Entrevista com:
- Cristina Guedes -
Entrevista especial concedida ao Jornalista Oduvaldo Batista para o Jornal A UNIÃO
Numa conversa expressiva e cheia de lirismo a jornalista e poeta paraibana
Cristina Guedes, trata, com intimismo e sensibilidade de alguns de seus temas
preferidos, como a psique feminina, as relações entre intuição
e linguagem, além da responsabilidade ética e metafísica
do artista contemporâneo. Expoente do melhor jornalismo cultural, Cristina
fala de todas as luzes e sombras que vem sendo seu novo livro "No Coração
da Serpente". Para ela a serpente veio para desglamourizar a sombra, mas
não deixou de ser consciência plutôniana do universo. Confira
o que Cristina Guedes diz a UNIÃO em entrevista exclusiva.
Poucas mulheres na história do jornalismo cultural da Paraíba
conseguiram fixar impacto no encalço com o mundo da linguagem. O que
levou você a essa disposição com a palavra?
Só reconstruindo tudo entre memória e consciência é
que consigo realizar a essência da palavra. Para escrever tenho que
me colocar na inspiração, ir com o texto e saber alcançar
o curso de um rio que se aproxima de mim benevolente e misterioso. Essa é
a grande aventura da linguagem, é o que busco e encontro sempre em
tudo. Um outro símbolo que deixo fluir quando escrevo é a experiência
da intuição. Sou muito intuitiva e é isso que me leva
a filtrar as impurezas carreadas pela matéria ficcional ou jornalística.
O dilema é cicatrizar a criação, deixá-la implícita
porque perante essa realidade que está aí tão ostensiva
por guerras o melhor ainda é a expressão. Agora a convivência
entre expressão e intimismo é a peça de apoio da palavra.
Talvez quando escrevo sobre um autor e sua obra, crio um novo ambiente, um
território sensível onde o artista sente estar aprendendo entre
o seu mundo e o mundo externo. Afinal todo verdadeiro artista tem uma lente
multifacetada, uma imagem de inteligência totalizadora. Mais do que
isso o artista sabe do inexorável, mesmo que lhe doa a agudeza da realidade
e, mesmo assim, o artista nunca se interrompe nesta selva de mil labirintos.
É isso que observo numa obra, sua grandeza e sua miséria, seu
belo e seu abjeto, sua vida e sua morte.
Os críticos dizem que uma das constatações mais importantes
para o observador do fato literário é a indiferença ou
o alheamento avaliador da criação. Como você avalia esses
conceitos na produção cultural da nossa terra?
A crítica aqui é favorável, contagia as gerações
de escritores, mas ainda há um pouco de confinamento histórico,
típico das cidades pequenas. Claro, a reflexão iluminadora existe,
aquela meta que, no dizer de Roland Barthes, é a da arte do verdadeiro
crítico ou escritor, para quem o ato de escrever significa fazer "estremecer
o sentido do mundo".Contudo, não temos carência nem
de autores e nem de críticos por aqui. Temos carência é
de recursos e de programas que viabilizem esses autores para que não
fiquem sós dentro das academias e dos conselhos de cultura. Esquisito
o rito da imortalidade que é muito comovente por aqui, pois nós
temos bons poetas que nem sempre aparecem em sua totalidade pela mídia.
Isso precisa ser revisto na órbita dos debates literários. Percorrendo
algumas coleções de ensaios em que estive participando junto
com os autores da Umar Editorial de Lisboa, verifiquei no plano da simbologia
que os ensaios atraem mais os editores e emolduram melhor a inquietação
que consome os leitores naquilo que se sobrepõe à identidade
cultural de cada autor e seu país. Um editor chamou a minha atenção
quanto ao fato da consciência em continuada luta para exprimir-se e
resolver em termos de linguagem a decifração libertadora do
autor e sua obra. O ensaio no ver desse editor parece chegar no que eles chamam
de "impasse do desdobramento dialético". Lembro-me
bem que num Encontro Internacional de Poesia realizado em Belo Horizonte pela
UFMG (1997), o Décio Pignatari estava irritadíssimo perante
a crítica brasileira no seu diálogo "Tendência
e Concretismo", onde ele em entrevista me confessou que só
estava ali para colocar em xeque as estruturas tradicionais e acadêmicas,
reafirmando que tudo que ele desejava era ver a linguagem de desalienação
do crítico brasileiro. Ele disse que estava cansado dessa "desinência
barroquizante" em certos autores. O que me fascinou naquela entrevista
foi a descoberta de um "eu" cuja existência era entender a
criação espontânea de uma obra.
Quer dizer que esse cruzamento entre autor, texto e o "eu" do
qual você falou seria a base interior para a realização
de um bom trabalho literário?
