A Garganta da Serpente
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Paixão x Amor

(Tania Montandon)

Novamente, ela escreveu a noite toda. Espreguiçou, olhou para o Sol que nascia, agasalhou-se e saiu no frio da manhã, como atraída por uma força invisível. Andou pela cidade que acordava. Desejos vagos, poéticos. Esperava alguém. Sua excitação crescia, enquanto corria pelo parque até as margens do rio.

Da névoa, ouviu um som familiar dos remos dele mergulhando na água gelada. O ranger de um esquife avançando, cortando as águas do rio parado. Observou-o e se questionou: como podia um desconhecido enchê-la de tanto desejo? Sabia a resposta, pois era justamente ao que ansiava... este sentimento. Apaixonar-se de tal modo que a mera visão de um homem, mesmo distante, provocaria um estremecimento profundo, a amolecê-la, derretê-la como mel.

Ela escrevia enquanto viajava a passeio pela primeira vez noutro continente, a viagem a que tanto almejara e, então, tanto a inspirava. Seu melhor trabalho. Entanto sua estadia tinha data marcada e seus recursos limitados a angustiava. Ficar e terminar seu livro. Não, não, não podia partir ainda. O que fazer?

Não partiria. Estalou uma ideia a salvá-la. Deveria trazer à realidade os fatos e sensações evocados em seu livro. Única saída, mas seria possível? Ah, só o porvir o sabia...

Não considerava mais a ideia de voltar. Venderia a casa, o carro, a cabana no lago, pois não atingira seu propósito, ainda que só parcialmente conhecido. A se desvelar no deixar as letras escreverem o que ela mesma precisava saber. Seu trabalho a tomara em toda a alma e guardava seu segredo e destino.

O clima inspirador da cidade, a confiança precisa em seu sonho antigo, sobretudo o mistério do desafio a fascinava até o fino limite dum delírio.

Uma voz sussurrava intermitentemente em seu ouvido: cuidado, cuidado! Pegou seu chapéu, o casaco e saíra a perder-se para se encontrar. No restaurante, enquanto tomava seu segundo drinque, ele apareceu, chamou-a e disse: eu conheço você! Hoje, ontem, anteontem, na ponte. Ela replicou-lhe: escrevo à noite. Quando amanhece, dou um passeio antes de dormir.

Eu sei, ele disse. O que mais você sabe? Sabrina Marc, americana, há quatro meses na cidade para escrever um livro. Trabalha bastante, passa o tempo só, talvez seja tímida, talvez reclusa. Bem, estou em desvantagem. Por enquanto. Belo, não? E perigoso. A verdade é que ele só fora àquele restaurante porque havia a chance de encontrá-la.

Agora você está aqui. O tempo parou. Podiam ter dançado por dez minutos ou duas horas. Ela já não sabia. Conte sobre seu livro! Eu o odeio! Sei como é! Sabe? Conversaram sobre seu trabalho e sua turnê.

Ele iria embora no fim da semana. Não queria ir. No meio daquela noite, ele começara a contar-lhe histórias, sobre seu trabalho, como o fazia com precisão, clareza. Chocante, a princípio. Depois, fascinante!

Ela podia imaginar. Todos bebendo até a embriaguez,gente da cidade, gente da sociedade, misturadas com pescadores, artistas, prostitutas. A banda excitava. Muito. Uma música especial fora anunciada. Quando começou, era hipnótica.

Apagaram as luzes. Primeiro, por cinco minutos. Quando a luz voltou, alguns saíram. O resto esperou.

Esperou as luzes se apagarem novamente. E então ficaram apagadas por dez minutos. Não se distinguia as mocinhas das prostitutas. Todas estavam em estado semelhante: excitadas. à espera de serem surpreendidas pela luz. Alguns seios à mostra, vestidos rasgados. Finalmente, por quinze minutos.

