A Garganta da Serpente
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Abutre

(R. Carvalho)

Não sei o porquê de meu nascimento, minha cabeça parece maior que meu corpo, minha mãe não tem o que comer, nem eu tampouco, meus ossos parecem escala musical de um piano - nunca vi e nunca verei um piano - nem sei se tenho um cérebro capaz de pensar, andar nem pensar, não tenho forças, talvez eu cresça, talvez um abutre me devore, a verdade é que não sei onde minha mãe consegue forças para me parir, já que para me gerar, muitas vezes é forçada, querendo ou não, com sacrifício ou dor, não importa, alguém sempre abusa dela e com forças sobrenaturais ela tentará me criar nesse deserto de fome, de vida, de ser humano. Nasci na África. Sim a mesma que você gasta milhares de dólares para admirar as paisagens únicas e selvagens do lugar, que também é essa em que o abutre fica me olhando, esperando a hora de me devorar, graças a Deus, ou aos homens!?

VOCE JÁ DEVE TER VISTO AQUELA FOTO EM QUE O ABUTRE AGUARDA O MENINO MORRER PARA SE ALIMENTAR DELE. IMAGENS QUE FICAM GRAVADAS PARA SEMPRE. COMO TAMBÉM AQUELE MENINO, COM AQUELE OLHAR DE QUEM VIVE A NOS ENCARAR, COBRANDO ALGUMA COISA DA GENTE!

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