela leitura, da obra de outros escritores os quais, não raro, procura
imitar, atento a detalhes de contrução, léxico e ritmo
daqueles interlocutores que elege como seus. Isso o leva a constituir um censor
interno que o ajudará a trabalhar. A dimensão do que seja a
palavra (o ritmo, a forma...) correta em cada caso ser-lhe-á
dada por tal censor. Sem embargo, como nos ensina o poeta e ensaísta
W. H. Auden, a palavra correta "ainda não é a verdadeira,
pois o aprendiz está agindo como um ventríloquo, mas já
se distancia da poesia comum; está aprendendo a escrever um poema autêntico."
Acho que a lição do mestre torna-se agrilhoante quando o aluno
não logra fazer esta passagem do correto ao verdadeiro. Mas se engana
quem pensa que tal passagem ocorre uma única vez e de modo irreversível.
Mesmo quando o poeta conquistou uma "dicção própria",
o diálogo com os mestres a até mesmo os exercícios de
imitação continuam sendo-lhe úteis, pois o defendem dos
riscos da "auto-imitação". Ou seja, dos riscos da
repetição, do apego aos macetes, às soluções
que já deram certo uma vez.
É importante que também diga: entre os "mestres" com
quem se dialoga não figuram apenas gigantes da estatura de Homero.
Às vezes, o convívio intenso com um autor considerado "menor"
pode indicar caminhos de grande proveito...
Do mesmo modo, é preciso considerar as influências não-literárias
na composição de uma obra. É claro que as pessoas se
sentem mais à vontade para declarar as influências literárias,
para admitir o quanto devem a credores ilustres como Camões, Pessoa,
Drummond, Bandeira... Contudo, a "influência" (palavra já
meio desgastada, sobretudo por culpa de um certo sr. Bloom) vem de toda parte:
o sapato apertado, certas paisagens, as sacanagens de um primo durante as
férias, variações climáticas..., tudo entra, com
maior ou menor consciência, no cadinho do poeta. Ademais, declarar-se
simplesmente como herdeiro de determinado autor não significa muita
coisa. Herdeiro de que forma? De que parte do espólio? Tenho uma grande
amiga, a poeta Chantal Castelli, que me confessou outro dia: "Ai, que
raiva me dá ver a horda de poetas medíocres que se autoproclamam
herdeiros do Drummond. Todo mundo agora quer ser herdeiro do Drummond. O cara
passa a vida toda camelando para fazer uma obra estupenda e, depois que morre,
enche de gente querendo morcegar o que ele construiu. Não tem o menor
cabimento". Faço minhas as palavras dela.
Se bem que, depois de tudo isso, fico sem saber como prosseguir na resposta.
Mas, vamos lá. Você quer saber dos autores que exerceram influência
sobre mim. Feitas todas as ressalvas anteriores, li um bocado de Drummond,
Bandeira, Cabral, Murilo Mendes um pouco menos, Jorge de Lima demais, Cecília
Meireles. Mais perto de nós, gosto imensamente de Gullar, Orides Fontela,
Roberto Piva, Hilda Hilst... Isso para não falar dos portugueses: os
trovadores, Camões, Sá de Miranda, Bocage, Antero de Quental,
Cesário Verde, Antônio Nobre, Pessoa... E também Herberto
Helder, Eugênio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário
Cesariny... Vixe! É gente que não acaba mais. Isso para ficar
apenas no âmbito luso-brasileiro. Vou parando por aqui, não tenho
jeito para listas. Que os leitores mais dispostos se entreguem à tarefa
ingrata de rastrear minhas influências.
Você escreve sobre mitos gregos. Eles são realmente eternos.
A mitologia é ainda um objeto de "extração" intelectual?
Não tenho certeza, mas talvez sim. A mitologia grega já não
faz parte do universo de referências de grande parte das pessoas devido
à impossibilidade de formação cultural nos moldes humanistas.
Apesar do acesso facilitado a uma grande quantidade de informações
(internet e o escambau), ou fragmentos de informação, faltam
condições para sedimentar esta massa de informações
de um modo consistente: o excesso e aceleração, a substituição
da paidéia pela performance, a flexibilização
dos currículos, acabam tendo uma ação dissolvente sobre
a cultura. É claro que existem descrições mais otimistas
do que a minha para tal conjunto de fenômenos que alguns agruparam sob
o conceito de pós-modernismo, mas a verdade é que autores como
Homero, Hesíodo, Ovídio, Horácio etc, são freqüentados
por um círculo de leitores cada vez mais restrito. Donde a impressão
de intelectualismo e a perda de ressonância afetiva no que se refere aos
mitos gregos.
O que é o Cálamo?
O Cálamo é um núcleo de criação, pesquisa
e difusão de poesia, surgido no início dos anos 90 a partir de
oficinas literárias promovidas pela Secretaria do Estado da Cultura de
São Paulo e com sede, até o ano passado, na Casa Mário
de Andrade (atualmente reunimo-nos na biblioteca municipal "Viriato Corrêa").
