A Garganta da Serpente
ajuda
 
 
  versão para impressãorecomende esta página
Ramiro Ribeiro Batista saiba mais sobre o autor

O mistério de Veneranda

(Ramiro Ribeiro Batista)

Nos poucos momentos em que costumava refletir com mais clareza, Robélio jamais conseguia chegar a alguma conclusão plausível. Em outros, mais freqüentes ultimamente, ficava aéreo, pensando no que havia feito e que, talvez, seus esporádicos instantes de lucidez tenham sido muito mais que tardios.

De onde viera aquele sentimento tão forte que os unira daquele jeito tão estranho, desequilibrado, quase insano? Não sabia se fora pelo jeito todo especial com que ela costumava pronunciar, com a língua ligeiramente presa, "seu-sa-fa-di-nho!"; ou poderia ter sido aquele ungüento canforado, de um verde leitoso e muito suspeito, que ela lhe esfregara, um dia, para curar uma terrível dor nas costas, quando ainda namoravam. Em que pesem tantas estranhezas, o fato é que finalmente casaram, para a felicidade de todos, ou quase.

Depois, outra incógnita. Também nunca soubera, ao certo, se foi pelo arroz agulhinha, cozido com caldo-em-cubos, no bafo e em fogo brando, que, terna e ingenuamente, ele a ensinara um dia a fazer, logo depois do casamento, como seu maior segredo; ou se realmente, como muitos acreditam, tenham sido os 6 abortos que causaram a ela tão mórbida silhueta. Como uma verdadeira mulher-elefanta, cuja tromba invisível sugava suas vidas. O fato incontestável era que Veneranda não parava de engordar.

Não bastasse aquela fome interminável e obsessiva por arroz com caldo-de-galinha, a compressora e abissal obesidade de Veneranda indicava um fim iminente. Robélio não sabia de quem seria o tal fim, mas os constantes arrotos e os insuportáveis flatos da esposa indicavam-lhe uma provável certeza.

Ainda lembrava, com saudade, de um não tão recente passado. Via, como em sonho, eufórico ainda, nitidamente, o corpinho bem desenhado de Veneranda com seus primitivos 52 quilos, bem distribuídos em 1 e 73 de altura, pouco antes do casamento. Mas ele nunca aceitara o fato de se ver obrigado a casar, em decorrência de uma gravidez indesejada, fruto do vacilo de insipiente namoro.

Depois, vieram os abortos. Sucediam-se, como penitência, em intervalos regulares. Uma maneira, talvez, de mantê-lo preso a ela, continuamente em vã expectativa, como ele chegou a pensar. Ou, quem sabe?, fosse mesmo pelo insistente e sincero desejo da esposa em querer filhos a correr pela casa, como ela costumava dizer sempre antes das refeições. Mas não. Não vieram. Robélio chegara à conclusão que os filhos não queriam vir para não verem uma mãe daquele tamanho, descomunal. Uma verdadeira aberração da natureza.

Para Robélio, as infindáveis noites insones deram-lhe uma feição de morto-vivo, com olheiras abomináveis a tomarem-lhe a face. Veneranda, enquanto isso, engordava mais e mais no transcorrer dos dias. Robélio, ao contrário, muito magro, parecia definhar.

E sem muito refletir e querer, enquanto esperava o sono que parecia nunca vir, fazia apostas imaginárias: quem partiria primeiro, Veneranda ou ele? E permanecia prensado, como sempre, num canto da sofrida e arqueada cama do casal, na qual a esposa, entre roncos e flatos, tomava conta de mais de três-quartos do colchão.

Até que um dia, coincidentemente ou não, ele sentira algo em Veneranda que lhe machucava ligeiramente o dorso da mão direita. Percebeu, então, uma estranha saliência nas costas da esposa, um pouco acima do cóccix. Acendeu rapidamente a luz do abajur para ver melhor, temendo a provável presença de algum incômodo inseto noturno. Aproximou a luminosidade bem junto à extremidade norte das robustas nádegas de Veneranda. E viu.

Estava ali, quase imperceptível. Assemelhava-se a uma válvula de retenção, branca como toda a pele de Veneranda, plástica como àquelas de bóias infantis salva-vidas. Tomado pela perplexidade, deixou-se mover pelo ímpeto da curiosidade, tentando inadvertidamente abri-la. Sentiu certa dificuldade em desobstruir a pequena engrenagem, mas insistiu até conseguir.

Instantaneamente, começou a escapar, sob uma incrível pressão, um gás tomado de odores, num misto de difícil qualificação, no qual pôde identificar, com asco e ânsia, algumas supostas e estranhas fragrâncias, dentre outras: enxofre, carne putrefata, arroz com caldo.

À janela, para onde se socorrera instintivamente, Robélio, tomado pelo pavor e desespero, procurava lá fora um pouco de ar respirável. Quando pôde, voltou ainda mais uma vez o rosto em direção à cama e observou abismado. Na penumbra do leito conjugal, jazia o enorme corpo da esposa totalmente murcho. Da válvula recém aberta, escapavam uns pequenos e últimos jatos espasmódicos, como flatos, sonoros, fétidos.

Desde então, Robélio, ao sentir eventual e estranha comichão nas costas, ainda mais àquelas próximas ao quadril, ignora-a ou faz de conta que não sente, evitando a todo o custo levar a mão. E o medo! E o medo!

P.S.: não tente fazer isso em casa sem a presença de um adulto!

1197 visitas desde 20/07/2007
   
  Os contos estão em ordem alfabética por:
» Prenome do autor:
A B C D E F G H
I J K L M N O P
R S T U V W Y Z

» Título do conto:
A B C D E F G H
I J K L M N O P
Q R S T U V W X
Z #
» últimos 20 contos


Legenda dos ícones:
  novo autor / novo trabalho
  autor em domínio público
  autor falecido
  trabalho premiado

Copyright © 1999-2013 A Garganta da Serpente
Direitos reservados aos autores  •  Termos e condições  •  Fale Conosco www.gargantadaserpente.com