A Garganta da Serpente
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O Matador

(Vanderlei Antônio de Araújo)

Desde aquele dia, Alfredo nunca mais saiu de casa. Tudo porque numa festa, a rixa que tinha com um sujeito acabou numa troca de socos e pontapés com o seu desafeto levando a pior. Conforme revelaram testemunhas, o rapaz afirmou que ele estava com seus dias de vida contados. Por isso, não saiu mais na rua com medo de morrer.

A situação ficou insustentável, de tal maneira, que ele foi pedir ajuda a um amigo. Este, ao ver o seu desespero, sugeriu que desse um fim no individuo. Alfredo recusou prontamente, nunca matara ninguém nem mataria. Além disso, lhe faltava coragem para tanto. É uma questão de vida ou de morte, disse o amigo. Um ou outro terá que morrer. Você precisa agir antes, para não ser o primeiro. Se não tem coragem, contrate alguém para fazer o serviço. Não conheço ninguém, argumentou. Sei de uma pessoa certa para isso, disse o amigo.

Ele se interessou. O amigo o aconselhou a procurar um homem que passava o dia rezando na igreja. Praticamente mora lá, disse. É a pessoa mais indicada. Discreto e não levanta suspeita. Encarregar-se-á de tudo. Basta combinar o preço e dar o nome e o endereço de quem você quer eliminar.

Depois de muito pensar resolveu procurar o homem. Estava anoitecendo quando chegou na igreja. Era um velho de aproximadamente, oitenta anos, que ao vê-lo, parou de rezar já antevendo o que lhe seria encomendado. Contou-lhe seu problema. O velho pediu o nome, o endereço do candidato a defunto. Queria o dinheiro adiantado. Forneceu todos os dados do inimigo, pagou e saiu. O homem guardou o nome o endereço no bolso e voltou a rezar.

Seu problema para acabar só precisava de mais algumas horas, pensou ao sair da igreja. O bandido vai ter o que merece, nunca mais vai ameaçar ninguém. Em casa, jantou, viu um pouco de televisão e foi deitar, sentindo-se aliviado.

Lá pelas tantas, sentiu uma agulhada de arrependimento. Desejava que estas coisas não acontecessem, se irritou por entender que não conseguia afastar o pensamento delas. Atormentou-se com aqueles sentimentos de culpa e por isso, demorou a dormir. Dormiu pouco. Pois, acordou assustado com uma sensação de remorso. Sentou-se na cama com o coração acelerado. Aquilo, mais parecia um anúncio de morte.. As horas passavam devagar, os grilos cantavam, o tic-tac do relógio parecia mais alto. A noite encompridou. Deitou-se. Fechou os olhos, mas não conseguiu dormir. O sono não vinha. Já passavam das três horas da madrugada. Fez algumas práticas de relaxamento e nada. Tudo inútil. O sono esgotara-se.

Impacientemente, esperou o dia clarear. E antes mesmo de o sol nascer, levantou-se. Olhou-se no espelho do banheiro. Escovou os dentes. O arrependimento baixou de vez. Não devia ter contratado aquele homem. Não queria ser o mandante de um crime. Não era assassino. Tomou a decisão: não ficaria nem mais um minuto com o remorso a lhe torturar. Iria até a igreja, conversaria com o velho e dispensaria os seus serviços. E para não complicar nem pegaria o dinheiro de volta.

Não queria saber de mortes. Só queria viver tranqüilo. Pensando assim, saiu correndo de casa. Restava-lhe pouco tempo para evitar o crime. Chegou cansado. O homem estava lá, ajoelhado, encolhido, e como no dia anterior, rezava. Chegou de mansinho, tocou-lhe o ombro. O velho virou-se rapidamente, quis levantar-se. Alfredo o deteve, não era preciso. Ele foi direto ao assunto:

- Vim para lhe dizer que desisti de acabar com o sujeito. Pode ficar com o dinheiro se quiser, falou cochichando no ouvido do velho. O homem sorriu e disse:

- Agora é tarde, já fiz o serviço.

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