Entrevista com:
Eric Ponty |
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- Eric Ponty -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Eric Ponty nasce na histórica São João del-Rei (MG) no ano de 1968. Filho
de Aline Tirado Viegas (prof. De Ballet) e Vicente de Paulo Viegas (funcionário
público aposentado e tenor) e irmão de Everton Tirado Viegas (funcionário público
e músico diletante). Começa a escrever e a desenhar aos 9 anos de idade e desde
aí já não tinha muitos amigos e parou de desenhar sistematicamente aos 12.
Aos 14 após se ter trancado num silêncio e numa angústia inexplicável
já freqüentava terapia que fez por longos anos até abandonar definitivamente
pois a "angústia"os moços de Viena não conseguiram resolver com aquela
leréia chata para ganhar dinheiro. Nesta fase dedicava-se a ler críticas de
cinema em alguns jornais e além de ver muitas peças de teatro no "Teatro
Municipal" da cidade e aos dezesseis começa a ler sistematicamente dramaturgia.
Aos dezoito anos apresenta a primeira peça de teatro "Guernica" texto
inspirado no quadro do catalão Pablo Picasso, com influências dos textos de
Brecht e Gabriel Garcia Lorca, embora já tenha escrito "Decomposição friedrich"
entre outras.
Nesta época fica amigo por acaso na do intelectual carioca João da Penha
" que estava fazendo uma reportagem que é autor dos livros "O que
é existencialismo", "Princípios Filosóficos", "Wittgenstein"
a quem é um dos dedicados na dedicatória do livro entre outros títulos.
Aos 21 anos escreve "Dueto Abstrato" que apresenta no Teatro
da Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais com o seguinte texto critico
de João da Penha que peço licença de reproduzi-lo por considerar a mesma tão
fundamental quando a peça de teatro: " Rilke nos lembra que cada um de
nós traz sua própria morte. Por isto mesmo, ela é inconfundível. Como o ecoar
do poeta nas "Elegias de Duino", numa das vozes de Dueto Abstrato
lamenta a "Solidão de estar em decomposição". As duas vozes deste
amargo dueto, implacáveis, não nos deixa esquecer o caráter perecível das coisas.
A vida, triste constatação, é efêmera. Algum consolo? Nenhum, salvo para os
que insistem em acreditar em deuses e quejados (a maturidade aliás, não está
ao alcance de todos).Para os céticos e realistas, inútil é a ilusão de eternidade.
Uma quimera, nada mais. O destino é inflexível a morte (decomposição) nos espreita.
Algo perturbador ronda o ser: sua inapelável finitude. Segundo Someset Manghaus
o '" sofrimento não enobrece, apenas nos torna mais amargos." Presa
da contingência o homem sofre. A vida dessa triste figura é o mero percorrer
de uma trajetória rumo ao inexorável: O Nada." E quero deixar registrado
que só fui ler qualquer coisa de Rainer Maria Rilke ao 28 anos de idade.
Aos 23 anos de idade tornar-se ouvinte do Curso de Letras da Funrei onde
fica por um ano e meio até ser "dispensado" por não concordar com
certas mazelas e a forma superficial de como era dado o curso, talvez pela qualidade
dos alunos que queriam apenas um papel do que propriamente um embasamento. Nesta
época com uma profunda depressão começa a se dedicar ao estudo da filosofia
de Friedrich Nietzsche por um longo e solitário tortuoso ano embora a pratica
de poesia seja uma coisa recorrente.
Aos 26 anos no ápice mais grave de sua depressão escreve seu longo poema "Pompas
de Abril" (inédito) que definitivamente cria um território de existência
possível e onde "funde"sua voz poética.
