Entrevista com:
- Caio Meira -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Pequena nota biográfica: Nascido em Goiânia, 1966, Caio Meira veio
para o Rio de Janeiro em 1984. Formou-se e fez mestrado em psicologia na UFRJ.
Atualmente, faz o curso de doutorado em poética na Faculdade de Letras
da UFRJ. Traduziu o "Livro Negro do Comunismo", (Courtois, S. e outros,
Bertrand do Brasil, 1999, 917 pp.). Publicou dois livros: "No oco da mão"
(UERJ, 1993), e "Corpo solo", (Sette Letras, 1998).
"O poema está à vista / ao alcance da mão".
Aonde mora a poesia? É possível existir poema sem poesia?
Curioso você ter perguntado "aonde" mora a poesia
e não "onde" mora a poesia, como seria de hábito.
Penso que essa pequena licença gramatical é oportuna por indicar
muito do que pode significar um lugar próprio para a poesia. "Aonde"
aponta para um deslocamento, no sentido de "aonde se vai", para
que lugar se direciona o movimento que visa alcançar algo, no caso
da sua pergunta, uma morada. Normalmente, "aonde mora" seria a
união de duas noções em aparência antagônicas,
a da busca e do repouso. Mas na poesia há sobretudo engajar-se por
regiões paradoxais, fronteiriças: a eloqüência
do silêncio, vôo e pouso conciliados num mesmo movimento, nascimento
imbricado na morte, ou seja, através dessa fissura da linguagem,
apresentar o que já está escapando. Um bom poema está
sempre "à vista", diante dos olhos, ao alcance da mão.
A simplicidade que os grandes poetas conseguem dar a seus poemas faz com
que a poesia surja como o objeto que salta diante dos sentidos como se viesse
do nada, como se nascesse ali, naquele instante que teima em perdurar. Mas
quem conhece os avessos da poesia sabe que se trata principalmente de um
investimento total, da vida inteira, com seus desejos e instantes, felicidades
e tristezas, destinos e acasos. Fazer o simples gesto da mão para
alcançar o objeto-poema que "está à vista"
implica, na maioria das vezes, todos os outros movimentos e sentidos da
vida do poeta. Há no poema, antes de mais nada, uma concentração
dos motivos da vida que o criou (vida que passa a ser criada por ele). Por
isso o poema é esse ser complexo, ao mesmo tempo visível e
invisível, próximo e distante, que está dito mas é
indizível, que tem sua face clara, mas há sempre nele algo
que escapa (o poema existe para ser relido, previne Bachelard), algo obscuro.
Retomando a questão inicial, a casa da poesia situa-se na instabilidade
de morar no próprio movimento de partir, nesse estar/não-estando
que encontra "abrigo na hora instável da madrugada", isto
é, morando "aonde" prevalece o movediço e o mutável.
O lugar de repouso do poeta se dá justamente na instabilidade que
ele consegue gerar em seus poemas, uma vez que viver a intensidade da poesia
é deparar-se com a sentença rimbaudiana: "trata-se de
chegar ao desconhecido através do desregramento de todos os sentidos".
O que seria esse desconhecido senão o lugar próprio da poesia?
Morar no desconhecido, estar continuamente avançando na direção
do desconhecido, é "aonde" mora a poesia.
Quanto à relação entre poema e poesia, é fácil
verificar num "sebo" do centro da cidade quantos poemas sem poesia,
quanta palavra impressa em forma de verso e rima que não significa nem
significará nada para ninguém. Para ir mais além, devemos
abandonar a questão de haver ou não poesia num determinado poema
- posto que não há juízos nem juízes para respondê-lo
-, perguntando-nos se há uma poética intrínseca ao que
está sendo feito ou lido. A força poética não está
em um ou dois poemas bem feitos, ela depende muito mais da devoção
à invenção, não de versos, nem mesmo de imagens,
mas invenção de mundos, de todo um mundo ao qual só se
tem acesso através de uma poética, de um pensamento que se dê
na forma de um poema. O bom poema oferece uma passagem a um mundo poético;
quando lemos um poema de um Ferreira Gullar, por exemplo, temos a nítida
a impressão de que entramos em seu mundo, onde o que vale é o
que foi inventado por ele e por nenhum outro.
