| Priscila Miraz |
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Adeus
(Priscila Miraz)
E não é por não te querer mais. Só que a única
coisa possível de te dar por algum tempo é esse rosto seco e duro
que restou depois de metido no chuveiro e onde talvez tenha me permitido alguma
lágrima. Não é por mérito ou por força ou
por fraqueza. As medidas só existem como tentativas de definição
e eu sempre busquei em você as sobras que não cabem, aquela última
luz laranja do dia que por descuido a gente olha e não guarda e segue.
Não é pelas mulheres. É por descaso das palavras e dos
gestos, esa arquitectura de la nada, encendiendo sus lámparas a mitad
del encuentro. Não é raiva. É decepção
por saber que seja qual for a decisão que tome por você, será
aceita sem uma palavra que me contradiga. E o que restar não passará
de um desconforto, um incômodo, uma pequena pontada no seu estômago
que os afazeres do dia farão esquecer e que por qualquer motivo sutil
a memória trará em relâmpago, deixando o esforço
por se lembrar dos restos perdidos. É por me recusar a ser a única
doadora. É por não ser capaz de me recolher no teu abraço
sem ter já a boca pronta pra dizer que vai embora. E não é
por estupidez que as minhas esperas patéticas e inúteis ainda
vão durar por algum tempo. Mas é por falta talvez, que você
não esteja entendendo esse adeus.
09/06/06.
Tomara que não, mas essa pode ter sido a última vez. Fechou o
portão e não parou depois de trancá-lo para ver os passos
que iam pelo asfalto cheio da garoa da madrugada. Tomara, tomara que não.
O sinal gritava sempre um minuto antes, sempre roubava o minuto e isso era imperdoável.
Logo depois o inspetor que acabara de soar o sinal já estava parado olhando
pra cara de todos com um dos ombros encostados no batente da porta, com a lista
das classes e os horários das aulas nas mãos conferindo quem estava,
quem faltava, resmungando de mau humor e aumentando o dos outros que já
não era pouco aquelas tantas da tarde. Era sempre aquilo e ainda o engolir
do café frio no copo de plástico, atravessar o pátio pensando
que podia ser melhor, que um dia vai ser melhor senão não vai
dar, senão se perde, e o perder e ganhar ali era uma trama, um conluio
do qual sempre se participava e do qual sempre se era externo. Boa tarde. Eles
ouviram ou não. E aquilo era uma relação humana. Humanamente
bruta. O caminho percorrido por anos com chuva com frio com muito calor com
alguma esperança triste, la tristeza que tuvo tu valiente alegria.
Uma valente alegria encerrada em envelope verde e jogada frente àquela
porta. Na última tarde antes das férias fez meia-volta no caminho
da casa e buscou pra si uma rosa. Voltou A Moça com a Flor, de mãos
envelhecidas com uma rapidez que foi capaz de assustar e constranger o amigo
por dois anos distante. Assustar e Constranger. Uma espécie de Ms. Deloway,
editora da história. Complicadora da história. Entrando pelo portão
voltou até a madrugada anterior e Tomara que não, mas essa pode
ter sido a última vez. Tomara, tomara que não.
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