Entrevista com:
- Cecília Costa -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Estudei Literatura na UFRJ e História na UERJ e apesar de escrever muito,
poesia e prosa, nunca publiquei nada e cai na Economia, ou seja durante mais
de 20 anos fui repórter, subeditora e editora-adjunta de Economia. Não
queria enfrentar a literatura, profissionalmente, por medo dela e por paixão.
Acho muito colada no meu coração. Há um ano, porém,
estou no Prosa & Verso para meu intenso prazer e sofrimento. Era mais fácil
falar de juros, moratórias, dívidas interna e externa do que de
Balzac, escritor que amo, um monstro que deu início ao romance moderno,
ou de Fernando Pessoa, outro gênio. Mas é preciso enfrentar a vida
e a literatura faz parte da minha, como água e ar. Bem, sou casada com
o poeta Ivan Junqueira e tenho um filho.
Há uma relação "conflitante" entre escritores
e jornalistas. jornalista é apenas o divulgador? ou exerce uma função
tão importante quanto a do escritor?Como vê esta relação?
Cecília Costa - Jornalista é jornalista e escritor é
escritor. São duas funções que se confundem, quando o
jornalista pode ter dom para ser escritor - e muitos o serão no futuro
- mas que na atividade profissional diária estão absolutamente
separadas. O jornalista tem que divulgar o trabalho do escritor, para despertar
o interesse do público pela obra literária. Quando não
gosta de determinado livro, é livre para criticar. Mas o que pode criar
divergências é quando estas críticas são feitas
por má fé, criticar por criticar. É claro que é
muito fácil descobrir apenas falhas na obra dos outros. Mas deu trabalho
escrever. Sofrimento, às vezes. Por isso este trabalho não pode
ser criticado levianamente, apenas devido ao poder concedido a quem está
ocupando, em determinado momento da vida, uma função de jornalista
literário.
O que um jornalista deve ter para trabalhar com literatura? Qual curso
deveria ser essencial: o de Comunicação ou a formação
em Letras?
Eu fiz Letras, porque amava literatura. Mas creio que também um
jornalista formado em Comunicação poderá fazer um bom jornalismo
literário, porque o mesmo critério jornalístico que leva
um repórter a descobrir um furo, no dia a dia, leva também a descobrir
um bom livro a ser resenhado. Agora, é importante, tanto num caso como
no outro, ter formação, ler, gostar de livros. Porque ler é
importante para qualquer ser humano, e sobretudo para quem vai viver da palavra.
Falta coragem aos cadernos culturais para pelo menos serem o que eram
no passado, quando revelavam novos escritores. Por que é mais importante
publicar uma coluna "dos dez mais vendidos" do que dois poemas
ou um conto de um escritor iniciante?
Não acho que uma coisa exclua a outra. É importante apresentar
uma coluna de mais vendidos para que o leitor tenha noção do que
está sendo comprado e lido em seu país, como também é
importante criar espaço para estreantes. Só que os cadernos literários
são pequenos. Pequenos diante do mercado editorial brasileiro, que não
pára de publicar livros. Eles não podem espelhar o que está
sendo publicado, quanto mais o que ainda não foi publicado. E nem todo
autor estreante vale a pena ser publicado. Escrever é algo sério.
Não basta colocar uma palavra depois da outra, e achar que é um
poema ou um conto. Quem faz a pauta do Prosa e Verso? são as editoras ou os jornalistas
de O Globo?
O que você acha? Esta história de que editora faz a pauta
é uma das maiores besteiras que ouvi. E ouço. As editoras dizem
o que vão publicar. E nós decidimos, com total liberdade, dar
o que achamos importante. Agora, querer que os suplementos não divulguem
o que está sendo publicado no Brasil é ridículo. Quem divulgaria
então? Só haveria anúncios? E quem diria o que contém
aquele livro para o leitor? O anunciante? É preciso um crivo, não?
um crivo jornalístico. Quais os pontos fortes do caderno cultural em que é editora? O
que vocês cobrem e não tem espaço no Mais, da Folha? Qual
a diferença do Prosa e Verso e os outros?
Eu faço o Prosa & Verso a partir de minhas escolhas e a de meus
companheiros, Manya e Paulo Roberto Pires, e não fico pensando no que
está sendo feito pelos outros, para não enlouquecer. Vou pelo
meu feeling, dando prioridade à prosa, ficção, e ao verso.
