A Garganta da Serpente
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Sideração
(Paulo Galati)

Já era bem de madrugada quando ele colocou água fresca no copo e então viu. Viu aquela luz forte, branquíssima, se aproximando pelo corredor, até aparecer, tomando os batentes da porta da cozinha.

Ela era alva, muito alva. Suas asas, suas penas - quanta luz, meu deus. Mas dava pra fitá-la sem cansar a vista, dava pra reparar bem as suas vestes de anjo, seu atraente decote apertando de leve os seios - claríssimos - de onde cintilavam as purpurinas prateadas que os enfeitavam. Os cabelos como de estrela de cinema, pareciam brancos. Mas não eram: eram de prata. O batom tornava madrepérola os lábios da boca mais bem desenhada e cheia de esplendor que algum dia pudesse ter visto.

Ele estava calmo. Seu coração acelerou e bateu com mais força, mas ela, irradiante, nem chegou a perceber. Só o via calmamente bebendo a água, sem nenhuma pressa, sem tirar-lhe os olhos, encantado.

Com a voz tranqüila, perguntou meio ansioso:

- Como é feito o brilho de suas vestes?

- Você é muito bonito - disse ela - você é uma pessoa muito bonita - continuou dizendo, sem responder à sua pergunta.

Mas ele insistiu:

- O que você está fazendo aqui hoje? Porque você brilha tanto? - falou, deixando o copo sobre a mesa.

- Não se incomode. Eu vim pra você me conhecer. Venha! - e fez um gesto, baixando devagar os olhos, convidativa.

Com dois passos provou o sabor divino de seus lábios, sentiu na ponta da língua a textura aveludada de seu pescoço sideral, passou os braços em sua cintura até tocar as suas asas, apertando-as levemente, sentindo também seus seios, suas pernas, seu cheiro e sua luz, que foi aumentando, aumentando até envolvê-lo por completo - frágil planeta sem órbita, que já não distinguia mais nenhuma luz.

Só restou o cheiro azedo dos recém-nascidos enquanto, de volta, percorria alegre e bêbado a via láctea.

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