Neste período conhece o poeta intelectual Ivo Barroso, pessoa que este
sentia enorme admiração por estar sempre lendo suas traduções e que lhe manda
"a famosa carta do Quintinho", uma deferência segundo o poeta"
e o conhece pessoalmente numa visita deste a histórica: Tiradentes. É nesta
carta que este começa a se fazer uma revisão critica de seu trabalho literário;
e na mesma época através deste, conhece o poeta intelectual Ivan Junqueira onde
este passa a ser corresponder através de "cartas criticas".
Em 1995 faz uma exposição de arte conceitual que aconteceu no Inverno
Cultural de 1995 que foi denominada de "26 Dispare do Olhar" sendo
uma realização plástica do artista plástico Johano e Eric Ponty e textos conceituais
de Eric , que foram expostas do dia 09 até 29 de julho de 1995 na RFFSA. Esta
exposição ocupou um enorme galpão e o peso dos 26 objetos passava de mais de
uma tonelada. O objetivo da exposição tinha como premissa de não ser algo comercial
o que iria se produzir e reproduzir poderiam só ser contemplado ali, pois havia
um sentido criado entre as peças. Esta premissa foi conseguida com sucesso,
pois nada se reproduziu comercialmente dali, ou seja, a exposição teve a finalidade
mesma. Todos 26 objetos dialogavam com a história das artes plásticas.
Aos 28 anos de idade funda "A Voz do Lenheiro" com seu livro "Homo-Imagens"
para um amigo local. Depois disso lançou por ela Livro Sobre Tudo" (Elogiado
pelo Poeta Ferreira Gullar), traduziu "O Cemitério Marinho" de Paul
Valéry, e "O Anjo de David" este de literatura infanto-juvenil e os
livros de ensaios "Breviário do Tempo" e "A Contemplação do belo
Adormecido" todos publicados pela A Voz do Lenheiro Editora que continua
funcionando até hoje, mas sem sua participação por sérias divergências estéticas.
Eric entra para a Academia de Letras de São João del-Rei aos 29 anos de idade
na cadeira de José Severiano de Resende de quem já havia lido "Mistérios"
e na bagagem peças de teatro, romance, contos,novelas e vários livros de poesia,
todos ainda inéditos.
Aos 30 anos de idade e só colaborando para Dimensão-Revista Internacional de
Poesia do intelectual e poeta Guido Bilharinho, por um acaso no Suplemento literário
de Minas Gerais encontra o endereço de Assis Brasil de quem havia terminado
de ler o "Ciclo do Terror" e muito mais interessado em se corresponder
com este do participar propriamente da "Antologia Mineira do Século XX"
manda alguns trabalhos e para sua surpresa é convidado para integrá-la.
Como a poesia surgiu na sua vida e qual o lugar que ocupa?
Bem primeiro precisa falar de quando eu comecei a escrever para que se possa
perceber minha trajetória enquanto consciência. Foi quando criança. Ficava
escrevendo pequenos contos. Depois os ilustrava com desenhos que eu fazia
arranjava um título na capa e guardava. Tenho uma pasta com tudo isto guardado.
Comecei mesmo foi aos 10 anos de idade. Se eu não estava escrevendo eu estava
desenhando capas para estes contos. Não li livros eu gostava de ler era revista
em quadrinhos. Li muitas mesmo.
Hoje eu não consigo pegar o ritmo de lê-las. Embora eu tentei há algum tempo
atrás recuperar este hábito da infância lendo histórias em quadrinhos de arte,
mas já era algo alheio a minha perspectiva. Tinha. De assistir televisão.
