Entrevista com:
Antonio Naud Júnior |
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- Antonio Naud Júnior -
Entrevista concedida a Gustavo Atallah Haun
Antonio Naud Júnior nasceu numa lua cheia em Gêmeos, no sul
da Bahia. Passou a infância lendo comics, "As Mil e uma Noites",
clássicos ingleses, franceses, russos e assistindo "Túnel
do Tempo", na TV. Depois entrou numa longa viagem sem volta, colocando
o pé na estrada e escrevendo incansavelmente.
Publicou sete livros, três deles em Portugal. Em agosto próximo
lança mais dois, ambos pela editora baiana Via Litterarum: "Suave
é o Coração Enamorado" e "Pequenas Histórias
do Delírio Peculiar Humano". Faz parte também de "Contos
Perversos", antologia da Coleção Literatura Clandestina a
ser lançada em breve, com o selo da Câmara Brasileira de Jovens
Escritores (CBJE) - RJ.
Indescritível, a priori, é um escritor com frases surpreendentes,
em curtos-circuitos de idéias que nos incendeiam o cérebro, em
sínteses vertiginosas, em fórmulas crepitantes que riscam o céu
mental iguais a relâmpagos. Como uma criança incendiada de dons,
insaciável, perplexa com as coisas da vida, mas ensolarada por um sol
da meia-noite, frequentemente enternecida. Por isso sua literatura é
feita de paixão, vivência e vem merecendo reconhecimento por parte
da crítica brasileira e européia, a partir de "Se um Viajante
numa Espanha de Lorca" (Coimbra, Pé de Página Editores, 2005),
livro que recupera inesperadas dimensões de uma vida errante, sempre
instigante.
Embora sem distribuição no Brasil, "Se um Viajante numa
Espanha de Lorca" abriu portas para a sua literatura. Concorda que a memória
é a protagonista absoluta dele?
"Se um Viajante..." é um livro de crônicas com o bônus
de dois ensaios e um conto. Há nele um tom de confissão, que
se pretende relato de uma experiência pessoal, de encontro com uma sociedade,
com outras culturas. Então, como é natural, elementos de minha
vida e da vida de pessoas que encontrei ao longo do caminho estão nas
suas páginas. Só que todo relato que se pretende fiel à
memória tem uma dose de mentira, tem seu lado ficcional, essa mentira
que é a ficção. Tanto é assim que para várias
pessoas "Se um Viajante..." é um texto de ficção.
Eles não se reconhecem ou se reconhecem em partes. Assim, uma certa
dose de ficção está presente até mesmo num relato
de viagens.
Por que você escreve?
Porque creio que um bom livro é mais importante do que muitas coisas
consideradas importantes. Por exemplo, "O Morro dos Ventos Uivantes",
o meu romance favorito, escrito no século XIX, continua vivíssimo.
Entretanto quem lembra dos políticos, religiosos, empresários,
belezuras, nobres ou fidalgos que viviam na mesma ocasião na Yorkshire
da escritora Emily Bronte? Eles estão mortos, enterrados e ... esquecidos!
E com certeza, na sua época, suas ações eram consideradas
mais importantes do que a literatura de Emily. Escrevo também por uma
necessidade de escrever que surge de uma falta, de uma ausência, como
muitos autores já declararam. A distância também me incentivou
muito a escrever, o fato de estar longe do Brasil, muito longe da Bahia, permitiu-me
escrever com mais liberdade e vontade.
Qual a missão do escritor?
Não acredito numa missão literária, tampouco em mensagens.
A escrita literária precisa de paixão e preocupação,
nunca de sermões, apalpos ou conselhos. Deixemos essas coisas para
livros de auto-ajuda. A única responsabilidade do escritor é
para com sua arte. Ele deve ser amado se for um bom escritor. Qualquer tragédia
de Eurípedes vale mais do que qualquer punhado de boas intenções.
Como pode garantir que um escritor é bom em sua escrita?