No poema "Pegador" (No oco da mão, UERJ, 1993), o sol está
dentro da gaveta. Um sol enclausurado pode iluminar a palavra ou o tempo é
quem mostra o poder e a qualidade de um texto?
Relendo o poema, não tive a sensação de que
o sol estaria enclausurado dentro da gaveta; não acho que em "Pegador"
trate-se de um sol claustrofóbico, aprisionado. Penso antes que "sob
o sol / dentro da gaveta" aponta para o que está intrínseco
a esse poema, a meu ver, o corpo-a-corpo. Aliás, acho que a questão
de todo o livro "No oco da mão" é essa, a dos poemas
obtidos no corpo-a-corpo com a cidade, com o mar, "com os punhos cerrados
/ na arena", onde "cada braçada vence uma tempestade".
Estar "sob o sol / dentro da gaveta" não é em absoluto
esconder-se desse sol, nem escondê-lo ali dentro; ao contrário,
indica que nem mesmo dentro da gaveta, junto aos papéis e poemas
que esperam para ser escritos, deixa-se de estar sob um sol cerrado, no
corpo-a-corpo acalorado com as matérias da vida que se tornarão
ou não poemas. É nesse sentido que o poema se torna um pegador,
na acepção própria do boxe: na arena, vale o confronto
de punhos erguidos, vale a esquiva para evitar o golpe, vale a dança
em torno do adversário para conhecê-lo melhor, vale agarrá-lo
para recuperar o fôlego e o equilíbrio, vale ir à lona
e ter de lutar de novo, em outra oportunidade, vale até jogar a toalha
quando se sabe que um adversário vai demoli-lo inexoravelmente, só
não vale passar todos os "rounds" fugindo dele. Como diz
a sua pergunta, o sol, mesmo dentro da gaveta, ilumina a palavra poética,
mas também a aquece, a desidrata, a queima.
Quanto ao tempo, o sol é o tempo, em todos os seus sentidos, o meteorológico,
o do transcorrer da vida, o do amadurecimento dos filhos e frutos. Graças
ao sol, o tempo não se reduz a uma entidade totalmente abstrata. Todos
os poemas transcorrem sob o sol, mesmo estando dentro de gavetas, de estantes
ou de livros, ou ainda nascente na cabeça ou na ponta da língua.
Poder lidar com esse sol inelutável e perseverar na existência
dá qualidade e valor a um texto e a uma vida também.
A rua é uma constante na sua poesia e tudo que ela representa em
oposição ao claustro. Como é falar da rua e de Emily Dickinson?
O ser humano é um paradoxo ambulante?
A rua só se opõe ao claustro em aparência! Um
sujeito pode ser prisioneiro de uma rua ou de uma cidade. Outro pode passar
seus dias numa cela de prisão sem ser claustrofóbico. A claustrofobia,
e creio que os psiquiatras corroborarão essa afirmação,
está na cabeça e na alma de quem se sente aprisionado. A rua,
em minha poética, não se opõe à casa, ao quarto.
Ao andar pela cidade, ao buscar nas ruas os poemas e a vida, não
estou fugindo de uma prisão qualquer, estou apenas dirigindo-me ao
lugar em que a vida pulula em todas as suas formas e velocidades, na diversidade
plena de movimentos sem antagonismos. Depois, ao voltar para casa, ao entrar
em meu quarto, em meu escritório de 8m2, não me sinto apartado
das ruas, que continuam a agir em mim, em minha fala e em minha escrita.
