A Garganta da Serpente
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André e o aviãozinho
(Rodrigo Correia)

Ele não abandonava o brinquedo, em casa, na sala de aula, em todos os lugares; os amigos zombavam e a professora até o repreendeu

Em algum lugar e não há muito tempo, um menino sonhador e altivo brincava com seu brinquedo. Felizes, os olhos do pequeno André brilhavam enquanto tinha em mãos o seu estranho, desbotado e pequeno avião.

Com a cabeça voltada para as nuvens, braço esticado e o aviãozinho na ponta dos dedos, André parecia empreender todos os esforços possíveis para erguer o brinquedo, o mais perto do céu possível.

O menino imaginava-se dentro do próprio avião e pensava em cruzar os ares de todos os países. Ingenuidade de criança, André queria fazer contato com as autoridades dos países em guerra, a fim de buscar o tão esperado cessar-fogo.

Os colegas da escola zombavam do menino e do seu encanto pelo aviãozinho de plástico. Enquanto a maioria da garotada gostava de correr atrás de uma bola, André, inerte, fazia manobras ousadas com o seu caça, no intervalo do colégio.

Apesar de apresentar notas boas, certo dia André recebeu uma reprimenda da professora. Ela se sentiu incomodada com o vislumbro do menino àquele brinquedo sem graça. A professora queria explicações.

Chamando o garoto pra conversar, a professora acabou sendo desarmada e passou a entender porque o avião era tão importante para André. A professora descobriu que o aviãozinho fazia o menino lembrar do pai, morto depois de um assalto. O pai de André perdeu a vida após reagir à investida de dois criminosos, que queriam a sua carteira. Desempregado e sem perspectivas, o pai do menino não quis entregar tão facilmente o dinheiro que ganhara no último bico, garantia de um pedaço de carne para o jantar, após semanas de extrema míngua.

André ganhara aquele brinquedo do pai dias antes de perdê-lo.

Fazer o avião de plástico alçar vôos era uma espécie de lenitivo para a dor. Em algumas das incursões, André ia até o Céu, pedia a Deus que deixasse o pai viajar com ele e sempre contava com uma resposta positiva do Criador, que, para ele, tinha a cara do velhinho que vendia sorvetes.

Boquiaberta, a professora derramou água dos olhos, enquanto abraçava fortemente o menino, que observava de soslaio o seu avião, por ora, aterrissado na mesa.

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