A Garganta da Serpente
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Kátia Drummond
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Mas qui país é esse, o meu país?
(Kátia Drummond)

Ao povo nordestino, qui nem eu.

Mas qui país é esse, o meu país,
amada terra adonde eu nasci?
Aqui cresci, desabrochei, madureci,
e assuntei di amá um belo home.
Dei di casá, engravidei, pari.
E adesde antonce, como um bacuri,
bebi meu leite pra não passá fome!

Mas qui país é esse, o meu país,
adonde eu truxe ao mundo meus três filho?
Assunte, é tudo arte, tudo artista!
Dois macho criadô e tocadô,
qui canta como os anjo do Sinhô.
E uma competente palavrista,
qui lavra as letra como os inscritô.

Mas qui país é esse, o meu país,
qui nunca pára de arvorecê?
Adonde o vento baila vagarinho,
e uma montanha, grávida da lua,
se curva nua e deixa o sol nascê.
E um zabelê, voando bem mansinho,
faz o seu ninho dentro do meu sê.

Mas qui país é esse, o meu país,
di céu azul e sol vermelho em braza?
Di chão rachado e campo averdejante.
Uns tem palácio. Outros, nem tem casa!
São tantos rio correndo até o mar,
florestas com Saci cambaleante,
desertos ressecando inté matá.

Mas qui país é esse, o meu país,
donde o povo já nasce na canção?
donde se bebe pinga e sucupira,
e os forguedo atiça os coração.
Terra di moças linda e atrevida,
qui mostra os peito pra fazê a vida
com os home cortejado nos salão.

Mas qui país é esse, o meu país,
berço de tantas civilização?
Índio, africano e ôropeu feliz.
Macaco, bem-te-vi e vira-lata.
Preto com branca e loura com negão,
tingindo a natureza de mulata,
no mesmo pote de misturação.

Mas qui país é esse, o meu país,
qui diz qui faz o qui não faz, mas diz?
Qui deixa as criançada sem brinquedo
e os adolescente sem enredo.
Enquanto os mais antigo, a suspirá,
tem esperança di inda tê futuro,
e vai seguindo a vida ao Deus dará.

Mas qui país é esse, o meu país,
tão grande, tão garboso e tão servil?
Terra de povo bravo e inteligente,
di presidente herói e varonil.
É o paraíso adonde Adão e Eva,
nos gosto da serpente, fez a gente.
E um vingadô denominô Brasil!

(Em verão português. Sintra 2005)

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