Acho que ficava vendo televisão horas direto pelo menos umas seis horas. Assistia
de tudo. Na época assistia também jornais coisa que sempre gostei de fazer
até hoje. Adoro o hábito de me informar. Uma coisa que eu fazia era assistir
cinema. Não tinha o menor critério seletivo sobre cinema. Na época quando
mais hollyoddiano melhor. Escutava também muita música sem quaisquer critérios
seletivos. E eu não tinha qualquer consciência desses afazeres, ou seja, e
não tinha ainda uma consciência de "estar fazendo". Eu sentia um
vazio tremendo. Uma consciência de haver algo que eu desconhecia. De existir
algo a mais que do aquele estado do qual eu estava inserido. Era como estar
entregue ao limbo. E o que aconteceu então é que eu fiquei nesta inércia intelectual
durante algum tempo ou melhor alguns anos talvez uns 3 anos nesta alienação
da minha consciência. Sempre tive uma inadaptação ao colégio. Como eu não
conseguia atingir certos resultados minha mãe à época procurou um terapeuta
que começou a pesquisar esta minha inércia existencial. Como eu sempre tive
esta mania pela informação deve ter sido fácil para ele captar esta minha
faceta do qual eu ignorava. Nós conversamos muito durante a terapia. Lembro-me
eu sempre sentia uma sensação de mal estar contínuo. Isto passou depois eu
descobri a literatura. Desta época lembro-me eu que eu li os Contos de Voltaire.
Alucinante. Sempre deste pequeno interessei-me sobre o tema "morte",
e depois vim descobrir que na verdade a "a consciência de existir"
que me interessava como um grande tema.No fundo será mesmo que a literatura
liberta à consciência? Se não a liberta pelo menos faz ela ser ela mesma.
Compreende? Por isto que eu não concordo de se fazer da literatura um palco
para a vaidade. Não há margem para que isto aconteça. Quem pensa fazer da
literatura um palco para sua ego-trip é um idiota. Um ignorante que se ignora
como ser. Um “Homem” que pode estar fazendo outras trezentas coisas que não
a literatura. É como o Ivan Junqueira falou comigo: “É gente de uma outra
família”. Ou seja, não interessa o que esta gente tem a dizer. Literatura
é um ato radical da consciência. Uma "marca de Caim" como o Ivo
Barroso gosta de me lembrar. Você nasce fadado! Sinto muito, mas esta é a
verdade. Você só escreve porque sente uma necessidade vital para faze-lo.
É como qualquer necessidade orgânica do corpo.
A poesia só aconteceu mesmo na minha vida aos 21 anos de idade depois que
eu terminei minha vigésima peça de teatro quando abandonei a dramaturgia como
uma verdade para mim. Minha primeira peça de teatro tratava da decomposição
da consciência. Esta peça se chama "Decomposição Friedrich" que
se trata de uma peça teatral passada no limbo onde três "consciências"
discutem para a sua passagem para o nada o que eles representaram no mundo.
Nesta época aos dezoito anos praticamente eu quase não lia nada de poesia
pois estava interessado em ler apenas dramaturgia que eu li todos os clássicos
de teatro de Sofocles até Goethe e de Goethe até Beckett como todos volumes
da dramaturgia de Nelson Rodrigues.
Aos 21 anos a poesia ainda estava engatinhando na minha sensibilidade, pois
logo que desiludi do teatro me voltei para a filosofia. Na época escrevi um
ensaio que aos poucos estou passando para o computador sobre a última obra
de Friedrich Nietzsche "Ecce Homo" onde fiz a analise parágrafo
por parágrafo dos quatro capítulos centrais para tentar captar toda a luminosidade
e perspectiva. Este foi um momento sublime no meu passado, pois cada parágrafo
vencido e captado era como subir o cume de uma montanha e olhar a natureza
humana com suas cores claras e escuras lá embaixo. Pode parecer egocentrico
isto, mas Nietzsche faz se sentir assim quando se esta sobre seu verdadeiro
efeito.
Depois veio uma forte depressão que durou cinco anos seguidos que eu ficava
olhando para o teto ou lendo algum livro enquanto escrevia poesia que ao meu
ver hoje de uma maneira bem medíocre deixando a emotividade fluir e travando
a fluidez da consciência com a emoção.