Gostaria de ter espaço para espelhar bem todos os campos da literatura,
nacional e estrangeiro, clássicos e estreantes, e poder também
dar matérias sobre sociologia, história, psicanálise, economia,
negócios, o vasto campo das ciências humanas e do conhecimento.
Gostaria ainda de poder fazer um caderno inteiro sobre literatura infantil.
Mas não posso. Sem anúncio não posso aumentar o caderno.
E os editores querem matérias e resenhas sem arcar com o custo do anúncio,
o que resulta em menos espaço e menos resenhas, atingindo o próprio
interesse dos editores.. Quais os poetas e os escritores fazem a sua cabeça?
Poeta, Manuel Bandeira e Fernando Pessoa. Li o Gullar recentemente, todo
ele, para escrever uma matéria, e gostei de sua vitalidade e transparência.
Baudelaire, Rimbaud, Blake, Eliot, Dylan Thomas e Yeats. Escritores, Balzac,
Balzac, Balzac e Thomas Mann. Machado de Assis, Graciliano Ramos e Eça
de Queiroz. Dostoievski e Shakespeare. George Eliot e Virginia Woolf. Quem é o escritor brasileiro? Quais suas qualidades e seus defeitos?
Existe isso, o escritor brasileiro? O bom escritor é local, regional
e universal. A arte não está presa dentro de países. Você
pode ter nascido no interior do Piauí ou na favela do Borel, que se fizer
um livro com emoção, palavras carregadas de sentimento ou desespero,
este livro poderá ser lido e entendido em qualquer lugar do mundo, na
Cidade de Deus, no Himalaia ou na Terra do Fogo. Agora, se você quer uma
diferença, eu diria que o escritor brasileiro, fora algumas poucas exceções,
ainda é um ser muito desrespeitado e marginal já que sem educação
o amor aos livros fica restrito a um segmento pequeno da população.
Com isso, é raro o escritor, no Brasil, que pode viver de sua obra. Quais as revistas literárias mais interessantes da atualidade?
Elas são uma "concorrência de conteúdo" com os
cadernos culturais?
Há espaço para revistas e para jornais. São segmentos
diferentes. São poucos no país que têm dinheiro para comprar
um jornal e várias revistas por mês. Quanto mais revistas culturais,
melhor. E quanto mais cadernos culturais, melhor. É preciso abrir espaço
para o livro. Com a criação do Prosa e Verso o Segundo Caderno pouco
fala de literatura. Como encara tal fato?
A equipe é pequena - somente três pessoas - e o Prosa e Verso
já é muita responsabilidade para o time de livros do Globo. Mas
sempre que é possível, quando temos tempo ou urgência de
que saia uma matéria, abrimos espaço para o livro no Segundo Caderno,
cujo editor é um escritor e tem o maior prazer em divulgar autores e
livros. Você não concorda que, muitas vezes o Prosa e Verso é
Prosa e Prosa? O que falta para a poesia tornar-se mais atrativa pros meios
de comunicação?
Não é verdade. Os poetas também estão presentes.
Demos uma capa para o João Cabral, no dia do aniversário dele,
fizemos uma edição enorme para Vinicius e para o livro novo de
Gullar. Emily Dickinson também ganhou capa. Torquato Tasso foi capa e
a Divina Comédia ganhou uma matéria enorme. E há sempre
resenhas sobre livros de poesia, de Salgado Maranhão, Pedro Lyra, Moacyr
Félix, Suzana Vargas, Dora Ferreira da Silva, Olga Savary, etc e tal.
É preciso apenas ter o fato ou o livro. Você poderia dizer que
falta espaço para estreantes em poesia, o que talvez fosse mais correto.
Mas o problema, neste caso, é a falta de espaço, já que
não há espaço suficiente nem mesmo para quem é consagrado. Como diz o Affonso Romano de Sant'anna, os poetas invadiram a internet.
É o fim do livro, do jornal, da revista no seu formato atual? ou o computador
será apenas mais um meio de comunicação?
O computador e a Internet nunca matarão o livro, o prazer de manusear
páginas, ler confortavelmente numa poltrona ou na cama, antes de dormir.