É um grupo composto por pessoas de diferentes formações
profissionais (engenheiros, médicos, jornalistas, psicólogos,
advogados, professores de literatura, historiadores...) unidos pelo desejo comum
de discutir e produzir literatura. Ao longo desta década, tal núcleo
produziu alguns livros e uma série recitais de poesia. Nos recitais,
geralmente contamos com a ajuda de músicos e, eventualmente, de atores.
Apresentamo-nos em teatros, faculdades, bares, divulgando a obra de autores
como Jorge de Lima, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Tomás Antônio
Gonzaga, Herberto Helder e muitos outros; além da produção
do próprio grupo. Quanto aos livros, publicamos as seguintes antologias
poéticas: Lição de Asa (SP: Iluminuras, 1993); Vila
Lira Rica (SP: edição dos autores, 1995) e Desnorte. Leituras
poéticas em torno à obra de João Guimarães Rosa
(SP: Nankin, 1997). Afora tais antologias e projetos coletivos, alguns integrantes
do núcleo têm publicado individualmente seus livros e veiculado
seus poemas em revistas. É o caso, por exemplo, de Ruy Proença,
que acaba de lançar seu terceiro livro, Como um dia come o outro,
pela Nankin, e que teve poemas publicados em revistas como a Poesia Sempre,
a Cult, a Inimigo Rumor..., além de participar da Anthologie da la
poésie brésilienne, publicada pela editora francesa Chandeigne
no ano passado.
Trata-se de um espaço aberto para a discussão de poesia e não
de um movimento com plataformas estéticas redentoras; espaço no
qual convivem metabolismos poéticos os mais diversos.
Você ministra oficinas literárias. A poesia se aprende na escola?
Sim e não. Volto ao que já disse: porque o poeta é um
inventor de formas e não de fórmulas, porque não há
leis gerais em poesia (embora cada poema encerre uma lei de formação,
que vale apenas para ele), não se pode aprender poesia na escola da mesma
forma que se aprende a solucionar equações matemáticas,
ou da mesma forma que um marceneiro aprende a fazer uma cadeira. Por outro lado,
há uma série de coisas que podem municiar o poeta para enfrentar
os desafios da página em branco: noções de versificação,
estudos filológicos, exercícios de interpretação
literária, diálogo com outros poetas... São essas coisas
que, em tese, uma oficina pode oferecer. O trabalho do poeta não é
diferente daquele do músico, que deve se exercitar determinado número
de horas por dia reproduzindo escalas, ou do ator, que deve estar com a voz
e os músculos preparados para as exigências da cena. Se o poeta
vai ser capaz de percorrer a distância que vai do exercício ao
poema acabado, isso é uma outra história. Uma história
que, em certa medida, independe do arbítrio pessoal do poeta. Mas que
ele deve se "preparar" para esse "nascimento" incerto do
poema, quanto a isso, não há dúvida. Ninguém se
espanta com o fato de um atleta se exercitar continuamente para uma competição.
Mas o poeta - que também pode ser considerado um atleta da linguagem,
como o ator é, segundo Artaud, um "atleta dos afetos" - talvez
porque lida com algo que está ao alcance de todos, as palavras, pode
parecer, aos olhos de alguns, dispensado de um tal "treinamento".
Daí que muitos imaginem que a mera alfabetização é
condição suficiente para alguém se arriscar no trapézio
da lira e se julgar poeta. Em contrapartida, ninguém vai se julgar músico
se não souber solfejo.
Tudo isso para dizer que as oficinas de criação literária
oferecem oportunidades para o poeta se exercitar e trocar idéias com
outros poetas; o que também pode ocorrer espontaneamente e de muitas
outras formas. Só isso. Quem espera diplomas ou qualquer outra forma
de garantia institucional, com certeza, vai quebrar a cara.
Algum mote faz parte de sua vida?
Prefiro dar glosa a alheios motes.
Qual o papel do escritor na sociedade?
É muito difícil responder a essa pergunta em poucas palavras.
Insisto novamente quanto à perda da função social do poeta
na modernidade, asssunto a que já me referi. Como nos explica Octavio
Paz, a poesia moderna "se ha convertido en el alimento de los disidentes
e desterrados del mundo burgués. A una sociedade escindida corresponde
una poesía en rebelión." Sem embargo, mesmo ocupando uma
posição marginal na sociedade, a linguagem sobre a qual o poeta
opera é social, são as palavras "da tribo" que recebem
dele um sentido mais puro; para lembrar a máxima mallarmaica. Assim,
seu papel segue sendo o de refontalizar, revirginar a linguagem purgando-a dos
automatismos e opacidades a que a condenou o uso ordinário, pedestre.
Arejar a linguagem como as minhocas arejam a terra, eis a missão do poeta,
segundo o colecionador de inutensílios, Manoel de Barros. Agora, descrever
de que forma isso ocorre em cada caso, isso é matéria para outras
e mais longas conversas. Vou ficando, então, por aqui.
(2002)
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