A Garganta da Serpente
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Resgate

(Rita Rios)

Há muito ela não sentia felicidade de mulher. Desde o último amor. Tornado desamor, dor, saudade.

Queria libertar-se desse sentimento, desvencilhar-se dos velhos argumentos. Como uma roupa suja, um sapato velho, um cartão de telefone usado. Seu amor já não tinha utilidade. Estava passado, vencido. Sem a outra metade. Mas o gosto ainda estava no corpo, cravado na alma. O desejo latente. E o pior, doía.

Doía na carne. Em cada pedaço que lembrava o amor. A boca de beijos. Os braços de abraços. No ventre, o peso do corpo do homem amado. As coxas se contorciam em saudade. Em posição fetal, a mulher chorava. Maldizia o amor. Quem o inventou. Quem o despertou.

Toda noite uma sucessão de imagens. Na atormentada saudade, repetia cada cena do amor vivido. Revivido na lembrança.

O sexo com ele tinha gosto. Tinha cheiro. Era um sexo com polpa, saúde. Uma manga espada. Madura, doce, suculenta. Escorria pelo queixo, por entre os dedos, pelo ante-braço. Lambuzando tudo.

No auge do tormento, se consolava a si mesma: "um dia pára, um dia sara."

E parou. Sarou. Depois de muitas e muitas noites.

Um dia amanheceu menos cansada. Menos doída. Menos sofrida. Tomou um banho. Tomou vergonha. De sua dor. No espelho de seu quarto se olhava, se ajeitava, como se fosse a primeira vez. De um outro jeito. Não sabia que mulher era aquela. Não se reconhecia. Mas se amava. Por inteiro.

Calmamente, botou seu vestido de flores azuis. As sandálias de delicados saltos, altos. Prendeu os cabelos no alto da cabeça, deixando alguns cachos displicentemente soltos, a emoldurar o rosto. Um batom cor de boca. Óculos escuros, de modo a ocultar o vestígio das últimas olheiras. Na nuca, uma gota de perfume.

Abrandou seu coração.

Perdoou-se pelos medos, pelos erros, pelos enganos, pelas perdas, pelo choro, pelo desespero, pelo desencanto.

Pegou a bolsa. A chave de casa. Deu uma última olhada. Descobriu: estava feliz.

Saiu, fechando a porta com suavidade. O telefone tocava. Tocava. Tocava. Já não precisava saber quem era. Não tinha hora pra voltar. Lá fora, o sol, insistentemente brilhava.

Conto Classificado em 1º lugar na Categoria acima dos 21 anos no IX Concurso de Contos e Poemas do SESI CARANGOLA - MG

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