A Garganta da Serpente
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Uma lição de Natal

(Rodrigo Correia)

Noite mal dormida. Impiedosa, a saudade arranca lágrimas de uma dor que teima em não passar. O desespero toma conta de Sebastião. Longe dos pais, aquele nordestino de 26 anos lamenta não ter dinheiro nem para pegar o ônibus de volta à sua terra. Falta um mês para o Natal e ele queria apenas estar junto de quem ama. De fato, a vida nunca afagou Sebastião. Nascido no sertão cearense, foi obrigado a trabalhar desde pequeno. O sol escaldante não dava trégua, assim como as fortes dores nas costas, sina dos que lidam com a enxada. Impossibilitado de se manter na escola, fazia um exercício descomunal para ler frases simples. Vida dura, vida sofrida. De qualquer forma, não há mais tempo para pranto: O relógio aponta a hora de ir trabalhar.

Aquele estava longe de ser o emprego ideal, mas, depois de 9 meses ouvindo "não", Sebastião levantou as mãos para o céu quando soube que seria contratado como varredor de rua. Ser castigado pelo mesmo sol do sertão não era a pior parte; difícil mesmo era se virar com um salário mínimo e saber que seu contrato duraria apenas mais três meses. Mas Sebastião não deixava o sofrimento acabar com suas forças e, olhando para as ruas e casas enfeitadas para o Natal, permitia-se devanear por alguns instantes.

Num dia de folga, Sebastião quis, sem rumo, passear pela cidade e buscar analgésico para a saudade. Andou pelo parque, passou pelo Centro e depois foi conhecer o Shopping, onde admirou a iluminada árvore de Natal. Ficou encantado. Quando foi ao banheiro, algo estranho: uma carteira perdida. Ao perceber que ninguém estava perto, tratou logo de pegá-la. Era a sorte substituindo tantos revezes? Achado não é roubado. Será que Sebastião pensaria dessa forma? Definitivamente, não! Em questão de minutos, os altos falantes do Shopping começaram a anunciar o nome que constava naquele RG. O descuidado homem estava vendo as vitrines e nem sentiu falta do seu dinheiro, cartões de crédito e documentos.

A honestidade de Sebastião surpreendeu o bem-sucedido empresário que procurava presentes para a família. O homem, de 52 anos, agradeceu e ofereceu uma carona ao nosso amigo. No caminho, Sebastião contou parte de sua história de vida, o que foi suficiente para molhar os olhos de quem dirigia. Na despedida, um aperto de mãos e novos agradecimentos.

Depois de alguns dias, Sebastião foi surpreendido com uma visita inesperada: Era o homem da carteira. Dizendo estar "apenas de passagem", deixou um envelope e foi embora rapidamente.

A quatro dias do Natal, Sebastião está na rodoviária aguardando o ônibus que o levará para perto de seus amados. Enquanto espera, ele lembra o que dizia o bilhete: "Esse dinheiro é pouco para recompensá-lo, mas espero que o ajude de alguma forma. Você devolveu o que eu tinha perdido; e não me refiro à carteira, mas à fé nas pessoas, na honestidade e na simplicidade. Nunca esquecerei do seu gesto. Feliz Natal!". Ainda lembrando dessas palavras, Sebastião vê sua condução chegar. É hora de voltar...

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