Constatando se ele inventou o seu estilo. Se ele colocou sinceramente para
fora o que está querendo mostrar dele mesmo. Se ele naturalmente libertou
sua mente, suas energias. Não há nada mais enfadonho do que
escritores formais ou que escrevam corretamente, sem enfrentar os seus próprios
fantasmas. O triste é que eles existem aos montes, multiplicando-se
tão facilmente como as baratas.
Por que viaja tanto?
Eu nasci numa fazenda nas Terras do Sem Fim de Jorge Amado, cercado por cidades
de porte médio perfeitas para fábulas sombrias de Tim Burton
ou David Lynch: seus moradores até hoje não vivem no mundo das
idéias, não há alimento espiritual dessa natureza. Está
lá, mas eles não sabem como expressá-la. A conversa consiste
em trivialidades: crimes, telenovelas, infidelidades, reputações
arruinadas, ofensas políticas, futebol etc. Nunca o aspecto existencial
da vida é discutido. Eu ainda hoje fico espantado, porque as pessoas
que não vivem no mundo das idéias, murcham rápido, numa
velhice precoce assustadora. Eu me aproximei da psique das idéias por
meio dos livros. Pensava nisso por conta própria, como um pecado. Então
surgiu o desejo de viajar. Afinal, o desejo de viajar é também
desejo de saber. Para conhecermos nossa própria comunidade, devemos
primeiro conhecer boa parte do mundo. De certa maneira, essa viagem-leitura
tem amplificado as vozes e as visões que passam na minha mente.
De acordo com a sua experiência, até que ponto um estrangeiro
é capaz de compreender a peculiar realidade do Brasil?
O estrangeiro bate no liquidificador mental mundos imagináveis, desejados,
exóticos e assustadores. Ele busca o outro a partir do que já
ouviu falar, de certa visão da geografia e costumes. Muitas vezes erra
feio, como Bush que imaginava Buenos Aires como a capital do Brasil. Também
enfrentamos uma pré-concepção do que seja literatura
latino-americana. Os estrangeiros têm um clichê à espera
de um texto vindo da América Latina: como se qualquer escritor latino-americano
tivesse que ter os mesmos ingredientes fantásticos de García
Márquez, Jorge Luiz Borges ou Isabel Allende. Como ficaria então
um Autran Dourado ou uma Hilda Hilst?
Já que viveu muitos anos de sua vida no exterior, considera-se um
escritor brasileiro?
A noção de pátria está relacionada com a língua
e também com a memória. O que mais marca a vida de um escritor,
talvez, seja a memória e a língua que ele fala. Como bem disse
Caetano Veloso, minha pátria é minha língua, portanto
sou um escritor brasileiro. A brasilidade está presente na língua,
mas não sei até que ponto está presente na minha paisagem
existencial. Porque não posso definir o meu cenário como "paisagem
brasileira", já que vivi mais de dez anos em diversos países.
O meu mundo não tem fronteiras. Sou como os índios ou os ciganos,
cujo território em que vivem não tem fronteiras para eles. E
para todos nós, escritores-viajantes, a noção de terra
sem fronteiras está muito presente. Também não acredito
no patriotismo, cheira-me a fascismo. Sempre desejo o melhor para a humanidade
como um todo. Eu jamais lutaria numa guerra para defender interesses patrióticos.
Teria vergonha de matar um semelhante, mesmo que ele fosse nazista.
Certa vez me disse que o primeiro livro que leu foi "As Mil e uma Noites".
Possivelmente. Minha memória é algo fantasiosa. Eu lia esses
contos delirantes quando era um menino de oito, nove anos, e para mim pareciam
sublimes, tão maravilhosos que até hoje não ouso reler
"As Mil e uma Noites" porque tenho medo de me decepcionar.
O que anda lendo?
O italiano Alessandro Baricco - que entrevistei em Milão -, "Catarina
Paraguaçu - A Mãe do Brasil", de Tasso Franco, e "Rincões
dos Frutos de Ouro", de Sabóia Ribeiro. Sem deixar de continuar
fiel ao talento de John Fante, Paul Bowles, D. H. Lawrence, Virgínia
Woolf e tantos outros.