Sem dúvida, essa é a realização não só
para a escrita, mas para a vida. É como um sussurro de amantes que
ignoram tudo que os cerca, porque deve haver uma linguagem que vá direto
às emoções. E ver, ver que as coisas que estão
em nossa volta trazem a marca da existência. Isso é o que me
fascina. Por isso que me atraio pelos traços psicológicos, a
aura de mistério e a realidade atordoante do cotidiano. E texto para
mim é uma experiência do real mais sentido e não só
um produto intelectual, mas o resultado de uma consciência. É
por isso que encontro momentos luminosos porque quero do leitor àquilo
que Goethe chamou de "afinidades eletivas". Acho que quem
ler algum texto quer alguma coisa sagrada entre iluminação e
sensibilidade. Só que não agüento flagrar o tempo todo
as coisas sérias, gosto do brilho do riso no leitor quando ele fica
relaxado na leitura. Procuro dar uma pele feminina às palavras, talvez
uma pele pervagando o estar-no-mundo. Ás vezes acho que isso é
o coração que começa a escrever incondicionalmente como
quando estamos amando. Não é assim? De certo, só podemos
amar quando somos incondicionais. Eis o mais perigoso de todos os perigos.
Pois este despertar é cuidar para o texto acabar bem entre o eu, o
tu e a vida. Então, acabar bem é algo muito perigoso para uma
sociedade em que os seres pagam para ver a infelicidade do outro e as deles
próprias. Ainda precisamos descobrir que há uma ascese poética
em tudo.
Durante séculos as mulheres preferiram ser as musas dos homens porque
nessa cultura capitalista sempre se exigiu que o homem demonstrasse o máximo
de seus talentos enquanto muitas mulheres cumpriam apenas o papel de entes biológicos.
Como você analisa a mulher contemporânea ou essa "nova mulher?"
Ela existe?
A mulher está sempre numa situação de semicrise. Ela
aplica intensidade ao que faz. Sentir o momento e vivê-lo é típico
do feminino. A mulher ainda é a parte estranha da sociedade. Ela precisa
amar, alcançar o céu, ensinar amor com a sua própria
divindade e quando ama, ela se sente grata pelo cosmo ter aceitado seu amor
e não porque um homem não a compreendeu. Uma grande mulher não
espera que um homem seja grato, não, de jeito nenhum, ela não
precisa nem mesmo do seu agradecimento. Ela já agradece em silêncio
só pelo amor ter existido. Agora, algumas mulheres só tiveram
expressão artística porque suas vidas não foram miseráveis,
elas não estavam com medo de amar. Elas abriram suas mãos, foram
rebeldes. A vida foi rebelde para essas mulheres e nenhuma atitude pôde
contê-las. Se você olhar a história de algumas mulheres
das artes, quase todas se projetaram através da coragem, mas elas incomodaram
muito em suas épocas, mesmo trancadas por uma condição
cruel, elas arrumavam um jeito de escapar da cálida vida de culpabilidades.
A atitude delas mudou o fundo das questões masculinas, pois os homens
continuam precisando saber até hoje quais são os sentimentos
da mulher e é isto que as autoras devem exprimir mais em seus livros.
Para uma mulher que escreve o simples ato de tocar na caneta pertence ao sagrado
e à irmandade das coisas que nos fixam quando criamos. Mas as mulheres
estão aí, Oduvaldo, diariamente dando o seu testemunho através
das páginas dos jornais. Achei engraçado quando outro dia a
Leila Míccolis me escreveu dizendo que preferia ser chamada de poeta
e não de poetisa porque segundo ela "em poetisa todo mundo
pisa". Rimos muito dessa frase. E o pior não é isso,
é que a fabulosa máquina publicitária continua vendendo
uma mulher siliconizada, meio fast-food e em alta rotatividade nas noites.
O incrível é que essas mulheres são aquelas que os homens
sonham e martelam nas suas cabeças. Enquanto as mulheres buscadoras
de mais acuidade eles temem por nervosismo ou incapacidade de transcenderem
junto com elas. Por isso acredito que a poesia e a arte desvendam outras mulheres
e outros homens. Sim, eu acredito que a "nova mulher" existe
e resiste, Oduvaldo, que ela é atuante e pensante, que pode escolher
e ser escolhida naturalmente sob aquele dom de doar-se a si mesma e ao outro.
Essa é a mulher que tem compromisso com o mundo e fará do mundo
um assunto seu e não um esquema de opressão. Essa mulher já
está em diálogo com o novo homem também. Ela encontra
nele o companheiro, e não o senhor, brutal, ciumento ou paternalista.