Neste período eu dediquei em ouvir música erudita como estou o fazendo agora
quando eu escuto "Réquiem"de Berlioz porque venho particularmente
de uma familia de músicos onde todos sabem cantar como meu pai Vicente ou
dançar ballet como minha mãe Aline ou dedilhar ao piano como meu irmão Everton
e que eu que não sei tocar nada. É uma pena, pois gostaria de ter sido compositor
de música erudita e pertencer a mesma familia como por exemplo a sinfonia
de n*3 de Villa Lobos.Tenho uma prima Stael que está escrevendo uma tese de
mestrado sobre o Guerra Peixe. Nunca esquecerei quando a grande pianista brasileira
Magda Tagliaferro se aproximou de mim puxada pelo meu irmão na casa de meu
tio por causa do meu acanhamento.
“Sinto mais sensações vindouras/que sinto eu do passado.” O poeta ainda é o
augure?
Charles Baudelaire nos deu um livro fundamental que é as “Flores do mal”.
Bastou este livro é ponto final como poeta e para a poesia feita no século
dele. Uma identidade para a poesia moderna estava formada. Arthur Rimbaund
também deixou um livro só e influenciou toda a literatura moderna de uma forma
definitiva. Rimbaund estava tentando resolver a sua identidade poética e resolveu
a moderna poesia ocidental. Havia ou há muitas consciências excepcionais,
uma revolução ainda não abrasada ou suprimida dentro dele que é preciso captar.
Lendo Rimbaund fico imaginando lê-lo num desses concursinhos de poesia de
colégio. Tenho certeza que a pretensa modernidade da garotada termina na hora.
Rimbaund é mais moderno que o rock. É uma idiotice falar que Jim Morrisson
foi algo comparado a Rimbaund. Jim Morrisson no máximo fez xixi na sala de
visitas da classe média. Sinto muito mas é verdade. Os versos deles estão
condicionados ao um tempo histórico. Rimbaund não! Rimbaund esfrega a consciência
na sua cara e lhe pergunta se você existe realmente enquanto toca punheta
olhando a sua mãe e irmã e pergunta se você não irá fazer o mesmo?
Para Rimbaund o que interessa é este limite da latitude da consciência senão
fazer quando se encheu foi vender armas.
Jim Morrisson servia apenas a industria existente na época e deixaram o cara
e a trupe pensarem que estes estavam sendo originais.e fizeram que estes passassem
exatamente isso lhe dando a censura para se revoltarem; na consciência como
meta. Se Jim Morrison fosse o rebelde nos teria proposto o silêncio como um
ato de revolta ou composto outras coisas mais difíceis ao palatável auditivo
da trupe e da industria.
No cemitério onde está enterrado está a nata da cultura ocidental dizem que
é o mais cultuado ali. Quero ver daqui a um século.(ri) Será que seus companheiros
de mortuário pensam a mesma coisa em ter aquilo como posteridade ali com eles?
“As pedras repetem estes fatos/são cadências em suas lápides./Do grito que
sempre repercute lato /Que neste espaço cumpre-se em si.” A busca do poeta é a
busca de ETERNIDADE?
A posteridade é uma grande bobagem egotripica. Se analisar no
fundo o escritor que entrou para a posteridade estava
procurando resolver este estado de consciência. Proust
estava tentando compreender esta passagem do "estar no
mundo", ou seja, a filigrana dessa passagem. Captar o momento
que este se realiza. Por isto “Em Busca do tempo Perdido” é
uma literatura árdua. Ali não se admite meio termo ou você
aceita a condição do escritor ou você está definitivamente
fora. Você pode até abrir mão deste fato, mas não pode ignorá-
lo. A posteridade como eu ia dizendo é uma bobagem diante
deste fato. É uma mentira. Giácomo Rossini sabia que o era
pois Beethoveen era o fã de seu Barbeiro de Sevilha. Isto não
impediu que o mesmo fosse fazer uma outra coisa, e aqui no
caso nada. Posteridade para Rossini então foi um belo nada. -
Eu conheço pessoas que tem o mesmo habito entrando fazem
outras coisas rotineiras. Conheço várias pessoas que escrevem
da mesma forma. Que querem deixar registrados os mesmos
lugares comuns. .São pessoas de uma outra família. Estas
pessoas ficam preocupadas com o teor do que irão dizer para a
posteridade. Uma bobagem! A posteridade se faz no presente no
exame profundo da consciência.