Quando as luzes voltaram, ouvia-se os gemidos de uma mulher. Crescendo em êxtase, ignorando o mundo, à beira de um penhasco. Ela recusava-se a parar, até chegar à petite mort. Libertação total. Carne, ela era carne e desejo. Tudo ao redor rodopiava como em espiral.

Realidade, sonho, devaneio, trabalho?! O vermelho e o negro! Caos. Loucura. A histeria criada pelo instinto destrutivo do humano. Tudo era festa e também política e também sonho e também trabalho e também loucura real e caótica. Comunistas, fascistas, vermelhos, cinzentos, camisas de vento. Soprava-lhe o conhecimento de ser aquele o tempo errado para se estar ali.

Como se isso importasse. Só o que queria era estar ali. Aquele livro causaria um rebuliço na liga moral. Devotos, donas de casa, todos os editores o desejariam. Adorável repugnante trabalho!

Ela o levou ao seu quanto. Havia uma escada que ruíra quando fizeram um apartamento ali. Perfeito clima romântico. Bebem uísque, dançam e começam a gargalhar sem conseguirem parar. Uísque! Ele adora uísque. E mulheres em pontes ao amanhecer.

Antes daquela noite, ela sempre procurara um milagre que não acontecia. Então ali estava ele, a dormir em sua cama. Antes daquela noite, ela ficava triste de desassossego e fome. Sentia que nada aconteceria para si. Desesperava-se com o desejo de mergulhar de cabeça na vida.

Ele pergunta: desmaiei? ... Olha ao redor e pergunta o que ela vê. Pede para contar-lhe uma história. Como se a estivesse escrevendo. Vejo... Vejo... um homem rico voltando de uma visita a sua amante. Triste. Sua artrite o tem incomodado. Também sabe que ela se cansou e possui um amante mais jovem. Lá estão, beijando-se. Como seus avós e seus pais se beijavam e do modo como nos beijamos ontem. Sua vez.

Vejo uma aventureira, uma sonhadora, uma excelente escritora. Como você poderia saber? Dei uma olhada em uma de suas histórias em cima da mesa. Roubei outra esta manhã. Algo nela criara uma extrema e perppétua ousadia quanto às possibilidades da experiência. Uma necessidade de voar. Esteve muitas vezes prestes a fazer isso e teve que fugir. Possui um espírito e potencial causadores de ciúmes. Beijam-se, pulam, correm pelas ruas como crianças exaltadas, sintonia dum sentimento exuberante.

Nada no mundo importava. Apenas aquele momento, aquela sensação, aquela brevidade que sobra. Sabia que no dia seguinte, àquela hora, ele terá partido. É apenas uma questão de tempo. antes que você seja meu. Você não vê, amor, que pertence a mim. O homem da hora. Lindo! Sublime! Apavorante, fantástico! Perigoso também! Possui a loucura suficiente para continuar interessante.

De repente, todos se surpreenderam ao vê-lo beijando uma outra moça. Perpexos! O castelo desabado, ruínas num turbilhão de sentimentos explodindo a virar pó. Ela faz a última pergunta: por que ela?

Com toda simplicidade e frieza sincera, ele responde: porque adoro a autodestruição! Porque ela não significa nada para mim.

Ela não sabia o que esperava. Então era este seu segredo, seu enigma, a resposta tão urgente que buscava. Ela também desejara a autodestruição. Tudo se encaixou e o quebra-cabeça de duas peças estava montado. Sua obra e sua jornada, terminadas.

Então ele partira... da cidade e da vida dela. A queda foi muito maior do que qualquer coisa que pudesse imaginar, pois tinha adentrado aquela emoção com toda sua vivacidade e se abandonara nela. O mais apavorante dos sentimentos era que ela não mais seria capaz de se fechar ao mundo. percebeu que ele havia não apenas lhe penetrado, mas também seu profundo ser.

Aprendeu que as pessoas necessitam enfretar o que mais temem para saberem quem são e são raras as que o fazem.

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  • Publicado em: 22/05/2017
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