E é exatamente nessas bases que essa nova mulher conquista sua dignidade,
seu auto-respeito e a sua condição humana e espiritual. Pois
se ela pode viver o cem por cento, por que ela vai optar viver apenas o dois
por cento como as outras. Estamos aqui para a totalidade. Homens e mulheres
são totais quando se complementam. Mas há o hábito das
proibições dessa sociedade. E o habito anestesia os dois e é
muito perigoso. Os homens deviam sair do hábito. As mulheres deviam
sair do hábito. Bem, ainda há tempo de sair.
Você tocou na questão dos dois por cento, de como hoje a maioria
das pessoas sejam homens ou mulheres vivem se ausentando das suas responsabilidades
políticas, éticas e até amorosas. Como viver esses cem
por cento do qual você falou, tendo em vista uma sociedade cheia de cruzamentos,
aniquilamentos e desigualdades?
Esta é a coisa mais fundamental de ser lembrada, Oduvaldo. As pessoas
continuam repetindo o que a sociedade diz para elas fazerem. "Case-se".
E a pessoa casa. "Seja um advogado, meu filho". E lá vai
o filho que devia ser um filósofo virar um chato advogado. Isso tem
que ser abandonado. Porque essa pessoa que foi ser o que os outros queriam
perde seu respeito por si mesma. E mil e uma vezes ela não vai saber
amar. Mas o trabalho dos cem por cento é árduo e não
pode ser feito instantaneamente porque tudo irá se mover em sua volta
e até contra. É parecido com o processo homeopático.
Você continua respirando e você não pode se permitir não
respirar simplesmente porque o ar não é como deveria ser. Aí
está a grande descoberta e lembre-se de nunca exigir perfeição.
Nós não temos direito algum de exigir qualquer coisa de alguém.
Estamos todos em vias de processos. Eu outro dia gostei de observar um passarinho
na minha varanda. Ele vinha bem cedo, pousava e cantava uma canção,
e ele não me pediu certificado ou qualquer coisa e também não
disse: "Hei, você gostou dessa canção, Cris?"
Ele cantou, bateu as asas e depois voou feliz da vida. É assim que
deve ser. Dê, e não espere para ver quanto você pode agarrar.
Não há necessidade. Veja, as árvores crescem e isso não
é um negócio que vá aparecer na coluna do jornal; as
estrelas brilham e você não vai precisar pagar para ver esse
espetáculo. E quando a gente leva em conta o sentido metafísico
das coisas, tudo passa a ser o transparente dos cem por cento. Porque é
a capacidade de superar essa realidade de desigualdades que torna as coisas
e os seres mais éticos, mais políticos, mais espirituais como
você disse. Além da razão, nós também precisamos
da cultura do sentimento. Essa cultura do sentimento é muito mal apreciada
pelo mundo intelectual, porque os homens têm muita desconfiança
daquilo que remete à fusão, à con-fusão, à
não-distinção, mas dá-se que essa cultura do sentimento
já foi há muito compreendida pelas mulheres.
Parte dos seus textos estão ligados ao fato de você se interessar
pelos campos mais metafísicos?
Interesso-me por tudo, de autoconhecimento aos ensinamentos e princípios
práticos da vida. Gosto das ciências herméticas, da Tétrada
simbólica representada entre os arcanos do Tarô e da Cabala.
Tenho visto muita familiaridade entre a Cabala judaico-cristã milenar
e os códigos de simbolismo do Tarô. Percebo que esses estudos
são uma verdadeira máquina filosófica. Também
a dimensão noética da psique em paz (a consciência sem
objeto) me atrai muito para certas leituras de interpretação.
Gosto ainda do mistério que há entre morte e ressurreição
que deve realizar-se em cada um. Essa é a nossa filiação
divina, quando a alma passa a ser o DNA, como dizem os cabalistas. Aí
você passa a entender que partimos da horizontalidade para a verticalidade
e que a vida é entender essa passagem porque tudo é ciência,
tudo é fisiologia, tudo é psicologia, tudo é física
e tudo é poesia. E tudo isso é arte da transformação.
Então, será que estamos prontos para ficarmos metafísicos?
Perguntei isso ao Dr. Laércio do Egito, meu médico homeopata.
E olhe o que ele me respondeu com uma outra pergunta: "O que somos,
dona Cristina?" E respondi: "Desejo em movimento puro e se
não fosse assim, Dr. Laércio, não nos mexeríamos
nem da cadeira". E somos todos desejos que nem sequer percebemos
o que há de metafísico em tudo. Esta habilidade é a nossa
risada de tudo que nos acontece. Então, passei a não criar divisão
entre matéria e espírito, belo e feio, amargo e doce. A existência
é uma só, a matéria e a existência são simplesmente
os dois lados da mesma moeda. Não há nada de errado em ter desejo.
