Entrevista com:
- Braulio Tavares -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Nascido em Campina Grande (PB) em 1950. Família paterna cheia de jornalistas
e poetas. Uma das minhas irmãs, Clotilde, também escreve.
Estudei cinema em Belo Horizonte (1970-71), ciências sociais em Campina
Grande (1973-76). Toquei em banda de rock, fui professor do 2o. grau, fui repórter
futebolístico e crítico de cinema em jornais, fui ator e escrevi
peças de teatro-de-rua, ajudei a organizar festivais de repentistas,
traduzi muitos livros, escrevi roteiros para TV, fui puxador-de-samba em blocos
de carnaval cariocas, pesquisei literatura fantástica brasileira e estrangeira,
fiz shows voz-e-violão Brasil afora durante anos, publiquei mais de 10
livros, tenho mais de 40 músicas gravadas, 5 peças montadas profissionalmente.
Tenho uma filha de 21 anos, Maria Nayara, e um filho de 6, Gabriel. Estou casado
com Emilia Veras há 18 anos. Morei em BH e Salvador, e estou no Rio desde
1982. Torço pelo Treze de Campina Grande, Sport do Recife, Atlético
Mineiro e Flamengo do Rio.
Quando foi inoculado pelo vírus da literatura? Como eram estes tempos?
Quais as sensações que tinha?
Cresci numa família onde se lia muito. Ler, lá em casa, era algo
como respirar. Ainda hoje fico surpreso quando entro na casa de alguém
e verifico que não há uma estante de livros. Uma casa sem livros
é como um carro sem motor. A sensação-de-realidade que
eu experimentava ao leré mais forte do que qualquer droga, e a sinto
inteiramente, ainda hoje. Ler é como um hipnotismo, um fenômeno
mediúnico, um transporte do corpo astral (para quem acredita nisto).
Quando leio uma coisa, eu *vou* para lá.
Quais escritores influenciaram? Quais o influenciam hoje? Como vai a poesia
brasileira?
Não gosto de admitir influências, mas não é por
orgulho, e sim por bom senso. Qualquer sujeitinho pretensioso sai por aí
dizendo que é influenciado por Nabokov, Joyce, Balzac... No meu caso,
dependendo do que pretendo escrever, resolvo imitar A, B ou C, cujo estilo ou
"voz narrativa" me parece adequado para o que pretendo colocar no
papel. Mas não é influência, é apropriação
técnica. A poesia brasileira é uma espécie de floresta
tropical, onde dá de tudo: plantas, insetos, bichos... Sinal de saúde
verbal/cultural.
Qual o poema mais personifica a sua obra?
Nenhum, porque a principal característica de minha obra é fazer
poemas (contos, etc.) que pareçam ter sido escritos por pessoas completamente
diferentes. Portanto, nenhum deles pode exprimir isto isoladamente.
Como vê antologias dos "vinte mais", "dos com mais
futuro" etc?
Qualquer publicação é boa. Os critérios não
importam. Penso em editar antologias tipo "Assim escrevem os poetas com
menos de 1,80 m de altura", ou "Antologia dos Capricornianos",
ou "Os melhores 20 Poemas que começam com a letra J". Contando
que se publiquem bons poemas, tá legal.
Quantos livros publicou? Fale sobre eles?
Alguns livros de poemas com coisas magníficas e coisas que me fazem
morrer de vergonha, mas que não retiraria numa reedição,
porque sempre posso mudar de idéia. Um romance arrancado a fórceps
durante quase 4 anos, que ficou totalmente diferente do plano inicial, mas que
toca alguns temas profundamente importantes para mim. Ensaios sobre ficção
científica, que serão muito úteis aos pesquisadores do
próximo século.Folhetos de cordel com letras de canções,
que hoje revejo com saudade. Um livro de humor que vendeu mais de 30 mil e me
desobrigou de fazer sucesso novamente. E dois
livros de contos fantásticos que talvez sejam o melhor da minha produção.
Como utiliza a ficção científica na sua literatura?
Como pano-de-fundo para contar histórias meio grotescas, para experimentar
vozes narrativas, ou para bordar
estilisticamente temas já pisado e repisados. Posso afirmar que nenhuma
das minhas histórias de FC tem uma só idéia original. Tudo
é material reciclado, e digo isso com vaidade. "Ser original",
"ter sido o único a ter feito algo" é a maior bobagem
em literatura.
Quais os paralelismos entre Drummond e Augusto dos Anjos?
A visão desencantada do Universo e do destino do homem dentro dele.
No mais, são diferentíssimos.
Como vê a internet como meio de veiculação de cultura?
Algo comparável ao que foi o rádio como meio de veiculação
da música.
Qual o papel do escritor na sociedade?
O meu é A-4, mas tem gente que prefere tamanho ofício.
(2002)
278 visitas desde 10/10/2007
|