A Internet, ao contrário, permite a criação de uma biblioteca
universal de referência, onde o leitor encontrará informações
sobre os livros que ama. Mas duvido que quem goste de ler poesia terá
o mesmo prazer lendo uma poesia numa fria tela de computador em substituição
à quente folha de um livro. Muitos escritores brasileiros reclamam da falta de divulgação...
afirmam que são preteridos em prol dos estrangeiros... Como dar voz ao
escritor brasileiro?
Essa é uma reclamação contumaz, assim como dizer que
o suplemento só divulga o que querem as editoras. Eduardo Bueno é
um fenômeno nacional. Paulo Coelho também. Toda a coleção
Plenos Pecados da Objetiva vendeu e vende bem. Há best-sellers nacionais.
Há best-sellers estrangeiros. Durante quatro números seguidos
demos capa para quatro autores nacionais, como Autran Dourado, Ana Maria Machado
e Ariano Suassuna. Às vezes ocorre também uma sucessão
de capas com estrangeiros, por problemas acidentais - pautas mais urgentes,
mas sempre tentamos dar espaço aos dois, tendo a preocupação
de balancear. Se existe uma crítica a fazer neste campo, do meu ponto
de vista seria o seguinte: eu acho que as editoras dão preferência
aos estrangeiros, mesmo novos ou estreantes, por terem a mística de serem
estrangeiros, uma espécie de colonialismo cultural. Ou um problema de
mercado, compra de títulos no exterior em pacote. Mas não creio
que haja esta preferência nos suplementos literários. E mesmo se
dissermos isso a um editor, ele reagirá, não aceitando a crítica,
já que luta para ter em seu catálogo bons autores nacionais. Por que as resenhas são sempre elogios. É uma tática
de marketing? Não é pequeno o espaço para discutir a realidade
literária?
Eu sou contra a crítica destrutiva. Se gosto de um livro, falo bem
dele. Geralmente até só escrevo sobre o que gosto. São
poucos os brasileiros que lêem. Se tudo o que é publicado você
diz que é uma porcaria, vai estimular menos ainda o leitor de revista
ou jornal a ler um livro. Eu quero atrair o leitor para o livro. O bom livro.
Por isso, quando acho que um livro é muito ruim para merecer uma resenha,
não peço a resenha. Não tenho espaço para isso.
Mas às vezes um resenhador vê pontos bons e pontos ruins em um
livro. E escreve isso, sem problemas. Quanto a discutir a realidade literária,
trata-se de uma bela frase. Todos sabemos como o livro é caro no Brasil
- já fizemos mais de mil matérias sobre isso - e como o escritor,
e sobretudo o poeta, são maltratados, já que o que vende no mercado
nem sempre é o que tem mais qualidade. Agora, eu não promover
discussões literárias bizantinas. Só as que valerem a pena.
E acho até que discussões estéticas ou artísticas
deveriam estar mais no Segundo Caderno, e não no Prosa e Verso. Caso,
por exemplo, da matéria sobre o livro da Heloisa Buarque de Holanda,
que saiu no Segundo. O Idéias, que tem este título, por exemplo,
pode ter mais espaço para o debate, não só literário.
Prosa e Verso deve dar espaço ao poeta e ao escritor, sobretudo os brasileiros,
já que são poucos os espaços existentes para eles.
Um disco é quase o preço de um CD. Poucos compram livros.
O que um CD tem demais e falta ao livro?
É mais fácil ouvir música, mais intuitivo, do que
se dar ao trabalho de ler um livro, não acha, não? Uma pessoa
que não estudou nada, não sabe quem é Rimbaud ou Carlos
Drummond de Andrade, será facilmente impregnada pelo som. A música
atinge o cérebro das crianças ainda não letradas. Bebês
dormem com acalantos. E se agitam com um rock. Já a palavra, a palavra
escrita, exige mais do cérebro humano. Qual o papel de um jornalista para a sociedade?
Informar. Com liberdade de expressão. Para que a sociedade possa
fazer suas escolhas livremente, tendo ciência dos fatos e acontecimentos.
Sem ser enganada. Uma pessoa livre, e informada, vive melhor. Luta por seus
direitos. Exige. Vota melhor. Grita.
(2002)
375 visitas desde 16/11/2007
|