A Garganta da Serpente
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Rubenio Marcelo
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A saga heróica do cordel
(Ou "O Cordel em Cordel")
(Rubenio Marcelo)

Está com mais de cem anos
A nossa Literatura
de Cordel, que no Brasil
Já é parte da Cultura;
Seu legado traz renovo
À alma do nosso povo,
Qual chama ardente e pura!

Está vivinho da silva
O nosso belo Cordel;
Já é tema de mestrado,
Estudado com laurel;
Cada dia, aumentam mais
Os prestígios triunfais
Do cantador-menestrel!

Cordel é luz, é paixão,
É catadupa de paz!
É esta grande alegria,
Magia de encanto assaz;
Cordel é flama-canção
Que brota do coração
E flui em tons divinais...

Tem um luso parentesco
Este canto popular.
A Escola Gil Vicente
Ficou famosa além-mar;
Dela cito Afonso Álvares
Com o Ribeiro Tavares
E o cego Baltasar.

Lá, na Corte Portuguesa,
O El-Rei, grande senhor,
Foi, do nobre populário,
Ilustre admirador;
Sendo, assim, leitor fiel
Dos folhetos de Cordel
E das sagas de amor.

Em Provença, sul da França,
Trovadores e jograis
Já recitavam cordéis
Para os senhores feudais.
E o Monarca Dom Diniz
Foi discípulo feliz
Dos vates provinciais.

É também dos Colportage,
- Literatura Francesa -
E inda dos pliegos sueltos
Ibéricos, com certeza,
A fonte inspiradora,
Energia geradora
Do Cordel da nossa mesa.

Aqui, no nosso país,
Encabeçaram a lista:
Leandro Gomes de Barros
(de Pombal, nobre conquista),
Zé Duda, que fez envide
Com João Martins d'Athayde
e Chico Chagas Batista.

Foram esses nordestinos,
Artistas lá do sertão,
Que difundiram Cordel
Para toda a Região.
Depois, pra São Paulo, a mil...
Enfim, pra todo Brasil:
Celeiro de tradição!

Cordel, folheto ou romance:
Popular Literatura!
Comunicação impressa
Que até hoje fulgura;
Páginas em parcos papéis;
E as capas, artes fiéis:
Clichês ou xilogravuras.

Cordel nos faz relembrar
Momentos de afeição,
Etapas da nossa vida,
Pessoas que não estão...
Lembranças que nos adornam,
Saudades que só retornam
Nas asas da inspiração...

Vou agora recordar,
Numa pungente emoção,
Os títulos de alguns cordéis
Que formavam a coleção
De Nenzinha d'Oliveira,
- Cantadora brasileira -
Mãezinha, do coração!

Lembro quando ela cantava
"A Sina de Lampião";
"Pelé na Copa do Mundo"
e "Brasil, Tri-campeão";
"Bocage em Disparate",
"Camões e o Grande Debate",
e "Juvenal e o Dragão".

"As Proezas de João Grilo";
"O Nordeste sem Inverno".
"O Príncipe do Barro Branco"
e "Paraíso Moderno";
"A Princesa Encantada"
E ainda "A Chegada
de Lampião no Inferno".

"A Donzela Teodora",
"Os Sofrimentos de Alzira";
"Posseiros do Maranhão"
e "A Bela Índia Potira";
"Peleja de Riachão
Com o Diabo no Sertão"
e "A Origem da Mentira".

"O Soldado Jogador",
"Visão de Antônio Silvino",
"A Peleja de Zé Duda
com Cego José Sabino",
"Lamentação", "Incertezas",
"O Beija-flor" e "As Proezas
de um namorado mofino".

Sempre disse e reafirmo:
Respeito o bom cantador!
Pois carrego nas artérias
O escarlate licor
Da Cultura Popular,
Que é meu mel, meu manjar,
Imuniza-me da dor!

Qual sangue na minha veia,
O Cordel nutre meu ser.
Seus matizes pueris
Presentes no meu viver,
Sublimam meu coração.
Mostram-me sempre o perdão
Em cada amanhecer.

Cordel é real mistério,
É sonho e é regra estrita.
Entre a razão e a emoção,
É sensação mui bendita.
Se não houvesse esta Arte,
A nossa vida, destarte,
Seria bem mais aflita.

O Cordel é relicário
Que guarda reais valores;
Seu universo acalanta
Artistas e trovadores
Altivos, cheios de brio,
Versando horas a fio
Em repentes multicores...

Em verves cordelianas,
Poetas e cantadores
Criam sagas soberanas
Talhadas de risos e dores...
Embalam os sertanejos
Dão emoção aos festejos,
Com seus gênios criadores.

A Cultura Popular
Com sua desenvoltura
Já deu ao mundo das artes
Iluminadas molduras...
Por isto, em motes celestes,
Aplaudo e saúdo os mestres
Da Folk-Literatura.

Os enlevos cordelinos
Habitam a nossa essência;
Desafiam os tratados
E os desígnios da Ciência.
O menestrel-genuíno
É, com o seu dom divino,
Herdeiro da Providência!

Ó Divino Rei do Estro,
Jesus, ó Supremo Artista,
Iluminai os caminhos
De cada um cordelista;
Amparai seu galardão,
Seu plectro, sua criação:
Condão, Cordel altruísta!

Destarte, com alegria,
Eu saúdo cada irmão.
Reforçando mais um elo
Dessa vital união.
Pois os parceiros fiéis
De genuínos cordéis
Moram no meu coração.

A todos, estendo a mão,
Com muita sinceridade,
E chamo pro nosso meio,
Pois ser feliz nunca é tarde.
Aqui reside a franqueza,
Fraternidade e pureza,
Compreensão lealdade.

Nesse ninho, na verdade,
Bom passarim vem cantar;
E não qualquer bem-te-vi
Que não sabe gorjear;
Na ramagem desse ninho,
Só pousa o bom passarinho
Que conhece seu lugar.

Vou aproar meu navio
Pra onde o mar beija o céu;
Convidar os viajores,
Num pacto mui fiel,
Pra irmos nessa jornada
Em alquimia sagrada
Aos périplos do cordel!...

Navegaremos ao léu,
Ao sol de fulva ardentia;
Desfraldaremos bandeiras
De glória e de primazia;
Singraremos oceanos
Aos cânticos soberanos
De Iara, em supremacia...

Netuno, com alegria
Ofertará os seus mares...
Ornando nosso retiro
Com virginais nenúfares;
Afastando as cousas vãs,
Banindo os leviatãs,
Com seus brasões luminares.

Enviaremos aos ares
Galopes em Alto-Mar...
Mirando o Sol das Hespérides,
Ficaremos a louvar
Minerva, Safo e Orfeus,
Afrodite, Hera e Zeus
Em estro miracular!

Nesse momento sem par,
Num belo acorde dourado,
O Partenon surgirá
Todo em ouro marchetado.
Novos cordéis comporemos...
Com sílfides entraremos
no Novo Reino Encantado!...

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