No seu poema DESTROÇOS DA CIVILIZAÇÃO você escreve: “Quando eu me sentia
no passado/eu era mais inteiro e conciso/estava ali perene como o sol./No
futuro sou apenas a projeção/Do que eu era há minutos.” O passado é o espaço
onde podemos ficcionar, criar? O poeta está sempre em busca do tempo perdido?
A literatura deve pesquisar a consciência compreende. Quando um escritor
recria o mundo num livro está na verdade tentando compreender esta realidade
que é o mundo. Este mundo está neste hiato entre o passado e o presente e
o escritor entra aí neste espaço entre estas duas coisas projetando algo como
nos deixa entrever Platão.
É muito diferente de um cientista que busca a mesma origem mais tem outros
fatores e outras curiosidades. A contestação por contestação é bobagem deve
estar ligado com este algo que eu disse anteriormente. A arte é uma profunda
analista de si mesma.
Uma coisa que eu não concordo muito é com analise acadêmica da obra, pois
se fica dissecando a obra como se fosse um pedaço de carne. Parece-se com
a mesma postura do cientista, mas só que equivocado. Uma vez que está não
pode ser analisada apenas por sua sintaxe e morfologia sociológica. Por exemplo
vou dar uma demonstração para você com dois primeiros versos de um poema de
Murilo Mendes chamado “pré-história” que começa com dois belos versos que
dariam de orgulho qualquer literatura que é assim: "Minha mãe vestida
de rendas/ tocava piano no caos." Isto tem uma beleza e uma consistência
poética absoluta. Como vai dissecar isto tudo?
A informação pessoal que você tira disso é a saudade do poeta que nunca conheceu
a mãe a não ser como um álbum de retratos. O sentindo de uma amputação latente
fica registrada. Basta sabermos tudo ou se nada sabermos isto não fará nenhuma
diferença que "minha mãe vestida de rendas tocava piano no caos."
como material informativo. O que o verso transmite é particular a leitura
de cada um. Não vejo que uma analise possa dissecar e trazer alguma outra
novidade a não ser uma novidade periférica em relação ao poema. O bom poema
é latente a consciência e cumpre o movimento deste espaço entre passado e
presente, vide os poemas de T.S. Eliot.
“Quando o ciclo do século se finda/que pára onde terminara; um século.//Tudo
se fecha na duração deste tempo,/como um livro de um escriba recém vindo”. O
que será do poeta e dapoesia no novo milênio?
Tenho sérias reservas quanto ao slogan do progresso e acho que é uma utopia
pensar em progresso. Penso que progresso é tornar uma coisa especifica em
outra possibilidade, mas o que acaba me parecendo que os ciclos da história
se mascaram em outros rótulos, criando aí esta ilusão de progresso tão questionável.
Quanto a nós sermos uma realidade de massas é um fato inquestionável, mas
isto se deve a demanda da população que é muito alta. Li não sei onde que
a informação de um camponês eqüivaleria em toda sua vida a leitura de um jornal
de hoje, mas aí eu me pergunto será necessários termos tanta informação? O
que se passa no Zaire é fundamental tanto o que se passa dentro da Casa Branca
para um homem comum? T.W. Adorno entra nesta questão para mim. Não só gosto
como eu o admiro T.W. Adorno. Acho o ensaio sobre jazz admirável. Um ensaio
antológico para se compreender o movimento e os mecanismos da mídia. Sou uma
pessoa que adora ouvir jazz. Acho Ornette Coleman e Charles Parker admiráveis.
