Entrevista com:
Aroldo Ferreira Leão |
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- Aroldo Ferreira Leão -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão para o Balacobaco
Aroldo Ferreira Leão fala de juazeiro com Rodrigo de Souza Leão.
A cena
O cenário é interessante. Com muita gente fazendo coisas bacanas,não
só em literatura como também em música, artes plásticas,
sociologia.
Primeiro, é bom que entendas o que é a minha região,
que conta com Petrolina e Juazeiro como principais cidades, divididas pelo
Rio São Francisco, o Velho Chico. De um lado está Pernambuco,
do outro a Bahia.
Estamos na área do polígono das secas. Há algumas cidades
circunvizinhas que são importantes para o desenvolvimento da região
como Senhor do Bonfim, Curaçá,Uauá, Casa Nova e Sobradinho
na Bahia e Lagoa Grande,Santa Maria da Vitória e Salgueiro em Pernambuco.
A título de curiosidade, em Juazeiro nasceu João Gilberto, com
sua musicalidade genial. Também de Juazeiro é Galvão,
poeta e letrista dos Novos Baianos.
Em Petrolina nasceu Geraldo Azevedo, que possui um trabalho musical na MPB
interessante. Voltando a falar do cenário poético, a região
possui uma quantidade de poetas enorme, muitos dos quais ainda inéditos,
o que não é novidade em um país como o nosso que pouco
valoriza a cultura. Há duas antologias importantes que retratam o panorama
poético da região.
Uma delas é a Poética Ribeirinha, lançada em 1998, organizada
por Elisabet Moreira, Mestre em Literatura pela USP, radicada em Petrolina
há mais de vinte anos,professora de Língua Portuguesa do CEFET
local, que traz em suas páginas, entre vivos e mortos, uma relação
de poetas bastante significativa que fizeram poesia na região até
1995. A outra antologia, lançada no ano passado, pela U.B.E.(União
Brasileira de Escritores/Núcleo Petrolina), foi Poetas em Rebuliço,
um perfil contemporâneo da criação poética no eixo
Petrolina/Juazeiro, contando com a participação de 33 poetas.
Quando me perguntas se há mais que Cordel na região, claro que
há, sempre houve.
Escreve-se de tudo.Crônicas, contos, romances, novelas, textos teatrais,
poemas de todos os tipos, desde versos livres até sextinas e coroas.
Rodrigo, é bom que entendas que o fato de o poeta estar no interior
do Nordeste não o deixa bitolado numa necessidade intermitente de ter
que fazer Cordel. Pelo contrário, o cenário é de todo
poeta buscar sua individualidade, sua forma melhor de se expressar, que ,
na maioria das vezes, não é a do Cordel. Na região do
Sertão em que moro, que é a do pólo Juazeiro/Petrolina,
com quase 500.000 mil habitantes, é bom que se frise isso, ainda se
vê a venda de Cordéis, principalmente na Feira da Areia Branca,
uma das principais Feiras de Petrolina. Talvez onde o Cordel seja mais lido
e vendido seja mesmo na região Juazeiro do Norte/Crato,cidades cearenses
unidas à paixão pelo Padre Cícero, distantes uns 300
quilômetros do eixo Juazeiro/Petrolina. Também na região
do Sertão do Pajeú, berço da poesia repentista, o Cordel
ainda é bastante lido,cultivado e apreciado. O fato de fazer sonetos
é que como poeta procuro sempre me cercar do que a literatura universal
deu de melhor. Então pra isso leio Dante, Petrarca, Mallarmé,
Rimbaud, Camões, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro,
Drummond, Bandeira, Augusto dos Anjos, Gerado Mello Mourão e até
de nomes que, talvez, não tenhas tomado contato ainda, como Rogaciano
Leite (que segundo Pinto do Monteiro, o maior repentista em todos os tempos,
fazia soneto de improviso) ou mesmo Cancão(João Batista de Siqueira),
que vivendo no Sertão do Pajeú escreveu versos tidos como clássicos
da mais alta qualidade. Todos os que te falei anteriormente compuseram sonetos.
Veja bem, todos eles, na sua grande maioria, fizeram sonetos na forma italiana
(dois quartetos e dois tercetos). Eu proponho e crio, sem quaisquer vaidades
ou sentimentalismos insossos, não só a criação
de sonetos na forma italiana, mas também na forma espanhola (dois tercetos
e dois quartetos), na forma inglesa (três quartetos e um dístico)
e também na forma que chamo de brasileira com dois quintetos e dois
dísticos ou dois sextetos e dois versos unos. Nos meus sexto, sétimo,
décimo e trigésimo livros publiquei mais de trezentos sonetos,
todos na forma italiana, onde os coloco, metrificados de uma até doze
sílabas (alexandrinos) e também os ponho em versos livres. Brevemente,
estarei publicando sonetos na forma inglesa. Entenda bem, não é
o fato de estar "isolado", no interior do Nordeste ou qualquer outra
região, que o poeta não está sintonizado com o mundo
que o cerca e com as coisas que se engalanam por aí afora. Sou potiguar,
nascido em Parnamirim, cidade conhecida como "Trampolim da Vitória"
e já morei em diversas cidades como Natal, Salvador, Campina Grande,
Niterói, Curitiba, e toda esta bagagem, do que vi e senti em cada uma
dessas cidades, trago-a na alma e procuro com isso crescer como gente e transformar
o mundo para melhor, se ainda for possível isso.