Veja o caso extremo da Emily Dickinson. Ela, que passou boa parte de sua vida
"enclausurada", isto é, vivendo praticamente em seu quarto
e só saindo para cuidar de seu jardim, escreveu cerca de 1770 poemas,
entre os quais não se respira nenhum tipo de claustrofobia. Pelo contrário,
a intensidade alcançada por sua escrita - em 1862, ela escreveu 366 poemas;
em média, mais de um poema por dia! - a leva a regiões que poucos
alcançaram. E mesmo assim não creio que sua existência tenha
sido paradoxal, pelo menos, mais paradoxal do que a de qualquer outro. No caso
do poeta, não há uma fórmula, um caminho demarcado para
atingir o sublime. Seja no rebelde viajante Rimbaud, seja na aparente calma
vida monástica de E. Dickinson, nos dois casos, alcançou-se um
extremo, chegou-se a essa região fronteiriça com o desconhecido
- lugar próprio da poesia. Dentro do quarto de uma cidadezinha da Nova
Inglaterra ou perambulando pelas ruas sórdidas de Londres ou Paris, quem
pode dizer quando vai se dar o encontro com o poema?
CORPO SOLO (Sette Letras, 1998) é uma radicalização
de NO OCO DA MÃO? é possível entender CORPO SOLO sem antes
ler NO OCO DA MÃO?
Em todos os sentidos, "Corpo solo" é uma radicalização
de "No oco da mão". Em primeiro lugar, porque no livro de 1993
há uma reunião do que de melhor eu havia feito até então.
Ainda que se possa discernir suas linhas poéticas principais, trata-se
ali de uma coletânea de poemas. Já os poemas presentes em meu "Corpo
solo" foram pensados em função do livro. Ao contrário
de "No oco da mão", no qual os poemas antecederam o livro,
em "Corpo solo" foi a presença do livro que antecedeu a existência
dos poemas, ou pelo menos interferiu em sua criação. Pode-se dizer
que os poemas de "Corpo solo" pertencem a um projeto poético
que é de fato a própria existência do livro. Esse é
um aspecto. Além disso, se em "No oco da mão" está
em jogo a descoberta do corpo-a-corpo da palavra com a cidade e com a vida como
principal veículo para a minha escrita, em "Corpo solo" esse
corpo-a-corpo não é mais um ponto de partida, mas a sua realização,
a sua efetivação. Os poemas do "Corpo solo" são
frutos da experiência de um "solo de corpo", seja na rua, seja
em casa, seja na praia, seja apenas na imaginação. Respondendo
mais diretamente a sua pergunta, o que está em germe em "No oco
da mão" realiza-se em "Corpo solo". Nesse sentido, ler
o livro de 1993 antes do livro de 1998 ajuda a mostrar que caminho foi percorrido
para se chegar ao que há de maduro em "Corpo solo", ao solo
de corpo da minha escrita.
No poema VELOCIDADES PARA PASSEIO PÚBLICO, do livro CORPO SOLO, quando
o não dito é mais importante que o discurso aparente?
Não só para esse poema, mas para todo o livro, trata-se da experiência
do corpo enquanto matéria e superfície em contato com outras matérias
e superfícies, explorando as misturas decorrentes, os avizinhamentos,
o embaralhamento de limites e fronteiras. Há sobretudo uma tentativa
de equivocar o limite que separa o corpo da cidade, ampliar esse limite, recuá-lo,
e principalmente estar em contato com essa região. Em vez de conhecer
os meus limites, quero, ao contrário, desconhecê-los, provocá-los,
instigá-los, fazer com que eles não se tornem uma casca ou caparaça
entre mim e o mundo, mas ao contrário, que essa fronteira, que é
um pórtico, permaneça permeável e móvel. Talvez
"velocidades para o passeio público" seja um de meus poemas
em que isso aparece mais radicalmente, pois não há ali nenhum
discurso sobre esse limite, isto é, o poema não fala sobre isso,
ele apenas se torna a mobilidade dessa fronteira sendo experimentada. Trata-se
de um poema superficial, no sentido de haver ali mais do que a experiência
da superfície, do atrito entre as várias camadas de superfícies
materiais - mas também imateriais -, umas em contato com as outras: "passo
espremido entre paisagens, fibras de aço, dobra de carne, embalagens
de plástico"; ou então: "um pico de morosidade assalta-me
o torso, desoculta intervalos, espaço de praça e beco". Não
há nesse poema nenhuma pretensão de ser mais do que uma experiência
dos limites entre o corpo e a cidade, entre o homem e o mundo; de fato, o não-dito
ali presente, o seu indizível, não é um discurso sobre
o limite, mas o próprio limite em movimento.
