| Rodrigo Novaes de Almeida |
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Queima-de-arquivo
(Rodrigo Novaes de Almeida)
Foi no aniversário de um deles que os dois personagens desta história
se conheceram. Tinham, ambos, por volta dos trinta e cinco anos. Um jornalista,
outro policial. Tornaram-se amigos. O jornalista, e aniversariante, precisava
de alguém na polícia para resolver uma questão delicada
que poderia, se saísse do seu controle, vir a causar muito barulho nos
jornais. Não era oportuno sensacionalismo, e ele sabia disso. O policial
entendeu o recado e percebeu que aquela nova amizade poderia render bons frutos
adiante. O leitor precisa ser informado, antes de prosseguirmos, de que a tal
questão delicada não será esclarecida no decorrer desta
história. Não era nossa intenção colocar doce na
boca de criança só para tirá-lo depois. Nem daríamos
o doce, mas precisávamos de um elemento que servisse - como argamassa
- para justificar a rápida aproximação dos nossos protagonistas.
Em verdade, a questão não esclarecida não importará
para além disso aqui. Amigos, portanto, o jornalista e o policial. A
festa era em um daqueles bares que também são palcos de bandas
com espaço para dançar. Muita bebida, mulheres, papo. Tudo bem
comportado. Comportado demais, pelo menos para o policial. Decidiu que deveriam
sair dali para algo melhor. Insistiu com o aniversariante. Cooptou mais dois
entusiastas. Estes foram de moto. Para o jornalista e o amigo, tratamento especial.
Um carro de patrulha da polícia é chamado para levá-los
até um dos mais caros inferninhos da cidade. Desceram do carro na porta
do estabelecimento. Todos os olhos voltados para eles. Portas abertas. Mesa
sem reservas. Bebida por conta. E, claro, bailarinas nuas a disposição.
Um dos entusiastas logo arrumou uma loira para colocar no colo. É sempre
o clichê da loira, há de pensar o leitor, mas fazer o que, foi
escolha dele. Nada obstante, o jornalista, a esta altura mais exigente que de
costume e beirando o excêntrico, revela querer uma mulher negra, porque
- diz - nunca comi uma negra, e meu avô dizia que foi com uma a melhor
trepada da sua vida, a boceta mais quente que ele fodeu. Outro clichê,
de fato, mas lembre-se que os caras já estavam encharcados no álcool,
sendo tratados como Donos do Inferno, na maior putaria. Suas escolhas não
poderiam ser outra senão clichês. Inclusive o fecho desta nossa
história. Se o leitor já imagina que a noite para os nossos heróis
não acabará bem, acertou. Um pé-de-chinelo do tráfico
de uma favela próxima identificou o policial e escolheu aquela hora para
resolver uma questão antiga, uma outra questão não esclarecida
e que não importa e que servirá aqui apenas como argamassa, agora
para justificar o fim desta história. Sairá amanhã nos
jornais: quatro mortos em famosa casa de prostituição da cidade.
Um jornalista e três policiais. Suspeita-se envolvimento das vítimas
com o crime organizado.
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