A Garganta da Serpente
Entrevista com Cobra entrevista com nossos autores
Entrevista com:

Angela Carneiro

  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

- Angela Carneiro -

Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão nosso habitante para o Balacobaco


Sou cristã, mãe, amiga, professora, apaixonada e feliz. Estou sempre dois graus acima. Dou aulas na FAU /UFRJ há 20 anos, tenho dois filhos lindos, bons, bem resolvidos, adoro ser mãe. Gosto de jovens, de gente inteligente, de gente original e de gente boa. Coleciono bolas de gude e caleidoscópios. Ah! ovos e caixinhas! Sou Mestre em Educação, iniciei um doutorado mas não terminei. Adoro viajar, sou tradutora formada de inglês - português, falo italiano e francês também. É isso.

Os escritores para público infantil e juvenil são os mais bem sucedidos em suas carreiras. São os que ganham mais dinheiro mas não têm o reconhecimento do público em geral.
Quem disse isso? Só existem quatro escritores para crianças que se enquadram nisso aí: Ziraldo (mas não só por causa dos livros) Pedro Bandeira, não sei o que Marinho (autor de Gênios do Crime) e Marcos Rey.

E são conhecidíssimos.

Certamente o que você quer dizer é que a INDUSTRIA dos livros infantis é a mais bem sucedida juntamente com os Exotéricos.
É possível viver de literatura no Brasil?
Em geral, não, mas alguns o conseguem, Vide Paulo Coelho.
Por que escritor nunca diz que ganha dinheiro com literatura?
Porque é verdade, ué! De vez em quando pinta uma grana de uma venda, fora isso? Já nos EUA, uma ediçãozinha qualquer já começa com dez mil exemplares. Aqui, é sortudo o escritor que consegue que seu livro tenha sua primeira edição com 2 mil exemplares. Dez mil? Só Ziraldo. Temos 30 % de analfabetos no Brasil, e 50% de professorado leigo. Como é que você quer que literatura venda?
Como vê os que encaram a literatura juvenil como algo menor?
Nunca ouvi ninguém achando isso.
Você é dona de um texto poderoso. Quais foram as suas influências?
Obrigada pelo Poderoso. Não saberia dizer quais as minhas influências. Só sei que fui rato de biblioteca.
Você navega na internet há um bom tempo. Em que a rede pode auxiliar na formação de leitores? Qual uso faz da internet?
Começando pela última pergunta: além dos mails, a pesquisa, vista de páginas de amigos, uso de cartões virtuais, mas, principalmente, uso BBS para me expressar. Não tenho a mínima idéia quanto ao lance da formação. Estamos começando no mundo virtual e já estamos bastante adiantados, porém, ainda é pouco o tempo para sair desarvorando a dar opinião a respeito das conseqüências. Eu uso como uma biblioteca para pesquisa. Sei que ainda subutilizamos o potencial. Muita gente perde tempo na Rede com pornôs ou chats vazios cheios de he he eh her e bobagens. Mas, se pensarmos na quantidade de gente que podemos atingir, creio que MUITA coisa grandiosa poderia ocorrer. Poderíamos realmente influenciar opiniões; trocas ágeis de informações para pesquisas etc.
Há diferença entre o "jeito literário do olhar" (enfoque) feminino e o masculino?
Sem dúvida. E também identifico um "jeito gay". A escrita feminina é diferente. Tanto que para escrever o Caixa Postal, eu quis escrever as cartas de LEO como homem. Antes de "encarnar" o Leo , lia várias cartas de amigos meus.
Existem distorções na escolha do livro para crianças. Tive que ler Graciliano com 10 anos, num sou Rimbaud...
Graciliano Ramos, em geral é dado no segundo grau. Nunca o vi antes disso. E não é livro para criança. Eu não sei, eu li Sartre e Kafka aos 14 anos. Adorava, por sinal. E, ao mesmo tempo, lia "Meu Romance" das bancas de jornais. Vejo no meu dia-a-dia de camelô cultural algumas distorções sim. Por exemplo, recebi um Mail de uma professora de sampa dizendo que adotou o meu livro O Primo do Amigo do Meu irmão mas não entendeu nada, era muito confuso, e não sabia o que pedir para prova. Fui indelicada, claro, se ela não entendeu, por que adotou? - primeira distorção, o professor não faz parte do processo de seleção Prova?? Que idéia esquisita! Nada de provas! Ler é diversão.
Você é professora de artes gráficas... A poesia visual não te reclama espaço?
Sinceramente? Acho bobagem. A poesia concreta já aconteceu. em 1973 eu vibrei! Achei o máximo! Um mundo se abriu! Agora chega. Naquele momento fazia sentido, agora é reiventar o avião. Estamos numa época engraçada; todo mundo escreve poesia mas ninguém lê.
Em que trabalha no momento?
Além de aula? projetos de textos? No momento estou me dedicando aos estudos de francês e outras coisas necessárias pois passei para uma bolsa de trabalho de um mês em Paris. No meu HD tenho 3 projetos de trabalho voltados para visitas de clássicos, como Shakespeare e Voltaire. Terminei ano passado um musical, também estou atrás de produtores.
A criança tem uma temática preferida? E você?
Acho que seja mais individual, muitos gostam de aventuras, mistério... Também não. Tenho gêneros preferidos: não gosto de aventuras.
Você tem algum mote, alguma epígrafe que a acompanhe?
Vários, mas não saberia no momento citar um que realmente impressionasse.
Qual o papel do escritor na sociedade?
É um intelectual especial. Como artista , tem o dom de previsão, de profecia baseado na intuição criadora. Como intelectual, tem o jeito de influenciar umas duas pessoas que influenciarão outras tantas... e assim vai.

(2002)

  • 1820 visitas desde 9/08/2007
Copyright © 1999-2017 - A Garganta da Serpente