"arrepios reverberam (...) / barulhos (...) atravessam o asfalto //
transeuntes engolem breu na areia da praia, / um silêncio corta (...)
/ (...) súbitos ruminam (...)". A sua poesia é uma poesia
móvel. O seu poema é uma avalanche? Como diria o Titãs,
tudo acontece ao mesmo tempo agora?
Mas toda poesia é móvel! Faz-se poesia levando algo
a seu extremo, ao ponto máximo do seu ser, mas também à
região desconhecida, fronteiriça, onde se dá a separação
com outros corpos, outra matéria, outro espírito. "Extremo",
nesse caso, significa ao mesmo tempo o auge e o fim. O poeta se esforça,
levando alguma coisa ao seu extremo. Nesse sentido, a poesia não
pode deixar de ser móvel, pois na imobilidade não há
surpresa, não há espanto, não há susto. Todo
bom poema é imprevisível, pois não há como anteceder
seus movimentos, prever o seu destino. Ao ler um bom poema, somos movidos
por ele, somos arrastados para uma outra região, para um outro mundo.
E é por essa via que o poema pode tornar-se uma avalanche, quando
significar um movimento violento que arrasta consigo tudo o que encontra
pela frente. Muitos poemas e poetas que li tiveram sobre mim esse efeito
de avalanche: Ferreira Gullar, Emily Dickinson, Arthur Rimbaud, Edmond Jabès,
Alberto Pucheu, Manoel de Barros e tantos outros. Com eles fui e permaneço
sendo arrastado para o meu desconhecido, para o lugar em que me desconheço,
para o portal do meu crescimento poético.
Seguindo a indicação bachelardiana, sabemos que o instante do
poema está em descontinuidade permanente tanto com o instante precedente
quanto em relação ao instante que se segue. Tudo o que acontece
na poesia cria seu próprio tempo, e acontece de forma diversa da cotidiana,
quando as coisas se ligam umas às outras previsivelmente, quando se pode
antecipar os acontecimentos. Em poesia não há antecipação.
Esse agora a que se refere a letra da música dos Titãs, é
justamente o tempo que se diferencia, que se distingue e perdura imprevistamente
em nosso espanto.
"e nunca mais houve o sétimo dia" está escrito num
verso do livro CORPO SOLO. O que seria o sétimo dia? O tempo nasceu no
sétimo dia?
O sétimo dia bíblico foi o dia do descanso, do repouso depois
da criação. Mas creio tratar-se de um equívoco. Quem pode
criar verdadeiramente alguma coisa e depois sossegar, isto é, sair do
âmbito e das conseqüências do que foi criado, estar, mesmo
que por um breve período, livre do açodamento próprio à
criação? Contos e histórias fantásticas estão
repletos de exemplos de quando a criatura se volta contra o seu criador, que
pensava poder descansar depois de criar, estar impune ao ato de criar. Quem
cria abole no mesmo ato o seu sétimo dia. É possível a
um pai deixar de ser pai, mesmo que por um instante, mesmo que sua criatura
pereça? Paternidade significa esse engajamento perene, eterno, que não
se desfaz com o tempo. Como dizem, amor de mãe (e de pai) não
tem limites, não se esgota. Para o poeta, não há sétimo
dia. O poeta não tira férias, não se isenta. Alguns poetas
acordam sobressaltados à noite com frases ou palavras marcando sua presença.
Outros andam quilômetros em busca de soluções, ou mesmo
sob a égide de um nascimento repentino. Mesmo Rilke, ao ficar mais de
uma década sem escrever poesia, não repousava: algo de maior estava
sendo produzido nele, sendo gestado silenciosamente sob a aparência de
um descanso. As "Elegias duinenses", dez anos depois de iniciadas
e logo interrompidas, foram concluídas em poucos dias. E em seguida vieram
os "Sonetos a Orfeu". Durante todo esse período de aparente
inatividade, não havia qualquer repouso. Dez anos foi o tempo necessário
para gerá-los. Do ponto de vista poético, não há
sétimo dia, não há como não ser instigado, aguilhoado,
pelas tentações da criação e da criatura. Nesse
sentido, o tempo não nasce do sétimo dia, mas do próprio
ato criador, já que não há tempo possível antes
da criação.