Seja desejoso, e ainda assim permaneça não-desejoso, essa é
a grande sacada, a arte de viver entre os opostos, de equilibrar-se entre
os desequilíbrios. Estar no mundo e não ser do mundo. Não
acumule. E saber tudo fingindo que não se sabe de nada. Essa é
a maior alegria, estar presente sem estar. Isso é fantástico
quando a gente descobre. A displicência é a inteligência
nessas horas. Eu mesmo sou muito displicente e ligada ao mesmo tempo. Displicente
e ligada, isso pode? Pode, tudo pode. A água não é displicente,
ela corre feliz e agradável e não depende de ninguém
para isso. Ela só está ligada em fluir. Existe água dentro
da gente, que ainda está fluindo. E água deseja aquilo que jamais
termina, é para sempre. Então você não "cai"
de água. Já observou isso? Você só "cai"
de sede. Aí, é bom lembrar da água, da futura água
que o planeta vai precisar.
Li uma série dos seus poemas intitulado "No Coração
da Serpente", onde você descreve uma personagem dantesca, cumprindo
sua espécie de ascensão, mas é uma personagem livre de
quaisquer convenções acadêmicas, filiada a nenhuma igreja,
nenhum partido, nenhum órgão. O que é essa serpente, Cristina?
Eu não suponho sequer quem seja essa serpente, Oduvaldo. Felizmente
tenho a impressão que ela veio para se unir com a sensação
agradável da Luz. E uma serpente em dia de verão não
é mais enovelada, é verticalizada. Já perguntei a ela
que é que ela quer ser quando crescer? Ela disse: "Semeada".
Mas dentro de si essa serpente é poética, como se o amor pudesse
fundi-la, como se a experiência de uma vida pudesse mantê-la terna
e piedosa. Essa serpente é alguma coisa que eu não sei, mas
a recebi como quem recebe a água nos pés e ainda está
com o rosto umedecido de beijos e lágrimas. Além do mais, o
sal e o sol agora deixam-na mais escorregadia sobre a terra. Mas ela não
é só isso. Esses poemas partiram do "Pão de Serpente",
uma série de outros poemas que escrevi em 97 e quando recebi uma premiação
pela UFMG e o Cartaz ME (Mulheres Emergentes). Desde o ano passado fui retocando
nos poemas e, sem pressa, eles foram me invadindo. Comecei a me identificar
mais com o livro, onde havia tanta feminilidade na personagem do que quando
ela decorria quando era "pão". Hoje ela decorre "coração"
e de repente ela se deu conta da sua face original e ela não é
uma serpente sombria, ela é uma serpente integral, onde todos vivemos.
Para ela mal é não viver. Morrer já é outra coisa
para ela. Morrer para ela é diferente do bem e do mal. De qualquer
jeito suponho que essa serpente é polaridade. Ela nasceu esquerda,
impossível anti-heroína, um vórtice. Mas continuo não
sabendo nada sobre ela. Há quem saiba.
"No Coração da Serpente" foi selecionado para configurar
numa coletânea Européia de Poesia. Como foi receber mais esse reconhecimento?
Desde que voltei de Lisboa com o prêmio da Associação
Portuguesa de Escritores, passei a ampliar os contatos com os amigos europeus.
Eles têm muito carinho e respeito com os autores brasileiros. Com o
tempo foram me enviando muitas notícias, convites para escrever outros
textos e daí passei a intercambiar mais por lá. Bem, como disse,
o diálogo foi aumentando até esse texto ocorrer em Ragusa. E
por uma porta bem digna conversei com autores brasileiros e italianos, totalizamos
nossos problemas e dissolvemos muitos preconceitos das letras. Então,
foi mesmo muito bom sentir a graticidade dessas pessoas. Só gostaria
de lembrar do escritor Carlos Alberto Azevedo, autor de "Tríade"
e "Os Lobos de Manhatan" que teve essa disposição
em divulgar o meu trabalho na Europa. Ele fez isso de modo elegante quando
em 2001 me configurou num catálogo alemão de artes, (Interkulturelle
Literatur in Deutschland), deixando por lá o meu registro. Penso que
reconhecimento é uma palavra do coração e da consciência
do autor, aprendizado puro também para mim. Fico feliz quando descubro
que não somos tão exilados assim, que emergimos junto com o
texto e com o leitor que está lá do outro lado do atlântico.
Essa é a maior surpresa para quem escreve. Aquele olhar inquieto do
leitor, esperando súbita timidez de palavras.
(2004)
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