A Garganta da Serpente
ajuda
 
 
Entrevista com:
  versão para impressãorecomende esta página
Ana Luísa Peluso
saiba mais sobre o autor

- Ana Luísa Peluso -
Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão nosso habitante para o Balacobaco

Ana Peluso: o Pensamento da Oficina.

Como surgiu a idéia de criar a Oficina do Pensamento? Como encontrou este nome?
Ana Peluso - Eu nunca encontro nada de certa forma. As coisas me encontram sempre, mesmo que não haja programação para que isso ou aquilo aconteça de uma forma consciente dentro de mim, vulgo: planejamento. E com o nome foi da mesma forma. Foi um estalo, como se o nome tivesse me encontrado. Na verdade, nos encontramos, hoje percebo isso. Mas foi um encontro improvisado, desses que sugerem sempre alguma coisa muito forte por trás do que parece acaso. E desde que me veio a mente, eu já visualizava a palavra officina com dois efes. A idéia era reunir num grupo, a princípio, simpatizantes do pensamento humano sem que houvesse a obrigação de seguir alguma corrente filosófica pré-estabelecida, mas antes paixão pelo pensar. E que a partir desse brain storm - que imaginava eu, ocorreria - textos e manifestações artísticas surgissem e pudessem levar ao leitor da internet as questões todas que a arte gera. Uma espécie de aceleração de pensamento. Em suma: deixar o povo com material suficiente para questionamentos. Com o tempo notei que isso era utópico. Não é exatamente isso que o autor da web, em sua maioria, tem como objetivo para sua obra.
Como foi participar da oficina do João Silvério Trevisan?
Foi uma experiência ímpar. Se eu disser que é uma oficina de texto pura e simplesmente, minto. Se eu disser que trabalha muito o autor antes da obra apenas, idem. Na verdade, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo, sem que se perceba exatamente o que está acontecendo até ser tarde demais. Felizmente. O papel do João na oficina é libertar o autor antes de tudo. Fazer ele atravessar o espelho, como ele mesmo define esse auto-reconhecimento. Libertá-lo de si mesmo, de seus cacoetes, macetes e de tudo que possa contribuir para que uma obra não atinja seu fim. Então, tudo que o autor tinha como parâmetro antes de começar o trabalho é contestado. A oficina do João desconstrói o autor antes de tudo. Desconstrói tudo o que o autor pensava ser sua obra e não dá nada em troca de forma objetiva. Se a pessoa não for um escritor, é lá o local mais indicado para descobrir isso. Se for um, é lá também que vai reconhecer isso. Principalmente se o processo for sentido profundamente, ou seja, na oficina do João, quanto menos superficial for o autor (enquanto pessoa), mais labirintos ele descobrirá em si mesmo que fará dele um explorador de suas sensações, sentimentos e pensamentos na acepção mais profunda que isso possa ter. Não dá para dissociar o autor da obra. Se ele não tiver alguma verdade interna, isso vai refletir na obra dele e ela será opaca tanto quanto ele (enquanto ser não verdadeiro) mas o contrário também ocorre e esse é o grande objetivo da oficina. João faz a gente conhecer essas nossas verdades e nos ajuda a criar um caminho para que elas apareçam no trabalho literário. Isso é super enriquecedor. E acho que isso vem da extrema sensibilidade da qual João é filho. Claro que tudo isso criou uma linha divisória entre meu trabalho e mesmo em mim, enquanto leitora, antes de tudo. É um processo muito rico. Não é algo lúdico. Muito pelo contrário. É um processo de retirada de escamas e reconhecimento do que sobrou por baixo daquilo tudo que imaginávamos como obra. Na maioria das vezes, enquanto dura a oficina, nos decepcionamos com nós mesmos, até compreendermos que aquela decepção é exatamente o ingrediente que nos faltava. Fazer poesia ou conto jorrar sem sentido, sem alvo não é literatura. É apenas um jorro de poema e prosa sem sentido e sem alvo. Chega a ser um processo doloroso em alguns momentos descobrir tudo isso, mas se o escritor trabalha bem suas verdades, esse processo leva ele a refletir isso em sua obra. Saber-se pequeno dá a certeza de que se vai crescer um dia.
Com quantas metáforas se faz um poema?