No poema GARE DU NORD estar sempre chutando o pau da barraca é uma
forma de viver intensamente? As dificuldades forjam bons poemas?
Dois escritores inspiraram fundamentalmente esse poema: Arthur Rimbaud e Henry
Miller. São dois exemplos supremos de levar uma existência poética
a seu extremo máximo. Quem passou por suas obras não permaneceu
ileso, foi arrastado por essa "avalanche", utilizando-me da imagem
de sua pergunta anterior, que é por exemplo o "Trópico de
Câncer" ou "Uma estação no inferno". Os dois
estavam continuamente "chutando o pau da barraca", termo que no poema
quer dizer bem mais do que a provocação ou a rebeldia juvenis,
já que está ligado a um destino de "aridez, deserção
e desperdício". "Estar sempre chutando o pau da barraca"
aponta para o contínuo ultrapassar de suas próprias conquistas,
o que só se pode conseguir não estando fixado em fórmulas
ou estilos. Trata-se de uma convocação inapelável pelo
desconhecido, pela experiência do desconhecido e sua transformação
em escrita. Para os dois, ser escritor não era uma profissão,
mas uma modalidade de ser, uma vibração que impele ao "ócio,
à fuga, à fome", a uma forma de vida que tem de ser "marginal",
no sentido de que está sempre à margem de si própria, vizinha
dos seus limites. Importa frisar que em ambos os casos não se tratava
de uma ligação imaginária ou imaginada com essa existência
à margem, era algo vivido, experimentado. Para mim, na condição
de escritor e de poeta, cabe-me também não estar apenas imaginariamente
identificado com essa revolução, no sentido que não basta
e nem mesmo tem valor repetir as experiências rimbaudiana e milleriana,
mas sim procurar na vida e na escrita a minha própria margem, o meu próprio
desconhecido, e transformá-los em poesia.
Em GARE DE L'EST, mesmo afirmando que não volta atrás, não
é o passado um material nobre para a construção de uma
poética própria?
Do mesmo modo que não se está ileso à ausência
do "sétimo dia", não se pode "voltar atrás
nas cicatrizes, nas tatuagens e nos dentes que já se foram".
Criar tem esse imperativo que obriga a caminhar para a frente, a chutar
continuamente "o pau da barraca", a não se amarrar e nem
se fixar em suas próprias conquistas. Criar implica transformar,
deformar, alterar o real e a realidade. Nesse sentido, o passado, como qualquer
outra coisa que se submeta à experiência poética, pode
constituir-se, como você disse, num material para a construção
de uma escrita própria, desde que surja como deformação
ou transformação. Mas nunca como um material "nobre".
A poesia - pelo menos a poesia que me interessa - por ter esse apelo pagão,
essa convocação profana, lida com a nobreza apenas para mundanizá-la,
dessacralizá-la.
Mas há, no que tange a memória, um outro aspecto ainda mais importante.
Para quem percorre o caminho da poesia, existem inúmeras armadilhas a
serem ultrapassadas. A primeira delas é o uso de trocadilhos e jogos
de palavras. Muitos são os poetas e as poéticas que permanecem
nesse que me parece ser um nível muito primário da escrita. A
segunda armadilha é o apelo à memória, à infância,
ao passado, como imagens que bastariam ser mencionadas para trazer à
tona uma "aura" poética. Ora, a poesia, por ter uma ligação
radical com o presente, não pode ser mais do que a exposição
crua desse presente e de suas entranhas. O tempo da poesia não pode ser
outro que o instante presente, esse instante que não passa, que desafia
a continuidade e teima em permanecer. Referir-se ao passado por si só
não leva à poesia, não traz poesia, apenas copia - e cópia
não é poesia - ou evoca imagens e sensações que
outrora tiveram valor pessoal mas que não apresentam nenhum relevância
poética propriamente dita.