Tenho trabalhado muito há muito tempo. Desde 1995, quando lancei meu
primeiro livro, até agora, 2002, são trinta e três livros
lançados e participação em onze antologias a nível
nacional. Mesmo reconhecendo as inúmeras dificuldades pelas quais passa
o poeta no Brasil, desde a impressão de seu livro até a divulgação
do mesmo, acredito que venho,aos trancos e barrancos, doidamente doído,
movido pela única vontade de contribuir de alguma forma para o engrandecimento
moral e espiritual da humanidade, alicerçando meu caminho e amadurecendo
nas veredas da poesia. Em relação a última pergunta deste
tópico, há três universidades na região Petrolina/Juazeiro.
Em Petrolina ficam a FACAPE, universidade particular, abrangendo cursos como
Contabilidade e Administração e a U.P.E (Universidade de Pernambuco)
com cursos como Letras, Matemática e Pedagogia. Já em Juazeiro
existe a U.N.E.B (Universidade do Estado da Bahia) oferecendo, dentre outros
cursos, Filosofia e Agronomia. Segundo se comenta por aqui, a Universidade
Federal do Vale do São Francisco já possui espaço e autorização
do governo federal para funcionar, basta apenas que a coisa engrene de forma
limpa e definitiva, oferecendo um leque de cursos mais abrangente. Todas as
universidades que citei anteriormente oferecem cursos de pós-graduação
em diversas áreas,o que é interessante para a região.
Aroldo na Net
Cheguei a internet, definitivamente, em 1996, mas já tinha contato
com a mesma desde 1994. Na região Petrolina/Juazeiro, atualmente, existe
apenas um provedor. É o Portal do São Francisco, com muitas
informações interessantes sobre o que acontece no chamado Vale
do São Francisco.
Neste Portal tenho uma coluna onde escrevo contos e crônicas geralmente
ligadas a essência sertaneja de ver e viver as coisas.
A dificuldade de morar fora de um grande centro
A dificuldade, creio eu, é a de qualquer escritor, que vive no interior
e está limitado tanto em relação a distância dos
grandes centros como também a evidenciação de seu trabalho
na mídia em geral,que geralmente está presente nas capitais
do país.Há também o fato de existirem poucas gráficas,
poucos jornais, tornando ainda mais penoso a questão da edição
de um livro. Porém, como já te falei anteriormente,consegui
publicar, até agora, 33 livros, mesmo estando muitas vezes limitado
por inúmeros fatores que, talvez, inibissem qualquer poeta a buscar
não só a impressão de seu livro como também a
divulgação do mesmo. Entendo que a superação de
si mesmo, a todo instante, é um fluir necessário na alma de
qualquer poeta. Tenho vivido para a poesia esses anos todos e aprendi que
a persistência, a humildade e a vontade de ver nossa obra sendo discutida
e analisada requer paciência e muito trabalho. Às vezes leva
uma vida. Outras vezes leva um tempo bem maior.
Tantas vezes não dá em nada. Algumas vezes floresce e se ramifica
com força e sutileza. O importante é a certeza de que demos
o melhor de nós mesmos na conquista de nossos sonhos. Fernando Pessoa
no seu poema Mar Português diz "Tudo vale a pena/Se a alma não
é pequena/ Quem quer passar além do Bojador/ Tem que ir além
da dor". Penso que cabe a nós mesmos a ampliação
de nossos horizontes espirituais. Precisamos construir, com luta e carinho,
uma humanidade melhor. O tempo é agora.
Minha home page
A home page foi feita por Dio Fonseca, designer, que desde 1997 faz as capas
e a diagramação dos meus livros, juntamente com o webdesigner
Alexandre Gonçalves, carioca de Vila Isabel, que, por incrível
que pareça, veio morar aqui na região, desde 2000, porque conheceu
uma menina de Juazeiro via bate-papo na internet e acabou namorando e casando
com ela e, como conseguiu manter amizade com Dio, começou a trabalhar
com o mesmo. E se ficou amigo de Dio, ficou meu amigo também.
Daí surgiu a idéia da home page. Como Alexandre já trazia
um grande conhecimento sobre o assunto acabou encontrando em Dio uma parceria
perfeita. Fiquei entusiasmado com a idéia de possuir uma home-page
onde estivesse todos os meus livros para download e também meu CD,
lançado em 2001, onde de casa mesmo o ouvinte pudesse apreciar e verificar
a qualidade musical de minha obra. Na home page
existem treze livros para quem tiver interesse em conhecer meu trabalho literário.
Até junho, acredito eu, já estarão os outros vinte livros.
Meu CD, intitulado Sacolejos e Manejos,contém 14 forrós, todos
de minha autoria, onde procuro dar aos mesmos uma noção mais
profunda em relação ao conteúdo poético e harmônico
de cada canção. Na home-page há uma canção,
Bicho do Mato, que pode ser ouvida no formato MP3. O Portal do São
Francisco, provedor local, é quem hospeda a mesma.
(2002)
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