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Entrevista com:
- Chico Lins -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Carioca, 41 anos, casado com Juliana, tenho um filho chamado Gustavo que vai
fazer no próximo dia 20 de outubro dois anos. Nascido no Rio de Janeiro,
passei toda a infância em terras do Paraná, onde aos nove anos
me descobri poeta com um poema chamado Solidão. Com a morte de meu pai
e o retorno ao Rio, fomos morar com minha avó Naná, quando pude
desfrutar da biblioteca de meu avô doada anos depois ao Espaço
Cultural de João Pessoa, na Paraíba.
Formei-me em Direito pela Cândido Mendes, embora o meu grande sonho fosse
a Comunicação. Comecei a trabalhar aos 18 anos, e em 1986 ingressei
no Ministério Público de Minas Gerais, exercendo o cargo de Promotor
de Justiça em várias Comarcas. Em Juiz de Fora desempenhei a Curadoria
de Defesa do Meio ambiente e do Patrimônio Cultural, tendo lá cometido
alguns atos poéticos - talvez o melhor de minha poesia - salvei algumas
casas centenárias da demolição e algumas paisagens da poluição
sonora, hídrica e atmosférica. Agora estou em Belo Horizonte,
onde exerço minhas funções na 10ª Vara Criminal. Muitos
entendem que seria um cargo incompatível para alguém que se intitula
poeta. No entanto, penso o contrário. No contexto em que se vive - um
mundo miserável de marginalizados e injustiçados, é preciso
cobrar com sensibilidade em qualquer mister. Pedir a absolvição
de um inocente; livrar de um longo tempo de cadeia quem já é refém
da vida, também é um ato de poesia.
Como surgiu a idéia de escrever INVENTÁRIO DA NOITE?
Grande parte das poesias que integram este meu pequeno Inventário
da Noite foram escritas na fase da adolescência. Muitos anos depois,
já casado e com um filho - acaso não plantei, decerto salvei
algumas árvores - me veio a idéia de reuni-las em um livro.
Inicialmente, sem uma maior reflexão crítica, pensei publicá-las
todas. Após, mais criterioso, exclui muitas; refiz algumas e retoquei
outras tantas - atualizando a linguagem, diga-se, mas preservando a essência.
"Há um momento/em que o mundo é sem tempo.../e tudo é
por demais irreal/para que se cogite dos sonhos..." Que mundo é
esse?
O mundo é isso aí - o que os jornais mostram dele sem precisar
dizer nada. Mas mesmo pessimista, ouso crer que amanhã será
outro dia...
Ser neto de José Lins do Rego é ter mais facilidades ou dificuldades?
Ser neto dele nunca me trouxe cobranças ou pretensões de qualquer
espécie. E, no que diz respeito à publicação do
Inventário da Noite, não trouxe facilidades - Muito embora também
publicado pela José Olympio - a mesma Editora que cuida dos livros
dele, tive que financiar o meu - o que em se tratando de poesia não
foge a normalidade - ainda que contasse com toda a atenção e
desvelo em sua bela edição.
O que o poeta deve ter de menino?
O Poeta deve ter do menino a naturalidade de ficar olhando para o céu
vigiando a pipa como se tomasse conta do mundo sem se preocupar com ele.
No poema CLONE você nos diz: "sou levado pelo passado/que o
tempo não plagiou!". Errar é humano?
Como digo em outro verso: "cheiro a pecado e posso pecar".
Qual a sua relação com a noite? É noctívago?
Hoje, homem casado, decerto com menos freqüência exerço
meus pendores noturnos. No entanto, minha relação com a noite
sempre foi de total entrega e paixão. Acredito que nela estamos desnudos
- somos mais autênticos - E como são ricos seus personagens -
os andarilhos e as putas; os loucos e os poetas, perambulando pelas ruas em
busca de um sentido no destino de seus passos.
Quais os escritores fazem a sua cabeça?
A bem da verdade, não sei se algum escritor ou poeta fez ou faz minha
cabeça. Meu gosto é eclético. Augusto dos Anjos, Fernando
Pessoa, Drumond, Thiago de Mello, Ferreira Gullar, Affonso Romano, Vinícius,
Cecília Meireles, Bandeira... Não me filio a nenhum movimento
ou vertente; não sou adepto de formas fixas ou eruditas; tampouco me
distingo pela perícia técnica - seus recursos e efeitos. Minha
poesia é essencialmente lírica, sem preocupações
de se ater a qualquer parâmetro ou conceito.
Quem é o escrito brasileiro?
Escritor brasileiro é Machado de Assis, mas adoro outros tantos.
Sobre meu avô sou suspeito...
Tem algum mote que o acompanhe?
Amar, sobre todas as coisas...
"Em branco/eu e meu papel/no mundo" é o final do poema
EM BRANCO. Há algum papel para o poeta na sociedade?
O papel do poeta na sociedade é fazer crer que a poesia existe. É
mostrar que todos, sem exceção, somos capazes de cometer atos
poéticos.
(2002)
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