Por que não: com quantas metáforas se faz a vida? Um poema é algo tão vital, tão pulsante, tão real antes de ser exatamente um poema escrito, que prendê-lo a uma questão de metáforas inibe a possibilidade de se perceber as metáforas da vida, de tudo que cerca o poeta. E isso é tudo que um poeta não precisa para fazer poesia. A tentativa de metaforizar algo apenas verbalmente ou escrito ainda é uma medida pobre de encarar a arte e suas metáforas todas, vindas, antes de tudo, da vivência do artista. Um ser humano não artista detém tantas metáforas quanto o artista. A diferença é que o artista utiliza tudo isso como matéria prima para seu trabalho, reconhece como alguma verdade e expressa tudo isso na forma do conjunto de seu trabalho. Mas podemos dizer, sim, que um poema é feito de todas as metáforas que o poeta é assumidamente composto. E a aceitação desse composto de metáforas é que faz do poeta um ser possível.
Quando e como se descobriu escritora?
Isso é louco, porque escrevo desde os 13 anos, mas nunca encarei o ato de escrever como profissão ou como algo que pudesse ser minha forma de expressão maior. Em 1990, já crescidinha e com aval para usar o escritório de meu pai (de vez em quando) eu caí sobre a máquina de escrever com fúria e fui despejando tudo o que vinha sentindo. Acho que por aí, a escritora estava em fase final de gestação. Ainda assim ela demorou a nascer, assumir-se enquanto viva, porque eu acreditava ser obrigatório algum estudo específico para quem escreve. Eu pensava que uma formação superior era algo necessário nesse caso. E minha formação é toda voltada para a área de visuais. A poesia principalmente só foi assumida enquanto gênero de 95 pra cá. Antes disso, poeta era apenas meu pai.
Tem alguma epígrafe? Qual?
Tenho. Acho que sou a rainha das epígrafes. Mas a que mais diz de mim e do que desejo para as pessoas, é "o ser humano só envelhece quando perde a curiosidade pela vida". Já me olharam torto em algumas situações em que eu disse isso. Então sinto que as pessoas não sentem tanta vontade de serem curiosas por tanto tempo. O que lamento, por representar todo o tédio que passa a acometê-las. Uma espécie de finalização de suas idéias. E o pior: são finais de rotas auto-impostas pelo próprio ser humano. Ele (ser) continua mecanizado e cumpridor de tarefas, apenas. E se algo dá errado no meio do caminho, ele mesmo se pune, como se não fosse bom o bastante para conseguir o que a sociedade espera dele. Tudo isso faz de sua vida algo muito pobre, pois a cultura ocidental te dá um tempo de colheita. Depois de passada a data prevista para tal, você é colocado de lado e não te sobra nada. Se a curiosidade por novos assuntos não faz parte do teu eu, fica-se à deriva, "com o olhar perdido", como eu costumo dizer. Acho isso uma tremenda indignidade. Mas já funciona como paradigma e por isso mesmo deve(ria) ser transformado ou reformado, se preferir. A vida seria muito mais interessante, se conjuntamente com as novas técnicas de manutenção da mesma, surgisse um aval, um green card da curiosidade eterna. Uma das coisas mais bonitas é ver um idoso ir para uma universidade, e, no entanto, muito poucos ainda acreditam que valha a pena.
Para que serve a poesia?
Acho estranho ler um bando de gente dizendo que poesia não tem utilidade. Pode não servir para bater massa de bolo, mas serve para bater a massa de bolo do pensamento. Principalmente quando lembramos que a poesia não é necessariamente um poema, mas expressão poética. E o mais enriquecedor nisso, é que, para que a massa funcione, você tem de cair com a cara nela. Explico: poesia é algo que transmuta, é uma espécie de alquimia dos sentimentos, sensações, observações humanas, tudo transformado em palavras. Isso é ponto pacífico para mim. Então se você pega um poema para ler, compreende o que está lendo, consegue chegar onde o poeta pretendeu te levar (ou próximo, que seja), geralmente "descobre américas" o tempo todo. Como se o poeta tivesse o dom de dizer aquilo tudo que já se sabe (ou não, dependendo do caso) de forma (na linguagem) a penetrar o ser alquimicamente. Ninguém que compreenda perfeitamente uma poesia, ou mesmo se reconheça nela, sai daquela leitura da forma que entrou. Sempre digo que poesia é elemento terapêutico. Claro que sou tomada por louca, mas não me importo. Acredito que seja mesmo. Não apenas para quem lê, mas para o poeta antes de tudo. A poesia pode ser considerada a música em silêncio. Mas as cadências, as quebras, os versos enquanto representação de pensamentos humanos soam exatamente como a música aos ouvidos, desde que se compreenda as notas que dela exalam.
