| Priscila Miraz |
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O Lagarto
(Priscila Miraz)
Tinha o rosto macilento e suas roupas nunca pareciam suas. As saídas
de casa eram sempre rápidas, furtivas como os olhos. Quando precisava
andar mais de um quarteirão, percebia-se nitidamente o desconforto nas
mãos que percorriam os braços ou puxavam a barra da blusa. Sua
voz tentava um tom mais baixo, mais suave, mas sempre soava falsa e constrangia.
Não tanto quanto sua risada. Surgia tão despropositada e infame,
nervosa, e terminava com uma espécie de soluço que se prolonga
até sumir. Quando conversava mantinha uma seriedade distante, presa não
no que ouvia, mas na rigidez de seus próprios juízos. Suas relações
eram estúpidas. De cada frase, gesto ou assunto das pessoas que ainda
restavam ao seu lado, tirava horas de um monólogo exaltado e inútil,
onde sempre deixava claro o quanto as pessoas aproveitavam de sua bondade e
disposição para ajudar. Era a única que acreditava nisso,
mas não importava. Seu rosto congestionava, as rugas ao redor da boca
se apertavam e movia os lábios numa tentativa ridícula de sensualidade.
Nos olhos surgia um brilho seco, contundente e frio. E nessas horas as coisas
que dizia, seus gestos, sua figura, provocavam em quem via uma angústia
que conforme sufocava e subia aos olhos, poderia estrangulá-la. Foi num
desses momentos que, olhando pela janela, viu um imenso lagarto verde atravessando
seu jardim. Dirigiu-lhe toda sua fúria, lhe atribuiu toda a vergonha
e desgraça que já sofrera e as possíveis vindouras. Quanto
mais berrava mais se irritava com aquela indiferença de lagarto. Foi
quando seus olhos quase saltaram com o bombear do sangue e seu grito tornou-se
contínuo, que o lagarto soltou rapidamente sua língua. Depois
de totalmente enrolado, o corpo foi puxado para dentro do animal, que imediatamente
tornou-se imóvel como uma pedra. Suas unhas cresceram em segundos, cravando-o
ao chão. Muitas foram as tentativas de tirá-lo daqui, mas foi impossível.
Então os passarinho começaram a usá-lo para descansar e os musgos
cresceram.
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