Diane Whasgiton é uma cantora esplêndida. Mas voltando ao Adorno. Acho fundamental
quando diz que a mídia cria uma farsa que seus ídolos são falsos. Os mitos
de uma Rádio nacional ontem são os mesmos de hoje. O que diferencia apenas
é o estilo da época no mais é a mesma coisa. Na cultura literária está acontecendo
algo parecido com alguns poetas que eu desconfio um pouco.
Poetas que são de uma outra família que escrevem poemas descartáveis para
vender agora e serem esquecidos na próxima temporada cuja sintaxe flui como
numa conversa de botequim. Quando ao Adorno é um clássico na qualidade dos
maiores pensadores como um Heidegger que é fundamental quando ao questionamento
da palavra. O estudo dele sobre Trakl é um negócio sério.
Georg Lukaks tem também uma contribuição estética com sua crítica marxista
assim como Walter Benjamin. Se formos críticos temos muito a tirar destes
tratados estéticos, basta sabermos lê-los no ponto certo. Inclusive o elitismo
de um Eliot pode contribuir muito para um conceito de cultura ou de poesia.
Penso até que não é função da poesia a retificação da realidade como quer
T.W. Adorno em seu famoso ensaio, mas para compreensão e o desvelamento de
sua preposição.
A verdadeira poesia será a mesma que se pratica deste Dante ou Homero e é
uma ilusão acreditar que esta fará um movimento de 360* graus e passará a
ter um outro écran.
É mais fácil o homem mudar, mas isto neste não o faz deste a história pré-histórica.
Se antes tínhamos reis conferidos pelas divindades, amanha teremos estes mesmos
reis através de outros critérios, porém a bobagem será a mesma.
“Existir é bem mais que padecer/Deste tolo narcisismo póstumo.” O que é
o não ser em vida?
O não ser em vida é a escravidão e a massificação. É passar a vida inteira
como um bossal na mesa de bar e se orgulhar disso. É ser uma Vera Loyola e
emergentes da Barra da Tijuca que se legitimam pela sociedade "pensa
de" e não se-lo em essência. É mandar construir enormes memoriais de
pedra em seu nome e cinqüenta anos depois alguém pergunta:"Quem era?"
O pior tipo de escravo é aquele que se tornou patrão sem se- lo. É aquele
que parado na esquina tem uma loja em NY, mas se preocupa com status que ele
tem na sua cidade onde niguém sabe onde fica.
As pedras repetem estes fatos/são cadências em suas lápides./Do grito que
sempre repercute lato /Que neste espaço cumpre-se em si.” A busca do poeta é
a busca de ETERNIDADE?
(Repetindo aqui o que eu disse anteriormente) A literatura deve pesquisar
a consciência compreende. Quando um escritor recria o mundo num livro está
na verdade tentando compreender esta realidade que é o mundo. Este mundo está
neste hiato entre o passado e o presente e o escritor entra aí neste espaço
entre estas duas coisas projetando algo como nos deixa entrever Platão.
Há idade própria para ser ensaísta e ficcionista?
Meu primeiro ensaio foi aos vinte anos quando eu já tinha
escrito várias peças de teatro e foi sobre "Morte e vida
Severina" do João Cabral de Mello Neto e embora haja ali
alguma coisa de essencial não considero que o fiz com
segurança.
Não existe idade para nada, e deste que se faça bem feito é valido. Veja o caso
da poetisa Mariana Ianelli de São Paulo. Ela tem dezenove anos na bagagem e
uma maturidade que eu não encontrei em mulheres que se metem a escrever poesia
com 60, por exemplo o poema dela " Três vezes Cristo" pode estar no
meio de uma obra poética como Henriqueta Lisboa ou Adélia Prado. Além de escrever
poesia como se deve, esta é extremante elegante e bonita.
A entrevista dela que está na UOL é uma entrevista de uma pessoa madura e segura
que sabe o que está fazendo e o que quer.
Com a morte de João Cabral de Melo Neto quem ocupará o lugar de maior poeta
brasileiro vivo?
