Entrevista com:
- Fabiano Calixto -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
O futuro da poesia é o futuro mesmo da humanidade.
FABIANO CALIXTO - Nasceu em Garanhuns/ PE, em 08 de junho de 1973 e mora em
Santo André/SP. Poeta, tradutor e ensaísta. Publicou "Algum"
(edição do autor, 1998), "Fábrica" (Alpharrabio
Edições, 2000) e, com Kleber Mantovani e Tarso de Melo, "Um
mundo só para cada par" (Alpharrabio Edições, 2001).
Assinou durante dois anos a coluna literária Umapalavra no jornal andreense
Tribuna Popular. Traduziu, em parceria com Claudio Daniel, os poemas do dominicano
León Félix Batista, reunidos no volume "Prosa do que está
na esfera" a sair ainda este ano. Tem trabalhos publicados em vários
jornais e revistas especializadas, entre elas: Monturo (Santo André/
SP), A Cigarra (Santo André/ SP), Cult (São Paulo/ SP), Inimigo
Rumor (Rio de Janeiro/ RJ), Dimensão (Uberaba/ MG), Suplemento Literário
de Minas Gerais (Belo Horizonte/ MG), Serta (Madrid, Espanha) etc. Participou
da antologia "Na Virada do Século - Poesia de Invenção
no Brasil" (Landy, 2002), organizada por Claudio Daniel e Frederico Barbosa.
Prepara sua próxima coletânea de poemas intitulada "Ônix",
um poemário de Bob Dylan e uma revista de artes.
De onde vem a sua obsessão por máquinas e fábricas?
A única máquina que tenho obsessão é aquela de
comover, a máquina de Le Corbusier lida em João Cabral de Melo
Neto. Quanto à fábrica, ela esteve presente em minha vida durante
algum tempo: o tempo da busca pela sobrevivência neste canibalismo civilizado.
Minha poesia tem muito do que vivo (não acredito que possa ser diferente)
e estas engrenagens vitais apareceram em alguns poemas do meu livro "Fábrica".
Só isso.
O futuro da poesia é a metalinguagem?
Não. O futuro da poesia é o futuro mesmo da humanidade. Da
arte. Acho que a metalinguagem serve ao poeta como um espelho de suas encucações
a respeito da arte de criar e, a partir dela (da metalinguagem), estabelecer
algum tipo de diálogo mais intenso com o leitor de sua obra e, por
conseguinte, abrir alguns pontos de discussão sobre o fazer poético.
Você dedica o poema "Conversa" a Chico Buarque. Letra de
música é poesia?
Essa discussão, já antiga, intriga a alguns dos nossos melhores
críticos e poetas. É muito difícil dizer se uma letra
de música suporta a ausência de estruturas melódicas,
ou seja, se ela tem vida no papel, no livro. Particularmente, acho que algumas
letras são, sim, poemas. Chico Buarque, por exemplo, tem vários
exemplos, a estrutura de algumas de suas letras é altamente poética,
lançando mão de vários artefatos de construção
lingüística. Temos ainda Caetano Veloso que tem letras/ poemas
literariamente ricos. No panorama internacional, chama-me a atenção
a obra de Bob Dylan, que é magistral. As letras/ poemas de John Lennon
também têm uma força incrível. Trago aqui um trecho
do excelente ensaio do professor norte-americano Charles A. Perrone, "Letras
e Letras da MPB", com o qual compactuo:
"Uma análise da obra completa dos compositores mais notáveis
iria, certamente, revelar algumas insuficiências do ponto de vista literário,
mas muitas letras de canção poderiam figurar, sem nenhum favor,
ao lado dos melhores textos poéticos contemporâneos."
Quando existir é uma etapa devorada pelo pó?
Quando pensarmos metaforicamente que o pó é uma coisa que não
existe mais enquanto matéria, ele é o já-foi, é
posterior à morte, esta experiência universal pela qual todos
os seres vivos e, simbolicamente, toda a matéria passará. Como
no Eclesiastes: "Todos vão para um só lugar, todos são
pó e todos ao pó retornarão.", o pó, no poema
em questão ("Areia" do livro "Fábrica")
é o já consumido, o já passado, o que já existiu
e enquanto matéria ultrapassou a noção de Descartes de
existir enquanto pensamento lógico. E na estrutura semântica
do meu poema, o pó pode ser lido como a Palavra, esta, o mirante no
qual meus olhos divagam sobre as sensações de estar aqui, neste
terceiro mundo, vivendo, como dizia Cazuza, "da caridade de quem me detesta",
no sufoco infindo destes tempos pobres.
Frederico Barbosa sempre diz que a obra de Drummond é vasta e podemos
ver quais as diretrizes de uma poética ao sabermos qual Drummond o poeta
coloca no pedestal. Qual o melhor Drummond?
O melhor Drummond para mim é o Drummond dos dez primeiros livros.