Vejo que lê autores baianos...
Lógico que leio! Considero Hélio Pólvora, Jorge Emílio
Medauar e Adonias Filho escritores extraordinários. Comecei com Hélio,
no extinto jornal Cacau/Letras, e sempre lembrarei desse fato como um privilégio.
Inclusive, terminei recentemente um livro seu brilhante: "Da Noite Fechada".
Gosto imensamente da poética de Waly Salomão, Jorge de Souza
Araújo e Florisvaldo Mattos. Também acompanho a produção
dos jovens escritores. O problema da literatura baiana, ou talvez nordestina,
é a servidão ao regionalismo; é um defunto que não
querem enterrar. Em pleno século XXI, nossos escritores e poetas continuam
insistindo em escrever sobre vaqueiros e caatingas - o vasto sertão
abençoado por Guimarães Rosa e Ariano Suassuna. Talvez acreditem
que dessa forma conquistarão mais facilmente leitores e críticos.
Ledo engano. Por que não deixar tal oportunismo para a Globo Filmes
com suas Lisbelas, coronéis e Compadecidas?
Em sua opinião, qual é o aspecto mais difícil do ato
de escrever?
A construção de um universo mágico que me emocione e,
consequentemente, emocione o leitor. Transformar a literatura num oceano de
prazer. É a parte mais difícil. Sou exigente, faço questão
que o texto ou o poema me comova. O mais fácil é o ato de escrever
em si - a história, a descrição, os diálogos -
que simplesmente flui.
A sua literatura se deixa influenciar?
A angústia da influência tão badalada por Harold Bloom
é questionável. Talvez sim, talvez não, depende da forma
que é analisada. Pode ser que toda a literatura contemporânea
seja cópia de diversas obras do passado, porém não deixa
de ser única, original, se foi escrita com personalidade e sensibilidade.
Eu admiro autores completamente distintos na sua forma de escrever, de Victor
Hugo a Clarice Lispector, de Leon Tolstoi a Fitzgerald, de Tennessee Williams
a Ítalo Calvino. Portanto, qual deles pode estar me influenciando?
Sempre fui muito grato por aquilo que puderam me apontar quanto a erros de
ortografia e más construções, mas no que diz respeito
à essência da escrita, nunca me deixei influenciar.
Que papel você sente que o homoerotismo desempenha no seu desenvolvimento
como escritor?
Os elementos sensuais desempenham papéis-chave na minha literatura:
odores, texturas, sexualidade, funções corporais. No entanto,
seria incorreto classificá-los como especificamente homossexuais, bissexuais
ou sei lá o que, pois eu não acredito numa literatura homoerótica,
assim como não acredito numa literatura feminina ou masculina. Todos
os escritores são seres andróginos. Por exemplo, Hilda Hilst,
que não era homossexual, escreveu com grande pertinência a história
gay "Rútilo Nada", assim como o cearense Adolfo Caminha,
que é considerado, em todo o mundo, o primeiro escritor a abordar o
amor homossexual de forma direta: "O Bom Crioulo", de 1895. Eu tenho
pavor a guetos, evito-os no meu cotidiano, na minha literatura. Agora acho
que os escritores gays, entre outros temas, devem escrever sobre sua sexualidade
sem tabu ou covardia. Eu admiro o imaginário homossexual das novelas
de James Baldwin, André Gide, Jean Genet, Yukio Mishima e Christopher
Isherwood. No Brasil, falta autenticidade e audácia para abordar o
desejo homossexual. Escritores como João Gilberto Noll, Caio Fernando
Abreu ou Antonio Cícero ficam em cima do muro. Mário de Andrade,
Sosígenes Costa, Olavo Bilac, Álvares de Azevedo, Manuel Bandeira,
Pedro Nava e Lúcio Cardoso nunca ousaram sair do armário. O
mineiro Lúcio costumava dizer: "O que ocultamos, é o que
importa, é o que somos". Que comportamento ambíguo! Cassandra
Rios, João Silvério Trevisan, Roberto Piva, Aguinaldo Silva
e Bernardo Carvalho são casos raros de escritores brasileiros que não
usam máscaras. É uma situação careta, reprimida,
inconcebível nesse momento em que o mercado literário internacional
aposta sem receios em histórias gays ou lésbicas.
