| Priscila Miraz |
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Sedução
(Priscila Miraz)
"Nos desenhos incolores feitos durante a Primeira Guerra Mundial, a nervosidade
grafológica do traço obtém cada vez mais importância
devido a tracejados inclinados e ondulações sismográficas,
a ponto das figuras parecerem prisioneiros de um enredo de padrões tracejados
como um arame farpado, e os corpos torturados por uma força sádica".
Wolfgang Georg Fischer. Egon Schiele. Taschen.
Assim, figura estática diante da gravura da moça ruiva era estar
em lugar que não existe. Caminhava com a gravura diante dos olhos como
transparência que ia filtrando as imagens do caminho, porque sabia que
ao dobrar a esquina a casa estaria ainda lá como sempre se lembrava dela.
Talvez o frio a ajudasse. Ou o momento de paralisia fosse toda a vida. Ou um
cargo lhe desse a dignidade diante das pessoas que outro esforço maior
não possibilite. O abraço no joelho, o abraço dado desesperadamente
na ilusão das lembranças que vamos ordenando. Enquanto gargalhavam
sentados no chão do quarto estreito daquela casa, por algum motivo etéreo,
vinha aos olhos o clamor de uma malícia que não conhecia, mas
que simulava e fascinava e pensava enganar e só muito tempo depois descobriu
que não, que esse engano talvez fosse impossível, mas que o que
inventou resultou nos encantos daqueles dias. E de uma maneira tão inusitada,
tinha feito coisas. Não sei porque acho a gravura tão bela,
com seus traços perdidos, suas cores vazadas, aqueles olhos fixos e as
meias longas das mulheres das guerras. Caminhava e inventava o passado com
poucos pontos que o sustentasse. A noite era sempre outro lugar, outra cidade
que ainda não tinha conhecido, os personagens sempre mais interessantes,
com a vida de outro tempo quando vistos fazendo suas coisas, em seus desesperos
patéticos, como o homem aleijado, bêbado que entrava na frente
dos carros que estavam parando no sinal. Os carros desviavam e seguiam com os
gritos e o choro do homem em sua angústia por não ter sido levado
a sério. Aquele desenho das sobrancelhas descendo em curvas exatas
para fazer o nariz sempre me fez lembrar do homem-lince do Levi-Strauss, da
qualidade de alguns de se transformarem em animais. A mulher ruiva da gravura
era a mulher-lince perdida no tempo, presa ali, sentada com a calma que os olhos
de bicho estrangulava. Foi uma presa fácil. Nem mais, nem menos. Fácil.
E agora, quando passava por aquela calçada e tentava lembrar da vida
de antes, um emaranhado de cenas interrompidas, desconexas iam se acumulando
pra depois, depois que resolvesse o que a fez sair de casa ou do trabalho, depois
que nunca chegava e o que era resolvido no caminho ficava assim, misturado como
o resto e como o que estava ao lado, à frente. Talvez fosse o frio
que sentia ali, posando em tão pouca roupa, que lhe desse aquela impressão
de fechar de dentes rangente, duro. Talvez sentisse raiva. Quisesse sumir.
Sumir na tela sempre vista pra além dela, pra além do pintor.
Finalmente chegou em frente aos degraus da porta de entrada. Passou por eles
com a velocidade mesma de seu caminhar, sem mais e sem menos. Igual. E tentou
segurar ali o pensamento. Dobrou a esquina e seguiu. Com a mesma expressão
no rosto, com o mesmo fechar duro das mandíbulas. Seguiu.
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