| Priscila Miraz |
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Até ali
(Priscila Miraz)
E no não enxergar bem o inventar forte. Dali por diante escorregou entre
os vãos de sombra com deleite e jeito de moça que dança
bailarina. Das massas escuras e dos ares que lhe brilhavam quando do respirar
tirava a sua vida de inseto e folha. Fina e corpórea. Ágil no
pensar o mover-se. Sentiu que podia ser mudança e sorriu antes do ônibus
parar. Segundos antes de o ônibus parar sorriu desligada dos outros. Subiu
os degraus com ele preso na cara. Depois o deixou esmorecer, mas não
nos olhos. Ainda longe dali, abraçada com a bolsa grande que sempre carregava
pela cidade, olhava por uma janela todo o recém descoberto. Tinha cor
metálica o asfalto molhado da garoa que voltava depois de meia hora de
trégua. O coração estava aos pulos, mal contido. Quando
o burburinho do ônibus diminuía, era momento de pensar as coisas
que podiam ser se não fosse contido o retumbar. Ria das possibilidades.
E era um estar alegre sem mais. E era assim. Como um arrepio por dentro da roupa
de lã. Elétrico e de poucos segundos. Mas segundos onde não
se move, com medo de o barrar de acontecer. Desceu na praça com a garoa.
Nunca tinha guarda-chuva. Continuou o abraço na bolsa e correu atravessar
a avenida. Um quarteirão e o segundo também. Mas no terceiro que
lhe faltava foi andando e respirando com todo o som, e sentindo o vagar do frio
assoviante entrando pelos ossos. E eles começavam a ranger pra reclamar.
Ainda de longe viu o contorno. No meio da rua vazia e gelada, na direção
exata de seu portão. Seguiu calma com o coração nos ouvidos.
Foi só.
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