Entrevista com:
- Esdras do Nascimento -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Neste fim de século, sob o rótulo da modernidade, a literatura
brasileira vive um momento confuso em que vale quase tudo: desde microtextos,
onde uma história é contada em menos de um parágrafo, até
relatos que se estendem indefinidamente, registrando ações em
seus mínimos detalhes, e deixando em segundo plano a fabulação
e o apuro formal.
Contrapondo-se a essa tendência, Esdras do Nascimento surpreende os leitores
e a crítica, ao publicar Lição da Noite, seu décimo
segundo romance, onde, com enganosa simplicidade, num texto altamente sofisticado
e imprevisível, persegue temas e formas com uma competência admirável,
desenvolve complexas tramas e apresenta personagens que se agitam, aflitos,
no vazio e na angústia típicos do nosso tempo.
Em Lição da Noite, ele trabalha com sete personagens - quatro
mulheres e três homens - alguns dos quais já haviam aparecido em
seus romances anteriores. A vida particular e social da classe média
carioca surge e se multiplica em sete universos, histórias paralelas
que se entrecruzam numa formidável partida de xadrez sem vencedores nem
vencidos. Cada grupo de sete capítulos aprofunda os conflitos íntimos
dos sete personagens, numa narrativa que transita habilmente da terceira para
a primeira pessoa, mostrando o que se passa no complexo ambiente em que vivem
e refletindo as suas inquietações, sobressaindo-se a oralidade
através do uso continuado de diálogos extremamente bem feitos.
Os conflitos existenciais, de difícil diagnóstico, dos personagens,
quase todos de classe média alta, em busca de sucesso profissional, amor,
sexo e prestígio na grande cidade se evidenciam de maneira sutil. Amorim,
por exemplo, o professor universitário, não sabe o que fazer com
suas conquistas tão estranhamente fáceis, e com seu cotidiano
acadêmico e sem maiores vôos. Dos Anjos, embora continue atraente,
sofre porque não sabe conviver com a bela mulher que já não
é mais. Adélia se angustia com seus projetos de enriquecimento
no mercado imobiliário. E Zulminha borboleteia de festa em festa em busca
desesperada de carinho e compreensão.
É, portanto, em meio a dramas emblemáticos contemporâneos
que esse belo autor se movimenta, construindo, na sua obra, um grande painel
da nossa sociedade, e fazendo uma espécie de psicanálise às
avessas da trágica banalidade diária em que se transformou nossa
vida. Tudo isso sem amargura, sem obviedade, envolto apenas no talento que sua
notável e comprovada experiência de ficcionista lhe proporciona.
É só ler e conferir.
(Suzana Vargas)
Qual a temática do seu mais novo romance "Lição
da Noite"?
O tema de "Lição da noite" é o drama espiritual
de um jovem e bem sucedido professor universitário alucinado pelo teatro
grego, sobretudo por Eurípides. Ele é casado, pai de duas filhas,
gosta de dar aulas, vive cercado de mulheres atraentes, não tem grandes
problemas financeiros, mas de repente, inexplicavelmente, se sente caindo dentro
de um vazio insuportável. Abandona emprego e família, larga tudo,
parte em busca de sua essencialidade, que não sabe exatamente em que
consiste, e vai parar em Genipabu, uma praia exótica do Rio Grande do
Norte, onde não conhece ninguém e pretende descobrir um sentido
para a sua existência.
Quanto tempo dedicou a feitura do romance?
Passei quatro anos trabalhando em "Lição da noite".
Cerca de quatro horas por dia, de agosto de 1993 a setembro de 1997, na parte
da tarde, ouvindo música, de preferência Bach. Ele é a única
pessoa de quem confesso ter inveja. Ano após ano, como se fosse a primeira
vez, ouço as suas composições, que me surpreendem sempre,
e me estimulam como criador, pela perfeição formal e, sobretudo,
pela emoção que transmitem. Diante da grandiosidade de Bach, eu
me sinto o mais pobre e o mais humilde dos escritores que o Piauí já
viu nascer.
O que há de novo neste novo romance?
