Raymundo Silveira |
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Sinal Vermelho
(Raymundo Silveira)
Ontem chorou carinho. Hoje chorei passado. Paramos lado a lado no semáforo,
pouco depois das seis. Vidros alevantados, coração, quem sabe...
O meu eu sabia: encontrava-se genuflexo, ávido da vida devida. E disparou.
Buzinei loucuras, gesticulei insensatez e cogitei descer. Meio suicídio.
Tráfego tão pesado quanto a minha nostalgia. Abaixei o vidro e
gemi saudades. Depois ululei desespero. Se acaso percebeu, simulou indiferença.
Ou revidou impiedade. Fotografei-a em pensamentos. Agora me esforço para
dedilhar imagens empilhadas, em trilhas de palavras andarilhas. Quarenta outonos
concentraram nela, as Sete Primaveras do mestre florentino. Era a recém-nascida
Vênus, e estava Afrodite sazonada. Devia possuir a cinta mágica
inspiradora do amor. E a fita bordada de desenhos variegados cingindo os seios,
onde residem todos os encantos. Tinha a ternura, o feitiço e a sedução
que enganavam a alma dos homens. E parecia possuída do desejo de seduzir
a todos. Deslumbrava magia, charme e beleza. Há dois anos foi morar na
Europa. Dificilmente voltaria ao Brasil. Estava certo de jamais reencontrá-la.
Todos os dias sonhava com isso. Ainda que fosse apenas por um momento. Explicar
o que não tinha explicação. Quando nos conhecemos, também
era casada e não tinha filhos. No rádio do automóvel, "Outra
Vez", de Isolda. Foi feita de encomenda só para nós dois.
Não há um único verso destoante. Não há um
só acorde discorde. Recorde. Como recordei! A clandestinidade tornava
tudo mais prazeroso. Subitamente, abandonei-a. Sem uma justificativa. Sem um
adeus. Amava-a com o desejo dos instantes, cuja perenidade nos homens inexiste.
Queria-a apenas enquanto sonhava, pois é somente nos sonhos onde aparece
a faceta sublime da realidade. É impossível amar sem sonhar. As
outras faces do real são incompatíveis com o amor. Cuidava que
amar era tão somente possuir um corpo. E eu não almejava possuir.
Ninguém possui ninguém. E nada é para sempre. Parecem truísmos.
E são mesmo. Mas filosóficos, teóricos, inconseqüentes.
Todos sonhamos ter alguém. Na prática, portanto, são mais
paradoxos que truísmos. Mais uma enorme contradição da
humana condição. Uma passeata vinha vindo pela via vicinal. Protestava
o protesto de todas as passeatas de protesto: Pesadelos. Soldados do trânsito
travaram transitoriamente o tráfego. Pela ruidosa rua, ruiu o rumor arrítmico
das buzinas. Desci. E bati no vidro da direita com as mãos espalmadas.
Uma fulguração de perplexidade tornou-a assustadiça. Quando
viu que era eu, assustou-se ainda mais. Parecia existir uma assimetria abissal
espaçando os sucessivos sustos... Vestígios de pretérito.
Então, o farol amarelo acendeu e mudou para o verde, enquanto eu terminava
de escrever este roteiro para a televisão. Consultei o calendário
e o relógio. Felizmente, estava dentro do prazo.
(22/05/2006)
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