Como descreveria "Pequenas Histórias do Delírio Peculiar
Humano"?
São 55 contos, escritos ao longo de duas décadas, que meditam
sobre a existência, vista através de personagens imaginárias
ou não. Foram construídos primordialmente sobre sensações
fundamentais, que no decorrer do livro são analisadas, estudadas, definidas,
redefinidas. Falam da alma, do corpo, do absurdo, da vertigem, do kistch,
da mediocridade, da força e da fraqueza, às vezes em um ritmo
de história policial, outros como contos de terror, sem deixar de experimentar
o intimismo, o abstrato ou o realismo seco de um Raymond Carver. Tiro vantagens
de infinitas possibilidades. Contudo é a linguagem poética que
dá unidade aos temas e suas variações, dando coerência
ao todo. São contos que provocarão repulsa, compaixão
ou tesão. Como sou maluco, a liberdade deles é ilimitada. Talvez
até alguns deles sejam taxados de pornográficos, mas a verdadeira
pornografia é a maldade do homem contra o homem, a violência,
a guerra, o genocídio.
O que "Suave é o Coração Enamorado" oferece
ao leitor que um livro convencional não faz?
Minhas imagens poéticas estão sujeitas a um sem-números
de variações, e muitas delas podem ser interessantes além
de válidas por si mesmas. Acumulo imagens, ao mesmo tempo que procuro
novas imagens. A minha poesia brota de algo denso, próprio; tem uma
natureza única. Ela vomita sinceridade e vivência, e consequentemente
expande o campo de visão do leitor. Acredito que tocado pela palavra
poética, ele possa abrir o seu próprio coração
e avaliar o seu ser, as suas inquietações. Ao contrário
do que o título sugere, "Suave é o Coração
Enamorado" não é um livro romântico, dócil,
fácil, tolo. Esse coração fascinado por diversas coisas,
desde paisagens a conexões espirituais, vive uma intensa troca de sentimentos
para continuar pulsando. Não é um coração excitado
por ambições, a vida dele não é um show, por uma
questão de temperamento não desfruta do superficial. Tampouco
é um coração feliz; é um coração
que denuncia, protesta e questiona. Segundo o mestre William Faulkner, um
escritor precisa de três coisas, experiência, observação
e imaginação, sendo que duas dessas, às vezes até
mesmo uma, podem suprir a falta da outra. Nesse meu livro o leitor encontrará
todas essas três coisas.
Teme que o leitor não compreenda o que escreve? E quanto aos críticos?
Como disse antes, escrevo para agradar a minha pessoa. O leitor é
apenas conseqüência do meu ofício. Nenhum escritor deve
idealizar a compreensão perfeita do leitor. O importante é o
encontro de simpatias, de emoções, de tentativas de um desvendar
o outro. Quanto aos críticos, certa vez Jorge Amado disse que nenhum
crítico ensina ninguém a escrever. Eu concordo.
Como bem lembrou, Faulkner se referiu à experiência, observação
e imaginação como sendo importantes para o escritor. Você
não incluiria a inspiração?
Não sei nada a respeito da inspiração, porque não
sei o que é - ouvi falar dela, mas nunca a vi. Penso que sou diferente
de outros escritores. Falo de escritores que acreditam na inspiração
e sofrem ao escrever. Sempre achei agradável escrever, e não
entendo o que as pessoas querem dizer com "angústia da criação".
Eu sinto prazer e facilidade em escrever e acredito que de certo modo a minha
literatura é boa. Se irá permanecer, não tenho a menor
idéia.
(2006)
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