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Affonso Romano de Sant'Anna |
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- Affonso Romano de Sant'Anna -
Entrevista ao jornalista Paulo Henrique Ferreira (Divulgação/Ed.Rocco)
Affonso Romano de Sant'Anna viveu intensamente os momentos vanguardistas dos
anos 50 e 60 atuando em vários grupos, portanto sabe do que está
falando em termos de arte contemporânea. Em O enigma vazio, o poeta
e ensaísta vai além da crítica de arte e produz uma “crítica
da cultura”. Ele considera que sua obra é um sistema, um “projeto poético-pensante”
conforme diria Heidegger: poesia, ensaio, crônica e magistério
que se informam mutuamente. Para dar forma a este livro, o autor revisitou por
cinco anos todos os mais importantes museus do mundo. Os textos produzidos se
relacionam com seus trabalhos anteriores: “Barroco, do quadrado à
elipse” (Rocco), “Desconstruir Duchamp” (Ed. Vieira& Lent) e
“A cegueira e o saber”(Rocco).
De que forma a crítica da crítica pode auxiliar na reflexão
dos caminhos que a arte contemporânea tomou no século XX?
Há, pelo menos, três tipos de “crítica”. A primeira é
a critica informativa - de caráter jornalístico, tipo
prestação de serviço ao público e uma outra que
chamaria de crítica celebrativa. Esta é a crítica
de endosso, feita às vezes de encomenda. A imprensa tende a misturar
as duas, sobretudo depois da emergência dos divulgadores, curadores,
galerias. Isto está mais para o “release”. Outra coisa é a crítica
reflexiva, que se preocupa realmente em analisar obras e autores objetiva
e independentemente. Segundo os estudiosos, desde os anos 60 estabeleceu-se
um certa confusão nesses campos. O que estou fazendo é uma metacrítica,
a crítica da critica: pegar os grandes analistas (O.Paz, Jean Clair,
Derridá, Barthes, etc) e ver alguns equívocos do discurso crítico
deles. Se os grandes cometem tais erros, imaginem os diluidores?!
O exercício de desconstrução dos argumentos que você
faz como quem pensa criador e criatura passaria por um processo semelhante da
desconstrução e questionamento da linguagem artística –
ou o que é arte? – feita pelos artistas e críticos de nosso tempo?
Estou indo além da “desconstrução” posta em moda por
Derridá: ouso dizer, ironicamente, que estou desconstruindo a desconstrução,
que se julgava um método limite, insuperável, por que acreditava
na onipotência de sua retórica e de certos sofismas. Esse repensar
a arte se insere dentro de um esforço de repensar a cultura globalmente.
Isto faz parte de meu projeto de rever os descaminhos do século XX.
Sou um filho do século XX que está ousando questionar o pai.
Há quase 20 anos, na poesia, escrevi o Epitáfio para o sec.20.
No ensaio, explico isto.
Não seria natural que críticos – humanos que são –
sucumbissem à subjetividade em um terreno bastante pantanoso que é
a análise da obra artística? Ou você acha que a isenção,
objetividade e reflexão foi claramente afetada pela falta de limites
formais sobre o que é ou não arte na arte contemporânea?
Sim, como diria Terêncio, os críticos são humanos e nada
do que é humano lhes é estranho. Como, aliás, diria Nietzsche
“humano, demasiadamente humano”. É bom que se reconheça
certos autores como “humanos” e não como “super-homens” nietzscheanos.
O que tento deslindar é um problema recente fascinante e grave: alguns
críticos são romancistas e poetas frustrados. Barthes queria
ser ficcionista, Derridá tinha um complexo de James Joyce mal resolvido.
Pode parecer irônico, e o é, que seja eu, um poeta a dizer a
certos críticos que parem de misturar as coisas e comportem-se primeiramente
como críticos.
Marcel Duchamp transferiu para o espectador a responsabilidade por pensar
a arte, transformando todos em artistas e críticos de arte. E qual foi
(ou deveria ter sido) a responsabilidade dele? Pelo que hoje Duchamp teria de
responder?
Essa afirmativa de Duchamp é uma de suas conhecidas falácias.
É uma esperteza enorme. Jogou nos outros a responsabilidade pseudo-artística.
Até ensaístas que adoram Duchamp, como Octávio Paz e
Jean Clair reconhecem que aí ele pisou na bola. O processo artístico
não depende só do receptor, é mais complexo. Essa simplificação
interessa aos carreiristas e aos que querem ter os 15 minutos de fama.
Quais os riscos do action writing? A partir de que ponto a obra
sai das mãos do artista e torna-se obra do crítico e de suas idéias?
Chamo de action writing essa paródia do action painting,
é uma escrita desvairada, pretensamente literária, um blá-blá-blá
pretensioso que se pretende hermético, para iniciados e é um
rol de sandices. Se aplicarmos técnicas de análise de discurso
e análise retórica, vemos como esses são discursos vazios,
tão vazios quanto os “enigmas vazios” a que se referem. Esse tipo de
crítica é tão má literatura quanto certa “arte
conceitual”.
Para você, qual a função da crítica de arte?
E como se faz para escapar dos devaneios artísticos-literários
deste crítico-artista? Quais elementos constituem uma boa crítica
de arte?
