A Garganta da Serpente
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O afortunado

(Rodrigo Novaes de Almeida)

João Pedro era um homem duro, mal-tratado pela vida. Nascera numa comunidade carente. Conviveu com todo tipo de gente. E com muito custo conseguiu terminar os estudos. Sonhava em fazer uma faculdade, mas teve que arrumar um emprego para ajudar a sua mãe com as despesas da casa. Ele era o filho mais velho de Dona Deolinda, uma diarista de casas de grã-finos muito requisitada porque, além de fazer faxina e passar roupa, ela também sabia cozinhar muito bem.

Dona Deolinda pegava duas conduções para ir para aqueles lados da cidade aonde os ricos elevavam as suas mansões, sempre cercadas pelos muros altos de concreto e preconceito.

Mas voltemos à história, ao nosso João Pedro. Já foi dito que ele era duro e mal-tratado pela vida, contudo, João tinha um bom coração, amava acima de tudo a sua mãe, depois os irmãos e o pai lá do céu. O seu pai mesmo, o pai daqui da terra, ele não conhecia. Os rios do tempo o levaram para outras margens, para os braços de meretrizes e para o falso conforto dos goles de cachaça.

João trabalhava como ajudante de mecânico numa oficina. Recebia seu salário todo dia dez de cada mês. Tirava uma parte para ele e outra dava para a sua mãe. A maior parte ficava com a sua mãe. Todavia, ele ainda separava umas moedas para a loteria. Fazia a sua fé toda quarta-feira e pedia a Deus por uma vida melhor para os seus irmãos no culto aos domingos. Naquela quarta-feira, treze de setembro de mil novecentos e oitenta e dois, Deus escutou aquele seu filho, o filho de Dona Deolinda, e João Pedro ganhou na loteria.

João, sua mãe e seus irmãos foram então morar numa bela mansão num daqueles condomínios de grã-fino que a sua mãe labutara. Seus irmãos fizeram faculdade, viraram doutores. João Pedro não fez, preferiu aproveitar a sua fortuna.

Ontem, ele recebeu a visita de Antônio, um amigo de infância lá da comunidade. Antônio o fez lembrar das peladas que jogavam todos os sábados no campinho de terra atrás do cemitério. Antônio o fez lembrar das primeiras conquistas, da espevitada Margarida, da doce Clarice, da deslumbrante Lavínia, da tímida Gertrudes, e de tantas outras meninas. Antônio o fez lembrar dos campeonatos de bola de gude. Antônio o fez lembrar de tantas coisas que João já estava com o estômago embrulhado. Antônio o fez lembrar da pobreza. Antônio o fez lembrar daquele João Pedro duro e mal-tratado pela vida. Mas João Pedro era agora um homem leve, um homem tratado, um homem afortunado.

Finalmente, depois de poucos minutos de conversa, João Pedro tomou para si a palavra e disse:

- Antônio, meu bom amigo, foi uma agradável surpresa reencontrá-lo. Infelizmente, estou de viagem marcada e só volto daqui a meses. Mas deixa estar que eu o procuro para retornarmos esta nossa conversa. Agora peço gentilmente que vá, porque eu tenho um compromisso. Adeus, meu bom amigo! Adeus!

E só depois que Antônio foi embora que o estômago de João Pedro se desembrulhou.

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