Mais especificamente, o Drummond que sempre me acompanha é o de poemas
como "Poema de sete faces", "A bruxa", "Resíduo",
"A flor e a náusea", "O enterrado vivo", "Cidadezinha
qualquer", "Quadrilha", "Ser", "A máquina
do mundo", "Sentimento do mundo", "Os ombros suportam
o mundo" etc., ou seja, um pouco do Drummond irônico e outra dose
do Drummond metafísico. Enfim, Drummond é para mim um mestre
e essas doses que digo são cavalares.
Em "Oxumaré entre os Iorubás" há uma intertextualidade
entre o tupi e a cultura negra. Concorda com a afirmação de Roberto
Piva, a de que os poetas devem ser menos broxas e mais bruxos?
Não. Não acredito que o poeta seja um bruxo (assim alguns podem
pensar e esvaziar sua tentativa de obra num caldeirão de olhos de escorpião
e antenas de barata na procura de uma mitologia pessoal e estéril),
acredito que o poeta é um ser que faz arte, um artista portanto, e
acredito na arte como concretização do pensamento crítico
do mundo e não como possível ritual esotérico. Por mais
engraçado que possa parecer o trocadilho de Piva, ele nada me diz.
Há certa eufonia em poemas como o seu "Hojeentreoitoeoitoetrintades".
Qual rigor deve ter o poeta para a eufonia não se resumir ao mero som
de uma palavra e atingir uma orquestração total: a polifônica?
O rigor deve ser o mesmo para qualquer tipo de experiência poética.
Procuro dar sentido a todas as minhas invenções, nunca a busca
da mera sonoridade, a não ser, é claro, que o objetivo do trabalho
seja esse, o da busca do som dos vocábulos para um sentido específico
ou para apenas sugeri-los. Lembro-me agora de um excepcional poema de Torquato
Neto que se chama "A matéria O material" que são 3
estudos de som, para ritmo, e tem realmente uma sonoridade que multiplica
o entendimento, regando suas palavras quebradas com um oceano de sentidos.
A poesia brasileira é cocô de cabrito como nos diz Alexei Bueno?
Isso é mais um tipo de afirmação juvenil de alguém
que, mamando nas tetas enormes do coleguismo otário, como é
o caso desse sujeito, não leu a boa poesia brasileira de hoje. O sonho
desse sujeito é ser o "príncipe dos poetas brasileiros",
nada mais kitsch, mais careta, mais reacionário. O que posso dizer
é que devemos deixá-lo (poeta chinfrim) brincar de sério
no seu pequenino mundo de pedantes.
A poesia serve para alguma coisa?
A poesia não deve ter um porquê. A poesia é a poesia
é a poesia. Ela vale por si. Um poema não deve ter serventia
a não ser para quem aprecie arte. Um bom poema tem o mesmo valor de
uma pintura ou de um filme ou de uma música, ou seja, a poesia de Dante
carrega tanta beleza quanto os quadros de Goya ou os filmes de Bergman ou
as músicas de Mozart.
Qual a influência angustiada tem para com João Cabral?
A dor-de-cabeça da linguagem, quando a criação artística
é um incessante trabalho do pensamento e a página em branco
o mais cruel e prazeroso desafio. João Cabral é o poeta que
mais gosto porque o que ele escreve tem aquilo que ele sente, que pensa, tem
vida, enfim. Há um equilíbrio fantástico em sua obra.
Obra sem arestas. Usando suas palavras, do texto "A inspiração
e o trabalho de arte", Cabral é o poeta que "elabora a poesia
em poema", para ele compor significa "as horas enormes de uma procura",
ou seja, um poeta que levou extremamente a sério aquilo que se chama
arte. Nisto e no resultado disto ele me toca.
Qual o papel da internet na divulgação de poesia?
A internet tem esse negócio bacana de ser um espaço aberto
e muitos bons poetas aproveitam essa mídia. Lógico que há
uma quantidade enorme de lixos, de besteira, mas cabe ao sujeito que ali navega
ter pensamento crítico sobre o que está lendo. Há alguns
sites ótimos, como por exemplo o Pop Box do Élson Fróes
ou a página pessoal do Frederico Barbosa, que são muito instigantes
e, ainda bem, visitados.
Como é estar na antologia "Na Virada do Século - Poesia
de Invenção no Brasil"?
Fico muito feliz por ter sido um dos escolhidos para participar da antologia.
É uma antologia muito bem feita, com uma quantidade boa de poetas -
inda mais se pensarmos que nosso país tem quase 200 milhões
de habitantes! "Na Virada do Século" é um ótimo
guia para quem quer conhecer o que de melhor se faz na poesia brasileira contemporânea.
Tem algum mote?
"fazia tanta poesia
ainda vai ter poesia um dia"
Paulo Leminski
Qual o papel do escritor na sociedade?
O papel do escritor é escrever. Escrever escrever escrever. Escrever
tão intensamente que de suas palavras saia algum calor de sol que possa
aquecer as tão gélidas sensações pelas quais passam
esse ser humano triste que habita este planeta-pesadelo em que vivemos.
(2002)
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