"Lição da noite" gira em torno da magia do número
7. Tem 7 personagens, 4 mulheres e 3 homens, e os capítulos se organizam
em grupos de 7, sendo também 7 os núcleos narrativos. A ação
se passa basicamente na Zona Sul do Rio de Janeiro. Homens e mulheres angustiados,
em busca de sucesso profissional, amor, sexo e prestígio no vazio da
grande cidade. Amorim, por exemplo, o professor universitário, não
sabe o que fazer com suas conquistas estranhamente fáceis, e com seu
cotidiano acadêmico e sem maiores vôos. Dos Anjos, embora continue
atraente, sofre porque não sabe conviver com a bela mulher que já
não é mais. Adélia se angustia com seus projetos de enriquecimento
no mercado imobiliário. E Zulminha borboleteia de festa em festa em busca
desesperada de carinho e compreensão. Há também um famoso
cantor de boleros, sem nenhuma consciência de sua própria mediocridade,
que deixa alucinadas as mulheres "que não têm vergonha de
chorar por causa das suas paixões irrealizadas".
Qual o objetivo do livro?
"Lição da noite" pretende ser um painel da nossa sociedade,
uma espécie de psicanálise às avessas da trágica
banalidade em que se transformou a nossa vida, tudo isso sem amargura e sem
obviedade. É o meu décimo segundo romance publicado. Liga-se aos
anteriores, faz parte de um conjunto ainda não concluído, um mural
feito de mosaicos, que se ajustam uns aos outros, numa tentativa de totalidade
ficcional, a exemplo do que fez Balzac, em "A comédia humana",
no século passado, e William Faulkner, na sua série de romances
passados no Sul dos Estados Unidos, no século XX.
Como está construindo o seu caminho, espaço na literatura?
Um crítico americano definiu certa vez os escritores em dois grupos:
"caras pálidas" (os que passaram pelas universidades) e "peles
vermelhas" (os que aprenderam no dia a dia tudo o que sabem). Sou meio
cara pálida e meio pele vermelha. Aprendi a céu aberto, caindo,
me levantando, lendo feito um desesperado, tomando porres homéricos por
causa das frustrações, enfrentando momentos de desânimo,
batalhando em diversas profissões pela sobrevivência, mas nunca
me afastando do projeto de fazer literatura, atividade que sempre deu sentido
e orientou a minha vida. E também passei pela universidade. Fiz curso
de Filosofia, mestrado em Comunicação e doutorado em Letras. Como
tese de doutorado, apresentei "Variante Gotemburgo" , um romance.
Foi um escândalo. Para mim, parecia natural um compositor apresentar um
sinfonia como tese de doutoramento em música, um artista plástico
apresentar uma tela, um diretor de cinema, um filme. Cada um na sua área.
Eu achava que isso seria o óbvio. Mas a academia pensava, e continua
pensando, de maneira diferente. Machado de Assis, por exemplo, teria dificuldade
em ser doutor em Letras, com base nos seus contos e romances. A universidade
daria preferência a um texto sobre os contos e romances de Machado de
Assis. Parece piada, mas é verdade.
Como é o seu processo criativo?
Quando começo a escrever um romance, eu não tenho nenhum plano
estabelecido. Vou botando no papel tudo aquilo que me vem à cabeça.
Depois de trezentas, quatrocentas páginas, paro, dou uma olhada e vejo
se ali dentro há ou não um romance. Se houver, eu reescrevo desde
a página inicial até a última. Se der certo, eu recomeço
tudo. Aí, sim, procurando descobrir a forma mais adequada à narrativa,
num processo que eu chamaria de construção. É nessa etapa
que surgem os grandes problemas de harmonia, composição e ritmo.
Resolvê-los é tarefa que me fascina. Tenho pavor de textos mal
estruturados, mal escritos, com palavras sobrando. Odeio adjetivos, gerúndios
e advérbios de modo. As palavras existem para dizer, e não para
enfeitar. Nisso, estou com Graciliano Ramos e não abro.
Eu sei que você gosta de jogar tênis e Xadrez. O que este esportes
acrescentam à sua vida?
Ah, sim, eu gosto de jogar tênis e xadrez. Se o tênis é
a minha terapia, o xadrez é a minha religião, o meu exercício
espiritual. O tênis e o xadrez me ajudam a compreender o mundo, me dão
consciência dos meus limites e possibilidades - e, sobretudo, me ensinam
que superar a mediocridade alheia é fácil, até demais;
o difícil é enfrentar a própria mediocridade, que se evidencia
quando a gente está diante da tela em branco do computador, pensando
na criação de grandes romances e constatando que, infelizmente,
os recursos disponíveis não são tão vastos assim.
(2002)
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