A Garganta da Serpente
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Ele ainda existe
(Renata Miloni)

O modo como movimentava a cabeça num dizer de sabedoria contida e desconhecida foi o que conquistou Pedro. Lúcia era assim quieta e tagarela aos olhares. Ouvia os pássaros, sorria com eles e se satisfazia com a chuva de verão. Seu cabelo louro acinzentado era um mistério: não terminava. Quando o acontecia, era como um suspiro, um sopro no rosto de Pedro que o deixava entorpecido.

Se alguém perguntava como se conheceram, cada um dizia sua história, mas de repente se encontravam num encanto que quando percebiam se assustavam, e paravam. Foi assim, sorriam corados.

Pedro gostava da escuridão de Lúcia. Sua cor sombria unida pelos coloridos de seu corpo. Sua sombra era diferente. Talvez fosse o cinza do cabelo e o verde indecentemente escuro de seus olhos reluzentes. Difícil descrever, mas via naquela mulher um pesadelo que de alguma forma, quando ela dançava, tornava-se sonho.

Ela escondia muitos dos sentimentos por ele na frente das pessoas. Diziam que ele não a merecia por tamanho o desprezo. Sorriam juntos, então, pela cumplicidade silenciosa e secreta que tinham. A verdade é que se amavam. Do jeito jovem de amar. Do jeito eterno de amar. E se amavam como nunca a cada dia. Os braços de Pedro eram o esconderijo mais seguro de Lúcia. Quando ela abria os olhos pela manhã, ele acreditava na plenitude da felicidade.

A forma como sorria um bom dia terno, as calças escuras e vezes tão estranhas, as mãos quando a aninhavam, os olhares sorvidos sem porquê. Quase qualquer coisa era motivo para Lúcia amar Pedro, mas mesmo assim ela não gostava de pensar em motivos. Despia-se dos porquês com atenção, pois deles não desviava um dedo.

- As razões estão aí, não se explica, dizia.

Às vezes andavam de mãos dadas se fizesse sol. Ela gostava de passear no calor, de correr e ficar suada de saúde. Ele não gostava e nem entendia, mas acompanhava-a sem esforço; quase nunca suava.

Era a verdade dele. Sim, uma mulher era todas as verdades que ele conseguiu unir durante a vida. Às vezes Pedro não precisava sequer pensar, pois sua namorada lhe era o sentido inteiro do universo ou qualquer coisa inatingível. Ela conseguia fazer com que ele observasse o terceiro lado da moeda com uma naturalidade lídima.

Gostavam das mesmas coisas sem questionamento. Tornaram-se um só quando passaram uma noite de lua cheia olhando somente as estrelas, deitados no delicado gramado da casa de Pedro, na praia, que ficava perto das rochas. Lúcia era fascinada por rochas, especialmente as praianas.

- Elas beiram o único infinito que tenho certeza ser finito e curvo.



(continua)

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