Raymundo Silveira |
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Sinistro
(Raymundo Silveira)
Odiava a mão canhota. Por sua causa, se perdera no caminho. O coração
e os miolos se confundiram. De duas verdades, uma o enganou. Desencontrou ambas,
por não identificar a verdadeira. E a vida deixou de existir porque a força
que a mantinha acesa era incolor. Tudo devido à mão malsã.
No dia do aniversário de quinze anos, apoiou o braço num cavalete
de madeira e a decepou com um único golpe de machado sobre o punho. Um
reimplante salvou, mas não recuperou a função. O tempo o
condenou a reusar, mesmo com muita dificuldade. Cortou de novo. Desta vez, não
houve conjuntura técnica para implantação. Não teve
juventude foi de adolescente a envelhecente sem qualquer hiato. E ato contínuo,
à senectude. Só que era um velho de vinte e poucos anos de idade,
quatro mil de deidade e zero de idéias. Pelo menos de idéias capazes
de uma solução ou alívio para o tormento maior: não
tinha como decepar a outra. Que, por sua vez, aprendera a substituir a primeira,
deseliminando assim toda medrança alcançada com a circuncisão
da esquerda. Mãos malebras, pois lhe abocanharam o pão, a carne,
o sangue e a alma. Despaciência. Enfuriação. Amarume. Correu
um boato de madeireira. Não conhecia. Foi ver como era. Um cata-vento dentado
torava toros da grossura dele, num abrir e fechar de pestanas. Um hálito
sensual afogueou-lhe a face. Avistou uma saudade do que nunca existiu. E escutou
um perigoso além gritando vem. Tirante o encarregado do cortamento, ninguém
chegava perto. Voltou pra casa amofinado, mas com o sentido naquilo. Carecia mais
de ardileza e de valentice do que de força bruta. Cuidou achar as duas,
nas letras insossas de um livro salgado. Primeiro leu que Ozanan foi condenado
à pena capital, não precisamente por causa de uma mão, mas
de um (ir)mão. Dava no mesmo. Depois, atravessou o mar vermelho e estava
lá: Arranca um olho. Maisquer morar na corte caolho, a ter de ir com os
dois pras profundezas. Ora, estava longe disso. O que diabo era uma mão
diante dum olho se com ela tinha de enfrentar o diabo? Às tardinhas ia
pra perto da serraria e espreitava de longe. Deu fé de quatro coisas: Que
uma chave era alevantada e abaixada pra serra começar e parar de serrar.
Que um serrador e um auxiliar serravam os paus. Que o segundo serrador dormia
dentro da oficina, mas num quarto separado do da moto-serra. E que, no final do
dia, o serrador cerrava as portas por dentro e por fora, menos aquela por onde
saía. Um pé-de-cabra adjutorou. Desadorado de dor e abstido de sangue,
desacordou. O servidor do serrador acordou e acudiu. Depois de sarado, uma certa
paz inculposa. Uma noite sonhou com as mãos pecaminosas. No sonho, as duas
que já não eram, agiam do mesmo modo de uma só, enquanto
eram. Espertou pasmo do espasmo. Duas falações: uma sem ser e outra
sendo. A falação que não era, vinha de dentro da cabeça
e trouxe de volta o tormento do tempo das mãos. Procurou não escutar.
Desútil. A segunda injungia a primeira. E as duas ainda apareceram por
uns tempos. O tempo ainda estava escuro quando a Lua abscondeu o Sol e alevantou
o famigerado gerado durante os sonhos. O coitado nunca coitou, mas já ia
também pra matança. Escapou por pouco, poupado por uma capa dura.
(30/06/2006)
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