Escrever na busca de uma linguagem, criar uma linguagem à medida
em que o poema está sendo escrito é um paradigma da poesia pós-moderna?
Obviamente, sua pergunta se refere ao fato de atualmente não
haver modelos poéticos preestabelecidos, isto é, para a poesia
contemporânea não prevalece um cânone poético
a ser seguido. Cada poeta inventa suas próprias soluções
para questões que não podem nem mesmo ser postas lado a lado.
Mas, para ir além, há algumas considerações
de extrema importância a esse respeito. Não creio que se possa
falar em paradigma poético. O primeiro sentido de paradigma é
"modelo padrão". Em nenhuma medida pode-se assimilar a
escrita a um modelo ou a um padrão, já que se trata antes
de mais nada de criar, isto é, fazer surgir o novo, o que não
está previamente estabelecido. Mesmo quando paradigma quer dizer
algo que se repete, modelos que permanecem orientando durante certo tempo
a busca de uma geração, e isso efetivamente acontece quando
se examina uma "geração poética" como a de
22 ou a de 45, importa muito mais considerar as soluções particulares
de cada poética do que as que foram comum a todos os membros do grupo.
Pode-se, por exemplo, assimilar a poética de Drummond ao paradigma
de 22 ou João Cabral ao de 45 sem empobrecer suas obras?
Quanto à busca particular de uma linguagem enquanto se escreve o poema,
trata-se do imperativo poético propriamente dito, mas pelas razões
opostas àquelas apontadas por sua pergunta. Pois se há de fato
a criação de uma linguagem, ou melhor, se simplesmente há
criação, não pode haver nenhum paradigma envolvido, já
que criar é justamente afastar-se de modelos e padrões, e isso
não somente no que diz respeito à poesia contemporânea,
mas toda boa poesia de qualquer tempo.
O que faz alguém ser poeta?
Ao contrário do que possa parecer, não se trata de algo que o
poeta tenha a mais. O poeta não é nem mais culto, nem mais inteligente,
nem mais sábio do que os demais homens. Para mim, ao contrário,
a poesia vem de uma fissura, uma rachadura, de algo que não ele não
tem e que não terá jamais. Como epígrafe aos nove poemas
de "prosa do chão", utilizo uma frase do conto-depoimento "The
Crack-up" de F.S Fitzgerald: "há várias maneiras de
um homem rachar". O poeta é um homem rachado, fissurado, e a poesia
vaza por essa rachadura. Escolher a poesia, ou ser escolhido por ela, implica
abraçar um funcionamento distinto, poder-se-ia dizer anormal, no sentido
daquilo que foge à norma. O poeta é aquele que busca não
funcionar de acordo com modelos preestabelecidos. Ele inventa um funcionamento
próprio, que invariavelmente parece aos demais como bizarro, heterodoxo.
Quem convive com a poesia, quem existe em função da poesia, percebe
e cultiva essa rachadura, tirando dela as experiências que estão
na base de sua escrita. Veja-se Artaud, por exemplo, que soube vasculhar como
poucos essa fissura, tateando os limites entre sanidade e insanidade; ou o próprio
Fitzgerald, que coloca a descoberta de sua condição de rachado,
"prematuramente rachado", como o ponto nevrálgico de toda a
sua vida. Depois de rachado, não só o homem não é
mais o mesmo, mas todo o mundo e a própria vida não são
mais os mesmos. Todas as coisas do mundo passam a ter funções
e valores diferentes e se mostram de maneira distinta para quem rachou e conseguiu
manter-se suficientemente inteiro para não soçobrar na loucura.
Por isso, há várias maneiras de um homem rachar. A convivência
com a própria fissura dá a medida e o valor de uma poética.
Qual uso faz da internet?
Relativamente à poesia, penso que a internet pode funcionar como uma
ampliação dos campos de descoberta, de investigação,
de rastreamento de diversas e diferentes abordagens da poesia. Mas, a meu ver,
isso deve ocorrer de uma maneira quase que subversiva ao uso comum da rede.
