| Priscila Miraz |
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O ciclope cego
(Priscila Miraz)
O homem estava agora com o rosto pousado no travesseiro, os olhos fechados,
e ela pensava na brincadeira do ciclope, da primeira vez em que leu o capítulo
97 do Cortázar e contou ao homem e eles brincaram e riram, e pensava
nisso a poucos centímetros de seus olhos fechados por segundos passados
naquele presente repentino. Foi ainda com os olhos fechados que ele disse "estranho..."
virando o corpo na direção daquela que era mulher e apoiava a
cabeça em uma das mãos e lhe revolvia os cabelos com a outra,
os cabelos tão pretos e lisos e cortados sempre do mesmo jeito, e ela
sorria silenciosa e guardada. Sempre havia neblina nas manhãs de começo
de inverno e ela sempre perdia o ônibus. Mas naquela manhã viu
o homem andando do outro lado da rua, sós os dois naquela rua, naquela
hora da manhã, naquele pedaço estreito que lhes cabia na vida,
e o chamou interrogativa pelo nome, pensando na possibilidade de ser enganada
pela neblina. Mas foi ele mesmo que se voltou. Disse novamente "estranho"
e agora ela lhe assentiu com um fechar lânguido dos olhos. As bocas se
enchiam a todo o momento de coisas querendo ser ditas e eles as perdiam, deixavam
que fossem, quase plenos de um desprendimento que não convencia e que
não poderia ser de outra forma senão daquela, a deles, massa agônica-flutuante
entre a impossível proximidade e a distância disfarçada.
Por cima do sofá que ela não conseguia ver de que cor era, estava
jogada uma coberta de crochê vermelha, grande o bastante para encostar-se
ao chão por alguma das pontas. Quando ficava sem jeito enroscava o dedo
indicador em algum dos pequenos buracos do desenho que o crochê formava
e desviava os olhos num fingido vagar que não existia por outro motivo
que o de lhe dar algum fôlego. "Tenho ainda essa mania". "Tinha
tantas". "Essa... você sabe...". "Ah! É claro!
Essa". E ele abaixou os olhos no fim da frase, olhando as pontas dos próprios
dedos das mãos, quase tímidas. Tímido ele. Era quase nulo
o cômodo, indefinido, perdido, não sabia para quê estava
ali. Um sofá com manta vermelha de crochê, uma cama de solteiro
encostada contra a parede em frente à porta, e um móvel irreconhecível
debaixo de um enorme vaso de folhagens verde - clara e branca que não
sabia se eram verdadeiras plantas ou se fingiam. A carranca era enorme e veio
de longe. Ela sempre gostou de olhar. O preto, o vermelho, o branco dos dentes.
Tinha cheiro de navio velho que volta pra casa em domingo quente nas primeiras
horas da tarde. Mas jamais soube qual é o cheiro de um navio velho. Não
conseguia lembrar porque deram a carranca, pra quem. Ou se foi vendida. Mal
lhe vinha a memória o cheiro da maresia e dos peixes. E mal sentia o
vai-e-vem dos dedos do homem. Todo esforço era para lembrar e viver,
mas ainda não tinha o equilíbrio desse jogo, tentava o ponto exato
ao do ciclope, aquela distância medida onde a visão enganada junta
os olhos em apenas um que treme e se desfaz e se refaz. Só sentia a dor
das tarraxas dos brincos perfurando aquela região detrás da orelha.
A música cantada em cabaré de filme nacional dos anos oitenta,
procuro no cais do porto a razão pra cair na vida procuro no cais do
porto alguém pra amar na imensidão das ondas do mar. O braço
apertando a cabeça e de repente a volúpia e a impossibilidade
de confissão; não confessar jamais o arrepio do momento de brutalidade,
das palavras cuspidas tão de perto no rosto vermelho da raiva e do medo
e da volúpia. "Um cigarro?" "Não mais". Não
podia sentir o cheiro do cigarro se misturando aos outros dos perfumes porque
estava frio e começava a sentir o frio e seu nariz congestionado. Jogou
o corpo no espaço que tinha do colchão e a única vontade
era a de não estar ali, esse lampejo de lucidez que sempre aparece nas
horas impróprias, a pergunta latejando, porque faz isso? é sempre
isso, e a resposta condescendente e bruscamente sincera era sempre a mesma.
Quando sua memória parecia entorpecida pensava e depois se dava conta
de que não era mais que uma lembrança. Que sempre tinha sido a
mesma resposta no mesmo momento de desespero, a pergunta sempre a mesma pra
mesma resposta, nem a inflexão era outra e sim podia ser, era um perder-se
de possibilidades sempre invisíveis ao toque cego desses momentos repentinos.
E quando abria seu único olho: a mesma resposta estampada em um rosto
de único olho impossível de reconhecimento, a risada soando longa
e lenta e estranha aos ouvidos despertos pela curiosidade. Nunca por outro motivo.
A curiosidade os havia feito surdos e os acordava quando já não
podia, quando tudo já estava condensado em um único olho estranho.
Os cabelos tinham crescido e sempre os prendia enrolados e confusos, quase desmoronando.
Desceu lentamente os braços conforme as mãos se desocupavam dos
cabelos, os soltou no colo com o acompanhamento de um sorriso cansado. "Volto
logo pra cá. Passo a vir mais". Somente outro sorriso e o cansaço.
Depois da porta fechada atrás de si, tombou a cabeça. Conseguiria
por quanto tempo?
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