Quem é o poenauta (poeta da internet)? Quais os seus hábitos e atitudes?
Não reconheço o poenauta. Reconheço poetas que encontraram na internet um veículo de propagação de seus trabalhos. Com isso, claro, a coisa do ser político e social se instala e começam a surgir grupos de poetas por todos os lados. Não participei de forma tão efetiva desses grupos, mas tive tempo de perceber que o poeta virtual está muito preocupado com a qualidade das relações humanas, em sua maioria. E lutam por isso, escrevem sobre isso. Parece que a internet fez as pessoas descobrirem, enfim, o quanto estão sós e o quanto terão de mudar hábitos de tratamento para que essa solidão inexista. Então um código de ética novo me parece, surge. Todos fazem esforços para serem politicamente corretos, agradáveis e coerentes. Aprendem aos poucos a respeitarem as opiniões alheias, porque podem ser substituídos facilmente. Numa lista de discussão, em geral, com 100 membros, não há mais espaço para a pessoa que não aja de forma coerente e lúcida. Claro que as exceções sempre existirão, mas acho que já temos um bom começo no que diz respeito às mudanças de hábitos que eram cultivados anteriormente com gosto. Um desgosto, na verdade. A supremacia de um ser sobre o outro já deveria ser ação catalogada em estudo de antropologia, apenas, seja essa supremacia vivenciada da forma que for.
O poeta deve ter um papel político em ano de eleição?
O cidadão deve ter um papel político sempre. Nós temos uma cultura multifacetada e isso faz dela algo muito rico em quantidade, quando já sabemos que não vamos conseguir reter tudo por tempo indeterminado. Então nos tornamos cidadãos sazonais. Se for época de copa, só se fala em futebol, se for carnaval, só se fala em escola de samba. Mas os jogadores continuam treinando para enriquecer times internacionais enquanto o pessoal das escolas de samba trabalha o ano inteiro em cima de um tema, abdicando de suas vidas em função de sua arte. Até aí, se nada for dito, não me assusta tanto, pq tanto num caso como no outro não há interferência direta na vida do cidadão. Mas esquecer da política por longo tempo para na época das eleições levantar a bandeira da cidadania, me cheira a demagogia por contaminação. O verdadeiro posicionamento cidadão é contínuo. Não dá pra reconhecer algum bom ou mau candidato apenas em período eleitoral. O assunto pede acompanhamento perene. É do interesse de todos. E é o que vai determinar o futuro de todos, de certa forma. No entanto, papel político é um termo bastante forte. Acredito mais em consciência política, do que papel político exatamente. E essa consciência não pode espelhar outra coisa que não seja a coerência.
Quais são suas influências?
Não li quase nada do que dizem ser necessário ler para ter cultura. Não fui a museus o tanto que deveria ter ido e nem a concertos de música, como gostaria. Mas minha influência vem da observação de tudo isso, mesmo que de longe. Sou extremamente curiosa, gosto de apreender o que sinto como verdade, seja com um poema, seja observando uma obra de arte, seja ouvindo música. Mas posso dizer que estou começando a conhecer alguns antecessores com mais propriedade de algum tempo pra cá. E isso influencia diretamente no meu fazer artístico, pq acho que nunca terei uma forma única pra minha arte. Ela será sempre mutável, porque ela é fruto da minha pessoa antes de tudo. E eu sou um ser mutante, multifacetado e acumulativo, ou seja, agrego novas idéias sem abandonar as anteriores (desde que essas idéias anteriores ainda me digam algo) e isso vai formando um caldeirão de idéias bem no topo da cabeça. Também tenho forte ligação com a música enquanto expressão pura da representação do homem, ou mais uma tentativa de expressão do que ele carrega em si. Mas, para resumir, acho que minha influência maior é o pensamento humano e todas as questões que ele sugere e toda a arte que ele gera.
Qual pergunta não fiz e gostaria de se fazer?
Como eu vejo o mundo hoje, em 2002, aos 36 anos?