Normalmente, o ciberespaço é a forma mais radical da descartabilidade
que assola a cultura de uma forma geral. Para ir de uma página a outra,
basta um clique, e isso sem que haja qualquer tipo de comprometimento, de repercussão
interna, íntima. Ora, a poesia não pode funcionar dessa maneira,
pois a imagem poética é muito mais uma interrupção
da continuidade do que um deslizamento tranqüilo entre campos diversos.
A poesia não faz "rede", não faz "teia", ela
irrompe quebrando a previsibilidade dos encadeamentos contemporâneos.
A "pedra" cabralina não pode ser um hiperlink ou hipertexto
para a "pedra" drummondiana. Há um abismo, um universo entre
essas duas pedras.
Tenho uma página na internet
onde se pode ter acesso ao conteúdo dos meus dois livros. Meu objetivo
é abrir e ampliar a possibilidade de uma descoberta, de que alguém
que esteja navegando, deslizando, pela rede, interrompa ali o seu caminho,
isto é, que possa acontecer uma interrupção - ou uma
irrupção - nesse deslizar e que desta maneira a poesia cumpra
com o seu destino de ruptura.
Tem alguma epígraf e que o acompanha?
Várias são as palavras e frases que nos acompanham e que nos
guiam, de modo muitas vezes obsidiante. De fato, somos verdadeiramente assombrados
por essas frases. A já citada "há várias maneiras
de um homem rachar" esteve presente durante boa parte do processo de elaboração
de "corpo solo". Para o meu próximo livro, há em especial
uma frase que me persegue, e que eu persigo, encontrada numa introdução
à obra de Emily Dickinson. Robert N. Linscott comenta que ela escreveu
como Thoreau quis viver: "close to the bone". Essa expressão,
de difícil tradução, concentra minha principal preocupação
atual: a de alcançar uma escrita que se faça não somente
a partir do corpo, mas a partir do osso, do nervo, do tutano. O corpo, fendido,
como na fratura exposta, expõe o nervo que sobe à flor da pele.
Atingir essa escrita do nervo, escrever não mais com a ponta dos dedos
ou com a mão, mas com o tutano dos meus ossos, viver e escrever "close
to the bone", é sob a égide dessa epígrafe que me
movimento agora.
Qual o papel do escritor na sociedade?
Nenhum. Por tudo o que disse nas respostas anteriores, depreende-se que não
há papel possível para o escritor. Primeiro porque em todos os
sentidos do verbo criar não cabe o de cumprir um papel, isto é,
ter uma função preestabelecida (se não for preestabelecido
não é função). Por exemplo, o ator representa um
papel no teatro ou no cinema. Ele estuda suas falas e as repete. Se há
criação no trabalho do ator, esta se dá justamente quando
ele consegue escapar ao papel, dizendo o que não está dito através
do que já foi dito, dando filigranas ao que está sendo repetido.
Para o escritor, repetir, cumprir um papel, é ir na direção
oposta a da criação, pois não há a presença
da transformação, da deformação, da invenção.
Dizendo de outra maneira, se o escritor cumprir um papel na sociedade ele imediatamente
deixa de fazer o que há de mais primordial ao seu ofício, ou seja,
dar vazão à invenção, deixando sempre a porta aberta
para a entrada do desconhecido, Ora, se houvesse um papel para a poesia, seria
o da convivência com o desconhecido, com aquele de quem não se
pode dizer quem é nem o que é. O desconhecido, sabe-se da sua
presença, ou melhor, pressentiu-se que ele esteve presente, mas ninguém
pode dar-lhe um nome certo, dizer qual o seu endereço fixo ("aonde
mora"), identificar sua profissão verdadeira. Aliás, assimilar
a escrita ao contato com o desconhecido (com o estranho, na acepção
que a palavra tem em francês - "étranger", aquilo que
é ao mesmo tempo estranho e estrangeiro) indica o quão pouco ajuizado
é trilhar esse caminho, no sentido apontado pela sabedoria popular: "é
sempre perigoso convidar um completo desconhecido a entrar em sua casa".
(2002)
884 visitas desde 28/08/2007
|