Já está ocupado. Ferreira Gullar. Se houver algum outro
pretende pode limpar a área. Ferreira Gullar conseguiu andar
com o movimento do mundo. Sabe porque? Percebe-se na poesia
dele ao meu ver este estar no mundo esta consciência latente
tanto que a poesia dele é tão lírica e áspera e muda de
formas, porque este está intimamente ligado a este movimento.
Poesia é letra de música? Poema é poesia?
Para o Bruno Toletino e para mim poesia não é letra de
música. Mesmo que se comece que a falar dos trovadores e sua
música eu faço duas seguintes perguntas: "Qual foi a última
vez que você ouviu a música dos trovadores e me cite o nome
de dois músicos tovadores que ficaram deste a idade média e
modificaram a história da música? Se aquela canção cuja letra
acha genial pode ser colocada pau a pau com o melhor poema? "
Geralmente uma outra coisa sai perdendo e não é qualquer ser
mané que pode a se meter a ser Richard Wagner.
No começo eu começei a estudar a poesia através da letra de
música e foi um dos maiores equivocos de minha vida este
fato.Lastimável!! Tanto que eu gostei a captar a nuança do
poema.
Se o poema é poesia; eu afirmo claramente que não! O poema
aceita tudo e a poesia o desmascara o poema.
Com quantas metáforas se faz um poema? O que é a poesia e o poema?
Com todas metáforas disponiveis do mercado. No fundo acho a
questão da metáfora de um novelo que não termina nunca que
mais se parece com daqueles contos do Jorge Luiz Borges como
"Pierre Menard".
Fundamental na questão da arte. Uma idéia brilhante de porque
a literatura é uma representação mimetica da realidade. Se
Borges só tivesse escrito este conto já teria sido
fundamental e justamente o brilho esta na condição da
metáfora.
A poesia citarei um trecho de T.S. Eliot onde fala sobre
poesia e tradição: "Todavia, se a única forma de tradição, de
legado à geração seguinte, consiste em seguir os caminhos da
geração imediatamente anterior à nossa graça a uma tímida e
cega aderência a seus êxitos, a “tradição” deve ser
positivamente desestimulada. Já vimos muitas gerações
semelhantes se perderem nas areias; e a novidade é melhor que
a repetição. A tradição implica um significado muito mais
amplo. Ela não pode ser herdada, e se alguém a deseja, deve
consquistá-la através um grande esforço. Ela envolve em
primeiro lugar, o sentido histórico, que podemos considerar
quase indispensável a alguém que pretenda continuar poeta
depois dos vinte e cinco anos; e o sentido histórico implica
a percepção, não apenas a cacuidade do passado, mas de sua
presença; o sentido histórico leva um homem a escrever não
com sua própria geração a que pertence em seus ossos, mas
com um sentimento que toda literatura européia desde Homero
e, nela incluída, toda literatura de seu próprio país têm uma
existência simultânea e constituem uma ordem simultânea. (...
) E é isto que ao mesmo tempo, faz com que um escritor se
torne mais agudamente consciente de seu lugar no tempo, de
sua própria contemporaneidade. ”, ou seja, o que Eliot nos
quer dizer que cultura não é um mero acontecimento do acaso,
mas uma somatória de uma civilização, e para que uma pessoa
venha a dar continuidade a este movimento tem de ter
consciência absoluta de sua confecção nos meandros das
bifurcações, que este mesmo cria e que este se dá através do
fenomeno da poesia.
Quando o poema é uma obra em verso cuja composição poética
de certa extensão, com enredo ou sem, distribuído no espaço
etc.. de acordo com o gosto ou algo que se convencionou a se
chamar de poema e que pode ter infinitas variações.
O que é necessário para a poesia ser mais divulgada?