E respondo:

Acredito que chegamos no limite. No limite do que poderíamos supor como futuro. Não em questões de avanços tecnológicos, mas no limite humano de suporte que tudo isso pede. Vejo as pessoas ainda preocupadas com ganhos gigantescos, acúmulos de riquezas. Vejo o ser tão preocupado com seu ego menor (aquele que não sugere sua preservação, mas a destruição do outro em prol da sua preservação), tão centrado em seu próprio umbigo, em seu pequeno mundo, quando o mundo anda meio capenga não apenas nos valores ou formas de encarar o ser, mas em franca deterioração humana e isso me desmonta. Hoje sabemos exatamente o que nos governa, conhecemos os poderes que agem em defesa de seus interesses (que não são exatamente os nossos) e ainda brigamos com o vizinho por questões banais. Logo, essas formas de poder já não serão os nossos únicos inimigos. Estaremos todos apenas de um lado e o inimigo será o habitat destruído pela pressa que consome o ser humano no fazer a evolução sem as devidas precauções. E isso já acontece. Os resultados nefastos já surgem por todos os lados. Então observar tudo isso, sacar que existe um erro de planejamento enorme nisso tudo, sentir que as pessoas perdem o norte facilmente pq questões psicológicas são relegadas a segundo plano, exigindo-se delas um mesmo comportamento frente ao sistema, sem lhes perguntar se isso as agrada ou não, é um crime antes de qualquer coisa. E isso tudo já bastaria para monopolizar todo o interesse científico em função do bem estar do homem. Mas, além disso, acredito que o homem nunca perderá a pressa quando o assunto é capital. E quando estivermos todos do mesmo lado, frente a um inimigo comum, ainda assim, estaremos nos destruindo. Isso é algo que me diz que alguma ação é necessária e que ainda nos prendemos a forma romana de resolver problemas: criamos epístolas, mas não seguimos o que elas dizem, nem quando por algum acaso do destino, sejam elas coerentes.
Um pouco de mim: Ana Peluso por Ana Peluso
Nasci de oito meses, já demonstrando a ansiedade que guiaria a maior parte dos meus passos, numa noite do dia cinco de março de 1966. Sempre busquei a arte de alguma forma e sempre lutei para que pudesse estar próxima a ela, como forma de expressão acerca de um mundo que eu não compreendia e continuo sem compreender. Tudo o que sei fazer, vem da busca pelo conhecimento de forma autodidata. Mesmo sendo formada em Comunicação Visual, meu crescimento na área se deve aos meus esforços e buscas de melhoria em meu trabalho. Minha família, apesar de meu pai ter sido escritor, nunca apoiou essa busca. E acho que isso foi um fator fundamental para o enriquecimento da minha expressão, porque descobri o caminho por mim mesma. Posso dizer uma coisa para resumir o que sou e o que penso: enquanto houver o que buscar, onde fuçar, e sendo isso interessante para o ser humano, pode estar certo que estarei lá tentando compreender, transmutando objetos, formas, pensamentos e fazendo da minha vida, um conto de artesã, que no fundo é exatamente o que sou.

(2002)

462 visitas desde 2/04/2007
   
 
Últimas entrevistas:

Fernando Bonassi

Iosito Aguiar

Joca Reiners Terron

Esdras do Nascimento

José Nêumane Pinto

Luiz Alberto Machado

Affonso Romano de Sant'Anna

Fernando Paixão

Marilia Librandi Rocha

Alonso Alvarez Lopes

Dirceu Villa

Matias Mariani

Gabriel Perissé

Moacy Cirne

Neide Archanjo


» Habitantes entrevistados

» Habitantes entrevistadores

» Todas as entrevistas


Copyright © 1999-2008 A Garganta da Serpente
Direitos reservados aos autores  •  Termos e condições  •  Fale Conosco www.gargantadaserpente.com