A função da crítica é ampliar a leitura e propiciar
o entendimento da obra. O crítico deve exercer o que chamo de “terceiro
olhar”. A função do crítico é discernir, clarear,
estabelecer categorias e não cair em armadilhas alheias, como ocorreu
com Rosemberg, Danto e Geenberg. Quando você fala de “devaneio” é
bom alertar que a crítica, como o processo de criação,
não é a casa da mãe Joana. Essa bobagem que Duchamp disse
que todo mundo é artista, todo mundo é crítico, não
chega a ser engraçado. É apenas uma frase tola. Ele era o rei
de frases tolas, nas quais as pessoas viam profundo saber. Num certo momento
de sinceridade, aliás, ele disse: “cada palavra que lhes digo é
estúpida e falsa”. Ele mesmo se chamava de “pseudo”, e assim por
diante. Por isto é que uma das teses deste meu livro é que se
deve analisar o discurso duchampiano, pois suas obras só têm
sentido em relação a esse discurso. Espantosamente essa análise
nunca foi feita antes.
Fale mais sobre este enigma vazio, esta tentativa de decifrar “algo”, dando
a este “algo” alucinações críticas de obras insignificantes.
Dizia Hanna Arendt, enquanto judia e filósofa, que se não conseguisse
entender a lógica do nazismo, enlouqueceria. O mesmo eu me dizia a
respeito da arte de nosso tempo. Isto tem que ter uma lógica, eu me
dizia, deve haver um modelo de análise para essa anomia, para esse
caos, essa entropia, para todas essas contradições discursivas.
Acredito ter tocado no cerne da questão. Diferentemente de enigmas
verdadeiros, a arte contemporânea está cheia de enigmas vazios
que muitos tentam preencher com uma verborragia igualmente insossa.
Como você vê a arte contemporânea hoje – particularmente
a brasileira?
Esclareço uma vez mais que não sou “contra” a arte contemporânea.
Aponto alguns de seus descaminhos. E dentro desse imbróglio há
muitos artistas que admiro. Tentam, no entanto, confundir a questão
dizendo que sou o “inimigo número 1” da arte contemporânea. Tolice.
Ela não precisa de mim para isto. Seus inimigos estão dentro
dela. Duchamp é um deles e ele cinicamente reconheceu isto ao dizer
no fim da vida: “Este século é um dos mais baixos na história
da arte”. E o próprio Jean Clair que o admira e fez a primeira
retrospectiva dele em 1977, reconhece que foi ele quem abriu a “Caixa de Pandora”.
Por isto, é que insisto que há que voltar a Duchamp para uma
releitura, que não seja como essa que anda por aí, de pura louvação,
acrítica. E essa leitura tem que ser feita na área da filosofia,
da retórica, da teoria da literatura como mostro no meu livro.
E, por conseguinte, como vê a crítica de arte hoje?
Em geral é uma crítica de endosso, é a crítica
institucional de uma arte “institucionalista” como a definiu o antropólogo
Howard Becker. E é uma crítica esquizofrênica, que está
no poder, fingindo que é margem. Aliás, a figura da falsa “margem”
tem servido bastante a essa esquizofrenia. Por isto, analiso no livro o fenômeno
do “double bind”, do laço duplo, dos oxímoros ideológicos
da modernocontemporaneidade.
Em O enigma vazio você também aborda questões como
a mercantilização da arte, que muitos consideram um retorno ao
mecenato. Por que você discorda desta comparação?
Sem se estudar isto não se entende o “êxito” e a anomia geral
das artes. Ela serve à sociedade da aparência, da falsa cultura.
Ela virou um apêndice da bolsa de valores, até se fala de “bolsa
de artes”. E as ações e valores dos quadros são virtuais,
sobem e descem de acordo com a circunstância. Há livros fundamentais
analisando isto e eu também entro nessa questão.
Futurólogos sempre arriscaram previsões como o fim da pintura,
por exemplo. E hoje ela continua aí e é cada vez mais valorizada.
Arriscando um exercício de futurologia, como você vê os caminhos
que a arte pode tomar?
É sintomático que o século XX, que matou mais gente
que qualquer outro, tinha mania de matar tudo, a arte, o romance, a poesia,
a história, o “homem”. Verdadeira tanatomania. Hitler, Mao Tse Tung
e Stalin ficam muito bem num século em que outros tentaram matar a
arte e até a própria história. Pois não houve
o caso daquele pensador da CIA Francis Fukuyma, que anunciou o “fim da história”
e dez anos depois veio pedir desculpa, dizendo que se enganou, que a história
continuava? Duchamp fez a mesma coisa, no final da vida entrou para o Instituto
Nacional de Letras e Artes dos Estados Unidos. Cinismo ou autocrítica?
Finalizando: o que é arte para você?
Essa pergunta é inevitável nas dezenas de palestras que tenho
feito pelo país e no exterior. É uma pergunta mal colocada.
Se não aprendemos a colocar as questões não teremos respostas
razoáveis. O modo apropriado, depois de cem anos de acertos e muitos
erros, é inverter ou tratar questão pelo avesso: o que não
é arte?
Muitos produtos que estão aí nos museus e galerias pertencem
à psicanálise, outros à sociologia, ao marketing, à
antropologia, à literatura, à filosofia. Quando essas disciplinas
se debruçarem devidamente sobre a questão, então poderemos
voltar à pergunta sobre arte. Por isto, insisto nessa operação
multidisciplinar para afastar o entulho.
De resto, os que pregam o “fim da arte” equivalem-se aos ateus, têm
que falar de Deus para serem ateus.
Lamento muito em informar que ao contrário do que se acreditou no século
XX, a arte não acabou, a arte é uma fatalidade do espírito
humano e arte não é qualquer coisa que qualquer um diga que
é arte, nem é crítico qualquer um que escreva sobre arte.
(2008)
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