Que os maus poetas saiam correndo e procurem entender o que
seja poesia, e nos deixem impunes de suas misérias e
atentados. Se algum deles diante desta poesia ficar
profundamente calado é porque achou a poesia; senão este vai
continuar escrevendo aquela leréia chata até que a língua
portuguesa de enfarte ou renegue Camões por tê-la salvado do
mar.
O que faz na hora de lazer?
Leio sobre informática, tanto que sei limpar um HD e
reinstalar Windows entre outras coisinhas e tanto que eu
consegui instalar o temível "Linux" e faze-lo rodar, mas como
ainda está muito pouco desenvolvido para a área de
processador de texto, continuo no Ruindows mesmo com seus
bugs especiais!
O que mudaria na internet?
Respondo a isto na minha Home Page quando sofro para atingir
um padrão que não se pareça com aquelas Home Pages cafonas
americanas. Que o homogêneo possa ser uma opção e não uma
massificação.
Antes de mudar a internet eu mudaria os Estados Unidos que
podem se sentir melhor em tudo, mas são realmente
insuperáveis na jequice. E tem muito brasileiro que acha
aquela bosta o máximo. Se eu tivesse que ir lá eu iria só nos
museus e algumas obras de Franz Loyd Wringht(?).
Tem algum mote?
"O papa é pop mas não liga pra pobre" A variação é não
publicável.
Qual o papel do escritor na sociedade?
Enquanto houver papel deve existir. Brincadeira.O mesmo de um
Samuel Beckett foi o dramaturgo que mais me disse respeito.
Beckett é fundamental. Todos deveriam ler beckett pelo menos
uma vez na vida. Nem que seja “O Primeiro Amor” um texto mais
ameno do escritor. Beckett é um daqueles autores que falam
tudo sem falar nada. Nos entretém e nos entedia. É uma pena
que o projeto de publicar toda a sua obra não tenha sido
levado a cabo. Espero que apareça algum tradutor que faça o
resto do projeto. Infelizmente eu faço um exercício
compulsório de esquecer Beckett. A escritura dele me inibe
profundamente. Tanto que parei com este negócio de
dramaturgia. Acho que foi por respeito. Tem um ensaio de
Beckett sobre Proust que é memorável e o livro de Osmar Lins
que são duas belas lições sobre o mestre francês. Tenho uma
coisa comigo. Até aceito uma pessoa ter o autor preferido ou
livros de cabeceira. Mas se dizer leitor de um só livro é
inadmissível. Não foi Bernad Shaw que disse que se pode viver
sem escrever? Pois a maioria da humanidade esta sem escrever,
mas o problema é: Esta existe e deixa testemunhos desta
passagem e esta pode evoluir enquanto sociedade justa sem a
escrita?
Quando eu li Bertold Brecht eu me apaixonei por sua
dramaturgia que foi totalmente publicada pela Paz e Terra.
Foi fundamental no meu início de leitura, gosto de Baal e do
Galileo, da Mãe coragem etc.
Não consigo distinguir hoje um Chico Buarque independente de
Brecht. Há uma influência descarada de Brecht na poesia de
Chico Buarque. Acho sinceramente Brecht como um poeta voltado
a dramaturgia, acho que foi a Brasiliense que publicou uma
coletânea com seus poemas embora destes poemas há um que eu
gosto muito que ironiza o exílio dizendo que a sorte é a
mesma do homem que parte e do que fica. O problema que eu
acho que a discussão é mais embaixo. O fundamental é o homem.
Não ficar discutindo projetos utópicos ao infinito. Isto me
dá tédio aí eu penso em Camus ou no Sartre com sua Náusea ou
Calígula; compreende? ( pausa) Os textos libertinos de Sade
são muito mais políticos e fundamentais que um discurzinho de
cena de algum político de hoje. Se for para ficar entediado
eu prefiro a música popular ao cinema popular americano. Acho
importante que existam escritos políticos mas sem alienação e
que sejam verdadeiramente dialéticos até na medula na sua
possibilidade de autocrítica.
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